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Helberto HélderAmo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. - Temos um talento doloroso e obscuro. construímos um lugar de silêncio. De paixão. Herberto Hélder Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/10/helberto-hlder-amo-devagar-os-amigos.html PRINCÍPIOS - 04Out2006 21:00:00
Nuno JúdicePodíamos saber um pouco mais da morte. Mas não seria isso que nos faria ter vontade de morrer mais depressa. Podíamos saber um pouco mais da vida. Talvez não precisássemos de viver tanto, quando só o que é preciso é saber que temos de viver. Podíamos saber um pouco mais do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada sabemos do amor. Nuno Júdice Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/10/princpios.html LUA ADVERSA - 29Mai2006 02:33:00
Cecília MeirelesTenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu... Cecília Meireles Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/05/lua-adversa.html PEDRA FILOSOFAL - 19Mai2006 23:46:00
António GedeãoEles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. António Gedeão Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/05/pedra-filosofal.html O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO - 13Mai2006 21:38:00
Fernado PessoaO que há em mim é sobretudo cansaço Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto alguém. Essas coisas todas - Essas e o que faz falta nelas eternamente -; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada - Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço. Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço... Álvaro de Campos Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/05/o-que-h-em-mim-sobretudo-cansao.html NÃO POSSO ADIAR O CORAÇÃO - 09Mai2006 10:19:00
Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob as montanhas cinzentas e montanhas cinzentas Não posso adiar este braço que é uma arma de dois gumes amor e ódio Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa se demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação Não posso adiar o coração. António Ramos Rosa Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/05/no-posso-adiar-o-corao.html Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... - 08Mai2006 00:42:00
O maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía. Luis Vaz de Camões Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/05/mudam-se-os-tempos-mudam-se-as.html A BELEZA - 03Mai2006 13:35:00
Miguel TorgaNão tens corpo, nem patria, nem familia, Não tens curvas ao jogo dos tiranos. Não tens preço na terra dos humanos, Nem o tempo te roi. Es a essência dos anos, O que vem e o que foi. Es a carne dos deuses, O sorriso das pedras, E a candura do instinto. Es aquele alimento De quem, farto de pão, anda faminto. Es a graça da vida em toda a parte, Ou em arte , Ou em simples verdade. Es o cravo vermelho, Ou a moça no espelho, Que depois de te ver se persuade. Es um verso perfeito Que traz consigo a força do que diz. Es o jeito Que tem, antes de mestre, o aprendiz. Es a beleza, enfim. Es o teu nome. Um milagre, uma luz, uma harmonia, Uma linha sem traço... Mas sem corpo, sem patria, sem familia, Tudo reposa em paz no teu regaço. Miguel Torga Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/05/beleza.html AMIGO - 23Abr2006 02:37:00
Alexandre O´NeillMal nos conhecemos Inaugurámos a palavra amigo! "Amigo" é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece. Um coração pronto a pulsar Na nossa mão! "Amigo" (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) "Amigo" é o contrário de inimigo! "Amigo" é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado, É a verdade partilhada, praticada. "Amigo" é a solidão derrotada! "Amigo" é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, Amigo" vai ser, é já uma grande festa! Alexandre O?Neill Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/04/amigo.html CONSELHO - 11Abr2006 22:11:00
Eugénio de AndradeSê paciente; espera que a palavra amadureça e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a mereça. Eugénio de Andrade Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/04/conselho.html AMO-TE TODOS OS DIAS - 02Abr2006 02:38:00
Gonçalo Nuno MartinsEu quero olhar-te nos olhos, E ver-te afastar delicadamente o cabelo da cara Enquanto encostas a cabeça à ombreira da janela da sala, E agarrar as tuas mãos febris Com as minhas mãos geladas E dizer-te que as nossas mãos São asas com que podemos voar Para lá da pequenez desta prisão crepuscular, E mergulhar na magnitude do mistério. E ouvir-te dizer que voar é impossível E dizer-te que entre nós não há impossíveis, E ver-te procurar a serenidade num cigarro E esconder-te o isqueiro debaixo da manta Cor-de-fogo que cobre o sofá velho, E ver-te ir à última gaveta do móvel de carvalho E acender o teu cigarro com um dos infindáveis Isqueiros que lá guardas, E ir à última gaveta da tua alma E de lá arrancar o teu enigmático sorriso. E fingir que não percebo que enquanto nos beijamos Me roubas, maquiavelicamente, o comando da televisão, E falar-te acerca da rapariga das tranças ruivas Que aparece, na magia dos meus sonhos, Sentada no banco do jardim da lua, E sorrir aos teus ciúmes de alguém que não existe, E fingir que estou a tossir mais que aflito E ver-te esmagar bruscamente o cigarro contra o cinzeiro E refugiares-te no chá de cereja, E ouvir-te elogiar as chávenas rubro incandescente, Que trouxeste da viagem ao México, Só porque sabes que não gosto daquelas chávenas, E ver-te despir para tomar banho E tocar-te como quem lê um poema em braille, Como se o teu corpo fosse, simultaneamente, Uma encruzilhada onde me perco E um mapa onde me volto a encontrar, E reter-te por séculos nos meus braços, E fugir quando alcanças o chuveiro ameaçador, E esperar ansiosamente que termines o teu banho E beijar o calor da tua pele húmida quando regressas, E sorrir ao olhar falsamente ressentido Que lanças desde o sofá onde estás deitada Com o cabelo molhado, E ver-te ceder ao peso das pálpebras Quando as horas pesam séculos sobre os olhos, E adormecer junto a mim, E ser percorrido pela profunda paz Que emerge da perfeição daquele momento, Perfeição que, felizmente, não tens: Gosto de ti, não apesar dos teus defeitos, Mas com os teus defeitos. Todos. E tocar-te uma vez mais, Mas querer também deixar-te dormir, E acordar antes de ti, E ir à padaria buscar pasteis de nata E ver-te deliciar com eles Sem te importares de semear a cama com migalhas Enquanto eu me delicio com o teu sorriso, E ver-te beber sumo de laranja Segurando o copo com as duas mãos, E pressentir que te conheço há sete vidas E que afinal tudo isto faz sentido Porque tu existes, E perceber a sorte que tive em te encontrar No meio de seis biliões de seres humanos. Eu quero olhar-te nos olhos, E? Gonçalo Nuno Martins Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/04/amo-te-todos-os-dias.html ANJO - 31Mar2006 00:20:00
Dormia e um anjo me atravessou o sono. Derramou sua luz como água. E acordou-me E continuei a vê-lo, ordenador e aceso. E eu era tão pequeno, atónito. Levou-me. Carlos Nejar Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/03/anjo.html CRESPUSCULAR - 27Mar2006 19:59:00
Nuno JúdiceA incerteza cai com a tarde no limite da praia. Um pássaro apanhou-a, como se fosse um peixe, e sobrevoa as dunas levando-a no bico. O seu desenho é nítido, sem as sombras da dúvida ou as manchas indecisas da angústia. Termina com a interrogação, os traços do fim, o recorte branco de ondas na maré baixa. Subo a estrofe até apanhar esse pássaro com o verso, prendo-o à frase, para que as suas asas deixem de bater e o bico se abra. Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma. Nuno Judice Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/03/crespuscular.html JARDIM DO ÉDEN - 20Mar2006 02:31:00
Descobri que não existo realmente.
Sou apenas fruto da minha imaginação. Toda a minha vida não é mais que um jogo imaginário. O meu mundo, escrevi-o ao meu gosto. Vivo num paraíso particular: O meu Jardim do Éden. Sim! Escrevi-o ao meu gosto, Escrever é a única coisa que me prende, A única coisa que me liberta, Aqui, no mundo dos homens? É a sensação mais lasciva e hipnótica que já vivi. É arder no fogo da minha imaginação. Queriam-me um cidadão bem comportado? Queriam-me aparente, frívolo, domesticado? Jamais serei rato da gaiola de testes de ninguém. Renasço sempre que o meu cérebro Explode como uma granada. Não temo a insanidade. A cada dia que passa a folha do calendário cai Como as folhas das árvores no Outono, E a cada novo dia que olho o calendário Sei que posso estar a olhar para a data da minha morte. Livrem-me da neblina cinzenta do quotidiano, Da vidinha dos dias insípidos, secos, descolorados? Na minha vida quero que tudo seja mítico, Ou que tudo esteja morto. O meu mundo envergonha o arco-íris, A realidade é sépia como uma fotografia velha. Nada é tão decepcionante como viver a realidade. Basta de pensar nela. Vou apagar a luz e abrir o portão... Gonçalo Nuno Martins Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/03/jardim-do-den.html Fernando PessoaQuero, terei - Se não aqui, Noutro lugar que ainda não sei. Nada perdi. Tudo serei. Fernando Pessoa Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/03/fernando-pessoa-quero-terei-se-no-aqui.html ADEUS - 12Fev2006 00:08:00
Eugénio de AndradeJá gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus. Eugénio de Andrade Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/02/adeus.html POEMA EM LINHA RECTA - 04Jan2006 16:39:00
Fernando PessoaNunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, quem quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos, Arre, que tou farto de semideuses! Onde é que há gente nomundo? Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo em ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores se titubear? Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. Álvaro de Campos Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2006/01/poema-em-linha-recta.html NOITE ENCANTADA - 19Dez2005 23:07:00
Noite encantada, cobre-me com o teu manto,
Será que sabes que te amo loucamente? Anseio o teu cheiro amargo a suor quente, Onde me perco e encontro em teu encanto. Quebro o tédio dos dias cinzentos em pedaços, E enlouqueço por disfarçar toda a saudade Da beleza negra que exibes com vaidade, Enquanto descubro prazeres dos teus regaços. Como é doce mergulhar nos teus braços, Descobrir-me outro na tua imensa liberdade, E desvendar cada pedaço da nova verdade, Que trazes nas tuas formas, nos teus traços. E pela manhã quando, saudoso, me levanto, Ainda sinto nos lábios o teu sabor ardente, Recordo ecos de versos do poema eloquente, Que me segredaste ao ouvido para meu espanto. Gonçalo Nuno Martins Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/12/noite-encantada.html
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o modos de falar que reparar para elas ensina.) Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar, Então acredito nele, Então acredito nele a toda a hora, E a minha vida é toda uma oração e uma missa, E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol, Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; Porque, se ele se fez, para eu o ver, Sol e luar e flores e árvores e montes, Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores, É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol. E por isso eu obedeço-lhe, (Que mais sei ei de Deus que Deus de si próprio?), Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, Como quem abre os olhos e vê, E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, E amo-o sem pensar nele, E penso-o vendo e ouvindo. E ando com ele a toda a hora. Pensar em Deus é desobedecer a Deus, Porque Deus quis que o não conhecêssemos. Por isso se nos não mostou... Sejamos simples e calmos, Como os regatos e as árvores, E Deus amar-nos-á fazendo de nós Belos como as árvores e os regatos, E dar-nos-á verdor na sua primavera, E um rio aonde ir ter quando acabemos!... Alberto Caeiro Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/12/no-acredito-em-deus-porque-nunca-o-vi_15.html AMAR! - 15Dez2005 16:21:00
Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: Aqui... além... Mais Este e Aquele, o Outro e a toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente! Há uma Primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me sauba perder... pra me encontrar... Florbela Espanca Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/12/amar.html VARIAÇÕES SOBRE UM CORPO - 03Dez2005 22:50:00
Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro. Faz bem só pensar em ver Seu corpo meio maduro. Seus seios altos parecem (Se ela estivesse deitada) Dois montinhos que amanhecem Sem ter que haver madrugada. E a mão do seu braço branco Assenta em palmo espalhado Sobre a saliência do flanco Do seu relevo tapado. Apetece como um barco. Tem qualquer coisa de gomo. Meu Deus, quando é que eu embarco? Ó fome, quando é que eu como? Fernando Pessoa Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/12/variaes-sobre-um-corpo.html CÂNTIGO NEGRO - 12Nov2005 15:19:00
"Vem por aqui" ? dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. ? Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém! Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí! José Régio Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/11/cntigo-negro.html LIBERDADE - 09Nov2005 16:01:00
Ai que prazer
Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quando há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca... Fernando Pessoa Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/11/liberdade.html MATEM OS POETAS! - 05Nov2005 16:36:00
Nas páginas anteriormente brancas dos livros inúteis,
Nas velhas caixas de recordações de jovens sentimentais, No tronco apunhalado da árvore centenária do jardim, Nas últimas folhas dos jornais locais que ninguém lê, Letras em cadência de verso denunciam a sua existência. Em letras pequenas Do tamanho do amor, da esperança, da saudade, Versos anunciam que uma pequena alcateia de mulheres e homens, Guiados por corações sem rédeas, Escreveu sentimentos proibidos Em horas de solidão, Inventando uma subversão a que chamam poesia. Uma alcateia de mulheres e homens livres, Com fome e sede de infinito, Soube dar vida a letras esquecidas. Basta-lhes um sonho. A noite. A paixão. A beleza de um olhar reluzente. Armados com caneta e papel, Camuflados com um olhar humilde Que disfarça uma insuportável dignidade, Mulheres e homens inundam a terra árida do mundo, Com palavras viciosas sob a forma de poemas. É urgente travá-los antes da contaminação colectiva, Antes que a epidemia se espalhe E a poesia se torne numa doença universal. Justificam-se medidas drásticas. O presidente que decrete o estado de sítio. Alerta vermelho! Mobilização geral! Chame-se o exercito, a marinha, Ordene-se que os navios de guerra estejam a postos, Os aviões devem carregar mísseis e voar imediatamente, As forças de segurança devem procurar cidade-a-cidade, Vasculhar bairro-a-bairro, Revistar casa-a-casa. Sem esquecer as escolas, os cafés, os jardins? Existem penas exemplares para quem não denunciar os criminosos, A situação assim o exige. Está em causa o futuro da Humanidade. O futuro do sistema social que construímos, O futuro dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos, O futuro das nossas vidas conquistadas com suor e trabalho. Não se deixem vencer pelo cansaço: Encontrem-nos! Só quando conseguirmos eliminá-los poderemos viver em paz. Num qualquer local desconhecido, Mulheres e homens perigosos escrevem poemas. Descurando as suas tarefas sociais, Semeiam no mundo hieróglifos compadecidos. É imprescindível intensificar as buscas. E ao encontrarem esses infames Esgrimindo verso após verso de caneta em riste, Não hesitem: Disparem! Mesmo que seja amigo de infância: Disparem! Colega de escola: Disparem! Partilhou convosco a mesma carteira: Disparem! Ofereceu-vos da sua comida quando tinham fome: Disparem! É possível que sintam uma compaixão tolerante Quando os descobrirem indefesos perante a vossa espingarda. Não se deixem comover: Apertem o gatilho e calem-nos para sempre! Para bem do mundo, Procurem a alcateia de mulheres e homens que inventaram a poesia. É preciso encontrá-los antes que seja tarde... Gonçalo Nuno Martins Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/11/matem-os-poetas.html FUMO - 04Nov2005 12:55:00
Longe de ti são ermos os caminhos.
Longe de ti não há luar nem rosas, Longe de ti há noites silenciosas, Há dias sem calor, beirais sem ninhos! Meus olhos são dois velhos pobrezinhos Perdidos pelas noites invernosas... Abertos, sonham mãos cariciosas, Tuas mãos doces, plenas de carinhos! Os dias são outonos: choram... choram... Há crisantemos roxos que descoram... Há murmúrios dolentes de segredos... Invoco o nosso sonho! Estendo os braços! E ele é, ó meu Amor, pelos espaços, Fumo leve que foge entre os meus dedos!... Florbela Espanca Fonte: http://amantedapoesia.blogspot.com/2005/11/fumo.html Faça o seu registo
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