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Causos de rosinha


Veja - 19Nov2008 23:46:00
Veja, se o mundo parasse por causa de tragédias, acidentes, mortes, decepções, desilusões, amores perdidos, guerras, descasos, pecados, dores, paixões, desesperos, impaciências, injustiças, injúrias, perdão, angústias, doenças, ganhos, grana, pai, mãe, avós e tias. Se o mundo parasse porque ele não veio, não me quer mais, deixou de amar, quer ser livre, ou então, porque desisti de querer sonhar, quero minha cama, vou acabar com tudo! Se o mundo parasse, tudo pararia com ele. A vida é como o mundo, segue sempre... As vezes nem sabemos para onde, outras temos certeza, no entanto, ela segue. Tal qual um rio que desatinado em seu curso só tem uma meta, chegar ao mar. Por isso te digo: - Segue... O mar te espera! E, quando mergulhares em suas águas salgadas, tu que doce como os córregos trafegava, lembra-te de mim...


maris



Cotidiano.

Ontem Cecília e eu fomos pegar as crianças na escola. Esse é um pequeno momento que compartilhamos nossas angústias, nossas queixas de mulher, esposa e mãe. Chegamos um pouco mais cedo, pois as coisas aqui na comunidade não estão muito boas. Ultimamente viramos figurantes de um filme de terror, já me vi na TV correndo feito uma desesperada. Cecília está até doente pelo susto que passou semana passada, quando um sujeito estranho entrou pela casa dela para se esconder da polícia. Imagina, um pelotão de fuzilamento apontando para sua humilde casa, na caça do tal bandido, e a criatura lá dentro com as crianças como refém. Felizmente tudo acabou bem, quer dizer, ninguém se machucou, o danado fugiu pelo muro dos fundos que nem um tinhoso. Cecília ficou um caco de gente. Meu Deus o que está acontecendo com nossa cidade? Nem parece mais a mesma. Todos os dias, eu peço ao Todo Poderoso para poupar nossa gente, que só faz sofrer e trabalhar. Nem o nosso tradicional churrasquinho na laje, nós não podemos fazer mais. Junho passou e nem fizemos nosso arraia. Tempo de sangue e morte esse que ronda nas noites e invade o dia. As crianças vivem igual prisioneiras, e por mais que agente tente não deixar elas verem o que acontece, está tudo ali, na nossa frente.
Carlos dono da banca de jornal, que é um gozador, toda vez que vou buscar o jornal, diz que vai correr no PAN e que vai trazer a medalha de ouro e pendurar na banca, pois nos últimos meses o que mais faz é treinar. Quando ouve o primeiro tiro corre mais que aqueles africanos da maratona. Eu acho graça, mas quando vejo a cara da Cecília tão abatida, me dá um nó no coração. Senhor olha por nós que acabamos morrendo sem saber porque.


Insonia.

Mais uma noite sem dormir pensando na vida. Tantas coisas para resolver, tantos problemas em casa. O salário de Jorge mal dá para pagar as contas da casa, com meu salário de professora pouco ajudo. Jorginho entrou no pré- vestibular, quer ser engenheiro, Mariana já está fazendo Serviço Social e Marina terminando o ensino médio. Agora começar apensar no enxoval do bebê, que deve nascer no final de fevereiro. Chica disse que pareço uma desconsolada com essa gravidez aos cinqüênta e dois anos, deva achar pouco. Jorge as vezes fica me olhando estranho. Eu sei que ele tá feliz com a gravidez, mas têm horas que parece me recriminar, sai lá, acho que to ficando meio maluca de tanto pensar nisso e naquilo... Padre Olavo disse que eu devia confiar mais em Deus, pois ele sabe de todas as coisas, sabe mesmo?! Pode ser, mas anda pensando meio trocado comigo, que tenho tanto medo de morrer e deixar essa criança no mundo. Bem diz Dona Corina que há tempo pra tudo nessa vida, não seria a hora de eu e Jorge ficar mais quietos. Hoje danei de ter vontade e comer manga verde com sal, o cheiro de alho fritando me causa arrepios e náuseas e meus seios estão tão grandes! até que nesse sentido eu tô gostando, parece até os peitos de Xuxa depois que botou silicone. Quero que tudo corra bem, pois sei que na minha idade posso gerar uma criança com deficiência. Jorge briga comigo quando falo sobre esse assunto, diz que sou boa parideira e que ele é homem de saúde. Vamos ao médico esta semana, estou ansiosa e aflita. Deus, o Senhor que sabe de todas as coisas, deve saber que eu sou uma mulher crente e temente, olha por nós Santo dos Santos, que somos Maria e José procurando um canto para dar a luz, perdidos numa cidade de seis mil habitantes no interior da zona da mata de Minas Gerais, onde Judas perdeu as botas e a vergonha na cara. Provê Querido um ninho seco de palha fresca para que este abençoado possa chegar na Sua santa presença, e afasta de mim essas mangas verdes que nem posso mais ver de entojo.

Maris..

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2008/11/veja.html

Dividas e Perdão! - 30Set2008 18:20:00
Mal havia terminado de colocar o bolo de fubá sobre a mesa, Sampaio invadiu a cozinha bufando e com cara de ofendido. Pensei inconformada: _ Lá se foi a paz do meu café!
Percebendo que ainda, em jejum, havia fumado dois cigarros, perguntei: _Fala logo, homem... Que bicho te mordeu?!
Sampaio rejeitou a mesa posta, o bolo, que ele me pediu de véspera pra preparar, satisfazendo-se apenas, com o cafezinho que tomou andando de um lado pro outro até, por fim, desabafar. ?Não foi bicho não, foi cobra?! E daí, contou enraivecido que, sua tia Hercília, lhe havia enviado uma carta cheia de palavras cuidadosas... Chamando-o inclusive, de: sobrinho amado! (Deus, quanta demagogia!) ? exclamou e partindo em direção à cômoda, onde normalmente depositava as correspondências diárias prontificou-se em trazer todas de uma vez. Prosseguia desabafando, enquanto eu buscava encontrar a dita carta em meio a tantas outras...
Interessante perceber que em vésperas de eleições, somos tão bem lembrados e carinhosamente solicitados. Imagine, devia haver ali, naquele imenso leque umas trinta cartas neste sentido e o pior, de candidatos que nunca ouvi falar!
Enquanto procurava-a comentei desconfiada de sua tia preferir o envio de uma carta, exercício tão cafona e démodé, enquanto que, um telefonema seria mais prático. Nesse momento, Sampaio puxou meu queixo pra si de forma que meus olhos não perdessem sua atenção, e falou-me pausadamente que o tanto de trabalho em compor a aquela missiva foi, única e exclusivamente, para notificá-lo de que, Guilherme, seu primo de pescoço empinado (desdenhou) por causa da falência da empresa em que trabalhou durante vinte e sete anos, andava muito deprimido, atravessando uma fase ruim... Por esta razão não poderiam honrar com as duas últimas cotas do empréstimo que lhe fez, prometendo entrar em contato assim que as coisas melhorassem.
Na mesma hora, me deu dó saber do drama destes parentes. É duro suportar a virada do destino assim, tão bruscamente. Guilherme e a esposa, sempre viveram bem. Lembro que todas as férias passavam fora do país e quando lembravam nos mandavam postais lindos!
Ponderei calmamente, afinal era do conhecimento de todos que, desde que a companhia de aviação que seu primo trabalhou, faliu, as coisas complicaram! Assistimos pela televisão os noticiários!
_ Sim... A empresa dos outros vai a ?banca rota? e eu é que arco com os prejuízos?! Admiro-me muito, ouvir você dizer isto, Rosinha! Defender este povo mesquinho e que sempre te esnobou! Penso que no fundo, você é igual a estes, pois sempre que pode, me passa a perna e me deixa no prejuízo! ? Esbravejou, e num feito golpe traiçoeiro, foi imediatamente resgatando das profundezas, seus navios piratas em aventuras falidas, mas Sampaio é assim. Cultua o péssimo hábito de colecionar episódios, tragédias, afrontas... Qualquer inspiração, vai lá, no fundo do baú e revive seus fantasmas! Sempre enalteço que sua mente é uma agenda impecavelmente, infinita! Por exemplo: Vive dizendo que me ama, mas não esquece o dezembro em que fui viajar com as crianças e o deixei sozinho por dez dias. Quem ama de verdade, não abandona o outro, falou-me na época... E não teve jeito, tive de ficar ali, ouvindo-o remoer as mágoas do passado, relembrando com dia, mês, ano, hora... E num suspiro de lamento solto a voz contando que durante toda sua vida foi mirado as avessas pela tia soberba que sempre, o julgara: ?um mero sargento do exército? enquanto que seu filho, era aclamado como, o engenheiro mais inteligente da família! - Ironizou sorrindo apático e, mirando o nada como quem pesca na memória algo importante, reviveu com fragmentos intimos o único dia que o tal primo se deu ao trabalho de nos visitar, detalhando os olhares de desdém a tudo que via pela casa, e, que mal bebeu um copo d?água, partiu cheio de desculpas.
_ Quem bebe depressa se engasga, Rosinha! - replicou trazendo a tona meu finado tio Bento, confirmando com veemencia de que este viveu igual, esnobando a todos, e findou igual, devendo-lhe boa quantia. _ Mas perdoei! - ponderou com certa dúvida.
Pensei abatida que, pela lógica cronológica de todos seus devedores, ainda viria pro meu café: o irmão de Gilda, que num domingo fatídico, sem intenção, afundou o pára-lama do seu carro novo, os quatro anos de cursinhos pré-vestibulares para João Pedro, o aparelho nos dentes de Mariana, a viagem de férias pra Minas... Cortei uma fatia do bolo e permaneci calada, deixando-o iludido que lhe ouvia, mas segui degustando meu bolo, lembrando que a todos ele doou perdão. Perdão esquisito, que vira e mexe, perde o valor... No fundo os problemas não nos procuram, nós é que vamos buscá-los e no íntimo de cada ser, possuí-los é prazer. Percebia naquele discurso enfatuado que fazia liberando gestos, uma nítida vaidade inflada, camuflada por uma retórica forjada a fogo frio. Finge dor, quando na verdade, goza ao saber que a parentela rica e esnobe, lhe são devedores. E o faz com tanto empenho, sua encenação, que a defesa fica indubitável!
Soberbo quanto ele somente, meu pai. falei comigo mesma, lembrando aquele homem arrogante que passou a vida fazendo questão de mostrar pros filhos o valor de cada coisa comprada: móveis, comida, roupas, sapatos, laser... De tudo nos dava conta, transmitindo naquele teatro, a grande dificuldade que fora para adquiri-las. Entendíamos, naquela época, que aquela forma de se expor tão humilde e sem vaidades era, somente, pra cumprir o exercício de educar, por isso, nos cobrava valor e preservação em tudo. Hoje, mais madura, condeno-o, pois entendo que o fazia era, mostrar do que era capaz de comprar, produzir... A imagem que tenho agora de meu pai e, comparando com a de Sampaio, faz tudo parecer irrisório! Orgulho também, é uma forma de vaidade.
Na alma gloriosa de Sampaio havia grande dificuldade em exercer o perdão e prosseguir em paz! No fundo, meu marido sempre foi um notável colecionador de pedras de tropeços, mas o mundo está infestado de pessoas assim: que de tudo faz drama! Tem gente que te abraça, após um deslize dizendo que está tudo ok, mas na realidade, mente e ainda mantém o fogo da antiga desavença aceso nas cinzas, a mercê de qualquer vento que passando, incendeie! Observo muito disso, pela vida, principalmente, nas relações entre casais. Por exemplo: Eduardo, quando traiu Vânia, Josué e Diva, Paulo e Leda... Marcos e Silvia que ontem, inclusive, soube por Amélia, reataram a relação depois de cinco meses separados. Que Deus os abençoe, já que ambos prometeram jurando apagar todos os erros do passado e acertar a vida daqui pra frente! _Como deveria ser de fato! - falei comigo mesma enquanto recolhia a louça do café. O caso é que, depois de descoberto o erro, uma terrivel discussão abrasada desata repleta de ofensas e juras, tipo: Nunca mais quero te ver! Vá e não volte! Com você nunca mais!... E o pior, é que antes de reverem a situação, pesarem os contrs e os prós, retomam a relação claramente encenando, mentindo para si de que está tudo apagado, zerado mesmo, como Sampaio agora. Mas basta um deslize qualquer pra fazer renascer o mal e acontecer o caus! Toda mágoa contida no silencio dos dias desabam, inundam e faz lama! Pergunto então, onde se esconde o amor enquanto o perdão não chega para libertá-lo? Mirei Sampaio distante de minhas divagações, relendo a carta aflito... _Gostaria de ouvir o amor se manifestar a respeito... Falo do amor do canto lírico e tão lindamente poetizado nas linhas bíblicas: ?Um amor que tudo sofre, espera, suporta, supera e perdoa??!
_Vou buscar o jornal! Falou Sampaio asperamente me despertando dos pensamentos.
_ Vá sim, meu querido, e vê se desencanta toda essa revolta pelo caminho e volte renovado para experimentar o bolo que te fiz com tanto carinho! ? ele então, me sorriu, me pediu perdão e concordando partiu.

Marisa Rosa Cabral.

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2008/09/dividas-e-perdo.html

CAUSAS E EFEITOS - 29Set2008 17:47:00
Causas e Efeitos!


Tudo de repente, passou a ser ridículo. A gente vive no mundo iludido, alimentando falsas ilusões que não nos levam a nada. Um desperdício de tempo, tempo que deveria ser investido em coisas mais importantes, e como existem coisas importantes em nossa vida... A dor de Valéria, por exemplo, sua solidão e amargura que no desabafo de outro dia, me fez abater e sofrer com ela. Uma vida sem amor, sem expectativas, que chegou a confessar que a morte lhe seria premio. O que faz uma pessoa desprender-se assim dos projetos diários que a vida lança a todo o momento pra viver se martirizando? Pensei e me perguntei baixinho quando, preparava o café da tarde em que, sozinha, pesava também meus próprios dilemas. A vida é complicada ou a complicamos quando não devíamos, mas é assim que aplicamos a lei de causas e efeitos. Têm dias que estou feliz e agradecida por tudo que Deus me permitiu possuir. Causa: sou bem ?casada?, tenho filhos saudáveis, inteligentes e carinhosos, sou bem querida por meus irmãos... Posso contar com meus amigos... Mas não sei por que casa, Saturno e lua partem a vadiarem que me deixam avessa, pensando que tudo que possuo aflige, fastia e deprime. Efeito: O desgosto se estabelece e qualquer gesto ou palavra viram setas fincadas no alvo inflamado. Às vezes me indago o por quê de agir assim, como Valéria, engolindo a saliva amarga e respirando um ar quente e pesado que tocando a alma contaminam tudo. Certa vez, ouvi Gilda comentar, que o mundo da mulher gira ao inverso do mundo dito! E é verdade! Tereza, semana retrasada, me comoveu com sua estória de amor. Causa: Depois de três anos separada do marido infiel e libertada a vida dos maus tratos e humilhações, resolveu ceder então, ao destino, a chance de provar que ainda havia tempo e espaço pra ser feliz! Há meses encontra um novo pretendente carinhoso, afetuoso e cheio de boas intenções. Confidenciara-me seus segredos, envolvida num sorriso inspirador e olhares delirantes. Amei vê-la assim, tão decidida em largar mão da solidão e ceder aos apelos da vida e ser feliz.
Brindei o fato, sozinha, com uma taça de vinho a varanda, mirando a chuva que caía naquela tarde.
De fato, penso que solidão é colo fogoso pra se sonhar ou meditar, mas ontem, por acaso, passando de carro, pela rua deserta, flagrei Tereza com antes, apática e decadente, distante de toda aquela felicidade contagiante. Efeito constrangedor, Causa ignorada!
Não posso condená-la. Andei assim, também, possuída por novas inspirações e declinei destas sem grandes apelos.


Imagine, que mês passado, andei conspirando e pesquisando pela internet e mediante aos resultados encontrados, fiquei tentada em me desfazer de minha antiga coleção de selos. Acreditava que venda me renderia algum trocado, e com isso, poderia realizar sozinha, (causa) meu antigo sonho de lançar no mercado literário um livro meu. Uma produção independente, como bem lembrou João Gustavo, sem carecer da ajuda de ninguém. Aliás, há muito que abandonei o hábito de pedir favores. Fartei a alma de tanto ouvir na vida os sermões, tipo: ?Eu não te disse?! ?Eu bem que te avisei?!... Estes horrorosos ?clichês? que por muitos me assombraram. Em contrapartida, tinha plena consciência de que, meu projeto, não passava de uma vaidade minha, tecida com carinho extremo, como mãe gestante construindo o enxoval de seu primeiro filho. Já concebia na imaginação todo o evento: a capa, os textos, os poemas... Os sorrisos na noite de autógrafos, as belas criticas... Jornalista numa coletiva me entrevistando... Mulher delira! E por ser meu sonho, deveria bancá-lo só. Há anos que minha coleção, herança que meu pai me deixou, vive abandonada, descuidada numa caixa de madeira largada no quarto da bagunça. Confesso que durante um tempo, tive esperanças de que, um de meus filhos se interessassem, mas para eles, o montante armazenado em álbuns, não passava de picotes de papel velho, fedido e sem beleza!...
Não foi bem o que eu esperava, mas consegui fazer negócio com os selos. Graças a Deus! Meu filho, entendido de finanças, tratou logo de abrir uma conta poupança bancária em meu nome e ainda, me presenteou com dois cartões de créditos! Passei os dias entusiasmada com a vida! Bendizia-a, em tudo! Em minha agenda já constava o endereço das melhores editoras, durante a semana muitos emails chegaram exibindo vários orçamentos. Passeei pelo centro da cidade, vendo roupas, sapatos, bolsas finas... Naqueles dias de torpor, despertava cedo e custava pegar no sono. Vivia embalada por esta doce ansiedade. Até Sampaio passou a me tratar melhor, mais cordial, largou mão do olhar aviltante, mas não calou a voz da crítica, atentando que seria um gasto perigoso, afinal, não se tratava de nenhuma famosa escritora!... Apesar dos pesares naqueles dias dourados e inspiradores, andei sobre nuvens cintilantes. Até que, de repente tudo foi amenizando e minha insuficiência voltou-me ao lirismo frugal da citação diária e logo já, a maldita duvida me possuía como fornalha sedenta, querendo a tudo consumir, restando apenas cinzas que o vento levaria embora... E, enquanto degustava meu cafezinho, divagando, já sem tanto vigor, o futuro, ia caminhando pelos cômodos, e mirando-os minuciosamente. Canto a canto. Percebendo a enorme carência que por ali se instalara sem que me desse conta. Minha casa necessitava de cuidados! Aquelas portas antigas, empenadas, rangiam gritando: baaaaaasta! As janelas de madeiras corroídas pelo efeito do tempo, agasalhadas por cortinas desbotadas levitavam com o vento e sussurravam ardilosamente: Que horror! Os móveis cochichavam entre eles e desdenhavam o meu desapego. O que fiz? Larguei a xícara sobre a pia, corri e resgatei do lixo o velho baú vazio que durante décadas guardou meus selos e, depositei nele todos os meus sonhos, como se fossem os mesmo, picotes de papeis velhos, fedidos e sem nenhum valor. Tranquei a porta do quarto com cadeado, joguei longe a chave e os abandonei lá, no quarto da bagunça, longe de meus olhos. Depois, suspirei profundo, engoli a saliva amarga na intenção de desfazer o nó que na garganta já se formava, lembrando os mesmos efeitos no olhar de Valéria, Tereza... E saí pras compras!
Sampaio que mal acabava de chegar e se servia de um copo de leite se assustou quando eu falei a respeito dos novos pedreiros contratados que viriam pra cuidarem da reforma da casa, e ainda sorrindo de sua cara de assustado concluí: _Quero que fique tudo lindo e pronto em duas semanas no máximo, pois é quando chegarão os móveis novos que comprei! Antes que eu deixasse a cozinha com a roupa passada, me chamou atenção seu semblante preocupado. Percebi que examinava estupefato, o valor pago nas notas fiscais. Muito abatido e decepcionado, liberou uma mágoa profunda na voz engasgada _ Percebo que não sobrou dinheiro suficiente pro seu livro, minha Rosinha... Mas a gente dá um jeito, né? Falou tentando forjar um sorriso consolador. Voltei-me e abraçando-o com ternura e gratidão sincera, falei-lhe ao pé do ouvido: de hoje em diante, nada de promessas e sonhos difíceis. Não tenho mais idade pra esperá-los... E no mais, quem é esta tal de Rosinha? (sorri) Quem estaria interessado em ler as besteiras que uma amadora tão sem talento, escreve à mesa de sua cozinha, enquanto prepara o jantar? O máximo que consegui na vida, e muito me orgulho, foi quando me tornei sua senhora, mãe de teus filhos!
Ele mordeu os lábios, tentou falar, mas preferiu calar o que não devia... Mas mesmo assim, sorri e pisquei-lhe o olho na intenção de provar que não havia nenhuma mágoa ou ressentimento em minha palavras, mas contava apenas, que surtissem algum efeitoli. Parti em seguida, levando as roupas passadas, pra guardar, deixando-o só, pensando e pesando os efeitos de suas palavras, pois assim como eu, Valéria, Tereza... e tantas outras mulheres encantadoras e talentosas, se apagam no auge de seus sonhos ou deixam aplacar pelos inevitáveis efeitos de gestos e palavras, pronunciadas ou silenciadas!

Marisa Rosa Cabral.

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2008/09/causas-e-efeitos.html

Detalhes especiais! - 04Set2008 17:14:00
A casa de Regina tem um quê, que me cativa tanto! Na varanda perto dos arbustos, ela sem imaginar, colocou o antigo banco de praça, restaurado e pintado de branco, que durante anos, ficara esquecido num canto ao relento. Ao lado, um tripé de jardim com samambaias verdinhas. Colocou-o de lado, deixando de frente pros morros verdinhos, onde próximo a primavera, os Ipês floridos nos fartam de belezas! E não resisto! Aliás, toda vez que saio pra visitar algum lugar, meus olhos procuram, viciados, aquele detalhe exposto num cantinho especial. Toda casa tem um lugar distinto, para onde todos os olhares se voltam, e este é o meu vício: Procurá-lo. E cá pra nós, existem pessoas dotadas de uma sensibilidade que assusta e inveja! Esta semana mesmo, fui surpreendida com a notícia de que Janaína havia se separado de vez, de Gustavo, um engenheiro bem sucedido, quinze anos de relação, pra enfim, viver na companhia de Julio, um vendedor autônomo por quem se apaixonara desbragadamente. Um caso de amor e adultério que já rolava alguns anos, me roubando várias noites de sono. Surpreendeu, por que, no fundo, a gente sempre torce pra que as coisas tomem o rumo certo! Mas a bem da verdade, o certo e o errado são conceitos, nada mais! Gilda, por exemplo, se casou quatro vezes e nem por isso, tornou-se uma mulher promíscua aos olhos do povo, com exceção de Sampaio, claro! Mas tratando-se de Sampaio, que conheço bem. Um homem com raízes militar, fruto de um lar ditador, não poderia vir com um pensar coerente. Ele me fez compreende, nestes vinte anos de relação, que é impossível adormecer medievo e despertar pós-moderno!... Mas, Janaína foi muito corajosa, e admiro-a por isso. Partiu abrindo mão de qualquer direito. Sem filhos tudo fica mais fácil! Penso que, se tivesse ao menos um, aquele meu conceito de certo e errado, entraria em vigor, mas... Deixemos prá lá. Confesso que fiquei pasma, mas me consolou seu olhar apaixonado. Duas gotas de orvalho retidas refletindo naquele par de olhos ávidos, uma imensidão de sonhos e poesias. Contou-me muito entusiasmada, que aprenderia a viver com a inspiração que a nova realidade lhe traria. E disso não tive dúvidas! No principio, confesso, me assustou ver aquela casa simples e tão precária de móveis, mas aos poucos fui constatando que aquela, apesar de pequenina, comportava além do amor, uma imensidão de afetos e inspiração. Não sei por que, mas é mal do homem viver comparando as coisas, e eu, não fiz por menos. Recordei imediatamente a antiga sala de sua casa, onde havia três ambientes mobiliados com requinte e comparei com esta, tão apertadinha, onde apenas um tapete florido, um quadro de moldura barata, mas de uma beleza em cores e luminosidade que me cativou o apelo de contemplá-lo mais amiúde. Ao canto, clamando por atenção, uma delicada mesa de jacarandá me saudou sorrindo, vaidosa e exibindo o belo arranjo de flores naturais, tão minuciosamente organizadas, que ao menor ruído, pensei, penderiam abaladas. Liberei o suspirei ao entrar no pequeno ninho de amor onde, não era possível comparação. Havia ali, um bom colchão deitado chão protegido por um tapete bege. Ao lado, servindo de cabeceiras livros e alguns objetos de cristais. Detalhe curioso que muito me chamou a atenção, foi ver que do teto, pendiam duas corrente douradas sustentando uma espécie de bambu envernizado onde, eximiamente, pendurara os muitos cabides de roupas, e logo abaixo deste, sobre um pequeno baú, descansavam alguns pares de sapatos impecavelmente lustrados. Ao canto, uma cadeira de vime almofadada de seda carmim, acolhia plenamente vaidosa, o pijama de algodão e a alva camisola... Mas foi ali, bem no cantinho inibido pela luz do sol primaveril, a vista mais sublime, o detalhe singular e especial que meus olhos aptos, captaram e me apaixonaram! Um jarro grande, que quase ultrapassava a janela, todo em porcelana branca, doava gentil, o prazer de ver brincar ao vento, dois imensos gira-sóis!
Julio foi quem preparou o café e por sinal, muito gostoso. Do jeitinho que eu gosto. Forte e pouco açúcar! fiquei em silencio observando-os. Pareciam um par de jovens recém casados, petiscando cada uma das delícias que as núpcias nos doa sem mesquinhês. Vez ou outra, trocavam de olhares sugestivos, beijinhos estalados que por fim, me convenceram de que já era hora de partir. Não seria eu, a impossibilidade daquele desejo tão evidente.
No caminho de volta, vim proseando com minha alma, como sempre faço, e ambas, chegamos a conclusão de que, na miséria ou na fartura, o amor inspira as mesmas belezas que louvam nas alturas e comovem o coração de Deus! E este é o detalhe dos detalhes!


Marisa Rosa Cabral. 4/9/2008

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2008/09/detalhes-especiais.html

Dia de Mãe é assim mesmo! - 14Mai2008 21:57:00
Amiga querida irmã!
Me perdoe o atrazo. Eu e minha mania de sonhar a perfeição... Imagine que passei a semana todinha pensando em compor um poema especial pra te dedicar no domingo das mães, passado já, como sempre faço, mas infelizmente não foi possível. meu dia deu quase todo pra trás! E olha que o imaginei tão especial, detalhes ricos e significativos que só a mãe sabe destingui-los.
Em contra-parte, este ano sonhando com um dia especial, fiz um programa repleto de novidades pra construir o meu dia e te mostrar depois, através das fotos que nem ousaram... Mas vou te contar como se deu: Pra começar, dispensei o chato do tio Alfredo alegando que almoçaríamos fora. O pobre fez uma cara que deu pena, mas ele com aquele linguajar de baixo calão e ainda, fedendo a cachaça, destoaria de tudo de belo que planejava. E implorei colaboração dos demais, mas parece que ninguém ouviu, e foi assim, tão de repente que tomei consciencia de que mãe, é a última a falar e quando entra em cena, já nem há platéia pra aplaudir ou vaiar...Somos as Protagonista de uma novela muda em preto e branco!
Sampaio sempre é o primeiro e já virou tradição de ousar seu jeito insensível e estragar os programas alheios. Categoricamente, não consentiu ir de carona pra final do campeonato de futebol dos aposentados do bairro! Ah, que ódio! Roguei tanta praga pro carro quebrar, pneu furar... Imagine que minutos antes, rezava a janela agradecida a Deus pela linda família que me deu... E logo no meu domingo exclusivo fiquei sem o carro e com isso, não pude resgatar as flores encomendadas semanas antes, as margaridas brancas que te falei. Pois é, já tinha até deixado o sinal adiantado pra não perder a promoção de (3,99) a dúzia, e encomendei seis dúzias mais as rosas vermelhas. Fazer o quê? Engoli o ódio, me conformei, mas consenti da mágoa me acompanhar durante aquele dia inteiro marcado por decepções. Passei o domingo imaginando e sofrendo, por não vê-las ali, sobre a mesa nova que compramos samana no crediário que sem dúvida: ficariam lindas no par de vasos de opalina que tia Lúcia me presenteou no Natal. Tantos meses guardados pra esse propósito, tanto trabalho pra arrancar a poeira acumulada, que a primeira vista, nem suspeitavam serem brancos, prá nada! Não pude adornar a mesa do almoço de meu dia! Dia lindo em que finalmente, estrearíamos à mesa, os vasos... e o perfume de rosas pelo ar! Foi bom pra eu aprender a sonhar menos! Fiz tudo imagiando cada gesto recebido, o tamanho de cada sorriso... Os filhos: João Pedro e Mariana me brindando a saúde nas taças de cristais coloridas que Janete me emprestou, aliás, coisa que eu lamento até hoje! Pois te digo que ela me pediu tanto, pra ter cuidado e ainda, não cansava de repetir: Essas taças foram de minha avó, todo cuidado é pouco!" - Juro que até fiquei com receio e mau pressentimento na alma, por isso, embalei-as em tantas folhas de jornais, quatro taças, depois, arrumei-as cuidadosamente na imensa caixa de papelão que Jorge me emprestou que ao final parecia mais com uma TV de 29 polegadas!
Muita cobrança da azar. Aprendi na pele esta experiencia. Lembro que certa vez, ainda solteira, tomei a enceradeira da Cacilda emprestada pra lustrar o assoalho pra festa de aniversario de Lindalva... Nossa! Dona Cacilda recomendou falou tanto quanto Janete, que quando eu liguei na tomada, o motor correu sozinho pela sala rodando, dando pancadas nas paredes, e eu atrás, gritando desesperada, com o cabo na mão... Pra encurtar a história, papai teve que pagar uma nova, e aquele treco desmantelado passou anos encostado a porta da cozinha me assombrando. Desde lá, jurei nunca mais pegar nada emprestado. Só quebrei a regra, porque era meu dia! E eu merecia qualquer risco, menos o risco de ficar fristrada como fiquei. A frustação maior veio após o café, quando eu já assava o Peru. João Pedro, aquele filho ingrato, veio se achegando , barbinha bem feita, cheirando a colonia e cheio de dengo pro meu lado, que eu já adivinhava que boa coisa não viria. Dito e feito! Antecipou-me o presente: um porta jóia "made in china" bonitinho, todo cravejado de pérolas e rendinhas que no mínimo, teria custado o dobro do valor de todas as minhas bijuterias, em que após o abraço e com cara de lamento, comunicou que passaria o domingo no sítio dos avós de sua noiva, Renatinha. Amiga, você sabe que eu sempre falei bem de Renatinha, mas vou admitir com toda minha alma, que a decepção foi tanta, que até hoje não quero ver, saber ou ouvir falar de Renatinha aqui em casa! Mas, ironias acontecem, e minha vida é celeiro destas. Era João Pedro partindo e o ponteiro do peru subindo e eu me perguntando: o que é que eu vou fazer com este peru enorme? Fiquei aflita, amiga. me deu logo aquela falta de ar e o coração vacilando de taquicardia... Coração de mãe vive sempre por um fio, e o meu, de uns tempos pra cá, deu pra disparar que tranco a boca com medo que salte por ela e fique a saltitar pelo chão. Respirei contando até três, como Gilda me ensinou, buscando lembrar somente das coisas boas que naquele momento parecia não ter havido uma, mas en fim, retornou ao compasso e eu ali, mirando o peru, mas ignorando o fato e fingindo tranqüilidade. maldita hora que eu dispensei tio Alfredo! sampaio só retornaria do jogo quase a noitinha, envergando de bebado. João Pedro com certeza só voltaria na manhã seguinte. Só restávamos eu e Mariana pra almoçar, que é o mesmo que nada! Desde Janeiro que menina aderiu a moda do fastio! Não sei quem inventou a mentira de que mulher seca desperta tesão! Desde lá que no café permite apenas, duas torradas LIGTH e chá com adoçante. No almoço e jantar, um filet de peito de frango GRELHADO e três folhas de alface, quatro ela não permite, bastam pra alimentá-la. As frutas, legumes e os biscoitos que tanto adorava, deixaram de ter valor... Dói em mim, vê-la caminhar pela casa com um soriso apático, pálida e seca se mirando no espelho, e ainda, achando-se GORDA! Sampaio nem aí. Diz que é bom ser magra, mas no fundo só vibra pela despesa que diminuiu radicalmente! Levei-a no psicólogo que cuida da Vaninha, filha da Creuza, e somente depois de cinco cessões, Rs 80,00 reais cada, ele diagnosticou que era apenas uma fase. Logo passaria.
Amiga, agora é moda essa tal de fase. Tudo é fase! Só que comigo a fase soa diferente. "Rosinha fase isso, Rosinha fase aquilo" ... E eu faseando tudo! A única fase que não passa é a da mãe esquecida e ultrapassada. Hoje me sinto como aquelas calças boca sino, lembra?! Meio-dia em ponto, o relógio da sala bateu. Olhei em volta pecebendo a casa deserta e triste, e sobre a mesa, apenas, três folhas de alface enfeitando o prato de Mariana que havia me ligado não sei de onde, dizendo que só viria pro jantar. Pensei com lágrimas que aquela, era a única cena que não imaginei. Só não morri por que o espírito de vingança é sempre maior, mas confesso que naquele momento, há muito que desisti do peru e retornei os vasos pra cima do duplex prá somente deitei-me à rede na varanda e questionar a vida. Adormeci ali e só despertei muito tarde, com o carinho da mão fria de tio Alfredo me sorrindo com aquele bafo de cachaça me oferecendo um buquê de rosas lindas. A noite, após o jantar, afinal aquele peru teria de ser consumido, Mariana me trouxe uma caixinha de veludo guardando um anel de ouro que ela e o pai, em segredo, sairam cedo pra comprar. Por isso fez questão do carro! Pensei constarngida.Não demorou e João Pedro retornou a tempo de pegar o jantar. Veio só, e com cara de arrependido! Deu pena de ver meu filho assim. A noite, aconchegada ao leito macio e cercada de silencios, Sampaio se achegou e com um beijo terno em minha face encharcada de cremes me sussurrou ao ouvido dizendo que eu era a mulher mais teimosa e tola que tinha conhecido, mas que independente do fato, me amava muito!
Só aquele gesto bastou, pra me fazer esquecer grande parte do mal que eu criei ao dia, e ainda me fez voltar o olhar pra mesma janela,onde cortinas deslizavam tranquilas, e que não mais um sol ardia, mas um luar de poesia imensa me convencia a crer que apesar de todo sacrifício e doação, ser mãe, vale à pena!
Marisa Rosa Cabral.

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2008/05/dia-de-me-assim-mesmo.html

Um Conto de Natal à "CARIOCA" - 08Jan2008 15:01:00
Eta, que dezembro vai ser quente tanto quanto iluminado este ano. Pensei debruçando-me à janela na inteção de apreciar as casas vizinhas que na maioria estavam reformadas, caiadas e esbanjando energia elétrica.Pra dizer a verdade, não sei de onde tiram dinheiro pra alimentar as tantas gambiarras que piscam de deixar os olhos vesgos. Cada ano vem, surge uma novidade. Agora, além de piscarem correm tão rápidas que chega a dar a impressão de que vão romper as grades e fugir pras ruas,sem falar que dezembro tem mais fogos de artifícios que junho, mês tradicional, e Miguel não alivia, mal começa o ano e uma nova lista começa a correr pelo bairro. Gastam uma fortuna em fogos que se cabam numa madrugada só. nesta época me dá uma saudade de Afonso. Ele era quem gostava de esbanjar nesta época. Tinha, além da paciência, um talento incontestável pra decoração. ainda não era tempo e já começava a descer caixas do sótão. Passava noites esticando quilometros de fios, testando pisca-piscas e, no decorrer dos dias, ia ornamentando toda a casa com motivos natalinos que dava inveja ver a beleza de perfeição que ficava. Pingentes dos mais variados possivel. Bolas de todas as cores e tamanhos iam logo se destacando sobre o pinheiro que cultivava o ano inteiro. este ano, soube, mal coube na sala, mas o que eu gostava mesmo era de ver o tradicional Presépio, que encantava a quem quer que fosse. perdia horas espanando e lubrificando os personagens a velha engrenagem que fazia o rostinho do menino Jesus mover sorrindo. A pequena comunidade não escondia a ansiedade de vê-lo pronto e a tempo, tomando o espaço da frente da casa, e o rabo da vaquinha que mal cabia, ficava exposto pra fora do portão... Bastava a ordem pra criançada do bairro fazer fila à porta. até turista veio pra ver e posar pras fotos no último ano, e até, as três palmeiras que simbolizavam os magos, recebiam atenção especial: luzes brancas da raiz até as palmas mais altas, que da estação ferroviária se podia contemplar. Só eles bastavam pra iluminar a vila o mês de dezembro inteirinho! Mas como diz o ditado: tudo que é bom dura pouco. Por infelicidade que ninguém premeditou, Diniz, o turco, desconfiado do aumento exuberante de sua energia pagou especialistas pra correr fios na vizinhança e, como quem procura sempre encontra, o "gato" miou. Quase deu morte naquele Reveillon de 1998. Diniz adentrou a vila armado de porrete, possuído de ódio e sem temer cadeia, invadiu a casa do pobre infeliz. Foi um desastre. Num só golpe, despachou pros ares os bichinhos do presépio. Com outro, partiu Maria em duas. José que nem asas tinhas, voou pelo muro e se espatifou no meio da rua e da pobre vaquinha só restou mesmo o rabo, que consequentemente ficou preso as grades do portão.Por graças o menino Jesus não sofreu danos. Antes que se atrevesse, o filho caçula de Diva o arrebatou das palhas e correu gritando feito um louco que o turco estava com o capeta! Afonso, pelo que soube mais tarde, fugiu pelo muro dos fundos com a família e por imposição da situação, teve de ficar ausente por semanas... Poeira se acenta, e confusão se renova. Quando o filho do Lucildo engravidou Soninha, Afonso voltou que ninguém se deu conta, mas aconselhado pelo pe. Joaquim, decidiu abrir mão da picaretagem e vaidade que não bancava, e desde então, por causa de sua sacanagem o bairro perdeu sua melhor atração natalina. Ô turco miserável. Findou com a alegria do pobre!

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Ao contrário do Sargento Fonseca, que pra fazer seu Natal humilde porém, digno passava os meses racionando despesas, cortando supérfluos e ainda descontava prejuizos da mesada dos filhos. Eu mesma sou testemunha desta arbitrariedade. um crime contra menores...Violação dos direitos humanos!Cansei de ver Guilherme, seu filho mais velho virar madrugadas estudando pro vestibular com o rosto colado nos livros, contando apenas com auxílio da chama precária da vela de sete dias. Por graças, conseguiu classificar, mas em compensação está usando óculos!
Aqui em casa por mais que se racione, economize e se prive o ano inteiro, não muda nada! A começar pelas paredes que ha anos permanecem desbotadas. Os móveis da sala ultrapassados prosseguem como embriagados, balançam mas não despencam de vez e isto só serve pra afrontar meu bom humor diário, sem mencionar que a velha árvore de natal ?centenária?, como diz Mariana, já tão depenada pelo tempo, não se agüenta de pé, mas ai de mim reclamar. Sampaio perde a paciência e some no mundo. O que me contenta ultimamente, é saber que ainda posso ser presença na bendita festa que sua empresa oferece. Só ela é suficiente pra bastar a alma de prazer e fantasia. Verdade. A festa da empresa é um evento pra ninguém botar defeito, principalmente, pras minhas crianças. Tem touro mecânico, tobogã na piscina, piscina de bolinhas... e pra todo canto que se mire, uma delicia nos convida a engordar.
Há dez anos que não perco uma! No início, esperta e atenta, não permiti perder pro tempo os melhores momentos deles ali. Era eu e a obsoleta máquina kodak à manivela, flash adaptável... E fui, ano a ano, registrando em fotos os sorrisos diferenciados de suas idades... Olhares estupefatos de alegria e ansiedade, sem falar nas poses hilárias ao lado do Papai Noel que todo ano, infalivelmente, surge do nada, sorridente trazendo presentes. Presentes bons!
Este ano nem sei se vou. João e Mariana cresceram e não querem mais nos acompanhar. Sei que faz parte da vida os filhos crescerem e partirem pro mundo, mas é tão difícil admitir sorrindo e conformada. A gente leva na barriga nove meses e finda por carregá-los nas costas o resto da vida, mas mãe não reclama. Mãe apenas, o faz! Pois é. dezembro ta ai, as pessoas correndo pras compras cheias de planos e eu aqui da janela continuo a esperar que a noite chegue logo trazendo paz pro meus devaneios tolos, enquanto que a única preocupação de Sampaio é, procurar investigar se a cerveja vai estar lá. Homens! Chego a suspeitar de que nunca se deram conta do maravilhoso espetáculo que a ?Carioca Engenharia? promove com tanto carinho ali, onde tanta vida flui animando meus versos que fazem nascer tantos sonhos novos, e estes leigos, se perdem em conversas banais bebendo até envergar o tronco, arder à coluna e por fim, olhar pras esposas suspirando de cansaço pra somente dizer: Vamos nessa, amor?!

Marisa Rosa Cabral.

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2008/01/blog-post.html

Mulher em Crise - 15Nov2007 13:40:00
Existem verdades que machucam a alma no profundo.
E foi, justo nessa manhã, que eu distraída e sem prevê mudanças, ouvi minha filha se lamentando com o pai a respeito das minhas crises de humor rotineiras. Calei a respiração e permaneci atrás da porta ouvindo o diálogo que fluía despretensioso entre eles. E, não vou negar que ultimamente ando mesmo em crise, mas a doutora me acalmou, dizendo que tudo que sinto são os incômodos da meno pausa, mas confesso que, ouvir esses burburinhos, me deprime ainda mais.
Abri a janela pra arejar o quarto e os pensamentos e em seguida, acendi um cigarro aliviar as tenções e fiquei ali, durante um bom tempo acuada, pensando e buscando um lenitivo para tais dilemas. Uma semana de férias seria bom pra mim e para todos!- pensei. Um tempo rico de paz, exclusivo, somente para mim e  minhas crises!
Não sei explicar, mas quando estou assim, ?em crise?, o que é pouco passa a ser demais! Têm dias que fico alegre e em outros, me deprimo. Basta um vento soprar que entristeço e choro saudades que nem entendo. E a rotina dos dias não muda. Sou eu pra tudo o tempo todo! Sei que ando meio desleixada, adiando tudo e qualquer evento, mas também tenho minhas queixas particulares. Nunca falei, mas também me incomoda muitas coisas. A imensa pilha de jornais que atravanca a entrada da área de serviço só faz crescer. A lâmpada da área queimou a meses, e se eu não reclamar vai anos assim... Os copos que se acumulam sobre a pia e que ninguém se atreve... Os tênis, mochilas e tudo mais que deixam largadas sou eu quem recolho...Quando estou fora não encontram nada! Sou eu pra tudo nesse meu lar de leigos inválidos!E Mariana, que não tem noção do quanto é imprestável, é a que mais se queixa de mim! Tolero, pois sei um dia, se Deus quiser, vai estar exatamente aqui, no mesmo lugar, e com posse deste mesmo discurso se perguntando: aonde foi que errei?!
Meu mantra de todas as madrugadas é tentar me convencer de que sou mulher: um ser fadado a padecer calado todo tipo de injustiça, preconceitos e humilhações!
Me arrasto pela casa abatida como se a vida que construí com tanta dedicação e omissão pesasse às costas como a bagagem do mundo inteiro.
Ultimamente tenho me questionado muito neste sentido, e a pergunta é: será que valeu à pena tamanho sacrifício? Sinceramente, não sei. A única certeza que me habita neste momento, é que se eu tivesse coragem, como Shirley Valentine, partiria de férias sem dar conta a ninguém. Fazer como Dorinha, no auge de sua crise que partiu desatinada porta a fora sem deixar bilhete.
Ah, que saudade do colo de minha mãe... Ela sabia e entendia de tudo! E daquela boca santa, que Deus, com certeza, silenciou com um beijo só ouvi os melhores conselhos e votos. E eu, com certeza, nunca tive do que me queixar e mesmo que tivesse, nunca o faria para não perdê-la, ou quem sabe, evitar o constrangimento de vê-la partir feito louca, ou pior, vê-la decepcionada chorando em oculto, como eu agora!

Marisa Rosa Cabral.


Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/11/crise.html

?ASA ?? VILA - 15Nov2007 13:38:00
Quase meia noite e mais uma encrenca cabeluda acontecia na vila. Por isso que Marajá, o galo velho de Suzana, canta atrasado todas as manhãs. Nem o pobre, consegue descansar em meio a tanta confusão. Como se fossem poucas, as desavenças corriqueiras do dia! - Desabafei tapando os ouvidos com o travesseiro.
Bem ao lado, parede com o quarto, uma confusão mal acabara de cessar. Foi na casa de Jarbas, entre os filhos, Julio e Gustavo, dois adolescentes que só sabem resolver problemas em meio a murros e pontapés.?É a violência que vemos se alastrar pelo mundo, que já entra pela porta da gente sem pedir licença, e ainda faz de vítima nossos mais ricos princípios?. O fato é que, mal nos acomodávamos ao silencio, e já outro escândalo surgia. Agora, entre o casal Jurema e Tadeu. Pra dizer a verdade, já estou acostumada a vê-lo regressar torto de bêbado as noites de sextas-feiras, que fico a imaginar, como uma pessoa neste estado deplorável consegue fazer todo o caminho de casa. Todo bêbado sem vergonha, deveria perder o rumo de casa e só voltar quando passado o porre! E Tadeu é daqueles que enverga, mas não cai. O pior, é que ainda tira onda de machão... Levanta o timbre da voz e dita ordem para que Jurema lhe abra a porta, mas a coitada, ultimamente, deu pra fazer cena, teatrinho com seu drama pessoal, que ao meu ver, já virou comédia... A verdade, é que ninguém sabe atestar se usa do artifício pra convencer a vizinhança, que há muito anda descrente de suas promessas de querer mudar de vida, ou se é sério mesmo! Penso cá comigo, que no fundo, sente gosto de viver neste desgosto de vida. Tem gente que curte miséria, doenças, solidão, dor de dente... E Jurema se faz de vítima por gosto! Agora deu pra se dizer ofendida e cansada dos maus tratos... Até grita pra todos ouvirem, que anda decidida em largá-lo, mas só convence quem não a conhece... No fim, acaba cedendo e a vida prossegue assim, de sexta à sexta!?
Sampaio, que já havia desistido de acompanhar o jogo pelo radio despertador, encolheu-se do meu lado, e daí então, só fazia amaldiçoar a vida e os vizinhos. Falava entre os dentes, deixando escapulir seu veneno fatal, de que a culpada pelos inconvenientes que passava, era totalmente da pobre e inocente Iracema, finada mãe de Tadeu, por ter parido um filho alcoólatra inconseqüente! ?Isto sim, é coisa que me tira do sério, ouvir alguém ofender uma mãe. Não me importa os argumentos. Não tolero?. Evitei uma atitude drástica, somente pra não dar margem a mais uma confusão na noite que já estava pra lá de esgotada.
?Homem não tem senso crítico e fica pior se impedido de ouvir seu futebol! Ô vício maldito! Outro dia mesmo, me aborreci feio porque o ouvi chamar João Pedro de miserável. Isto, só por que o filho não tinha em mãos, o talão de cheques pra lhe emprestar uma quantia?.
Respirei fundo e ignorei-o. Pra aliviar a tensão que já me tomava, peguei um livro qualquer na cabeceira e comecei a ler. Os pensamentos vinham em ondas e me roubavam a concentração, então, recomeçava de novo, e de novo... Até que os pensamentos venceram e eu me deixei levar por eles. Lembrei da cena, e comparando com a realidade da noite, só consegui constatar, que o mundo realmente está findando. ?Vovó Alzira não cansava de repetir que, boca de mãe era abençoada por Deus, por isso presto bons conselhos e profecias pros meus meninos?.
A voz fraca de Tadeu me trouxe de volta. O pobre dizia que não estava se sentindo bem. Seu mal estar invadiu as frestas e ecoou nos meus ouvidos, que deu até pra ouvir nitidamente as convulsões. Sampaio imediatamente estancou a respiração. O estômago fraco que tem começou a embrulhar, a boca a encher de água, que não teve jeito. Correu pro banheiro, mão na boca, tentando conter a ânsia também. ?Por que eu não morro agora, meu Deus?? Desabafei jogando os lençóis pro lado pensando que aquela noite ainda prometia muito! Sem pressa e sem vontade, passei um café e levei pra disfarçar seu mal-estar, mas a lembrança do fato, fazia seus olhos lacrimejarem ainda mais. Deixei-o ali, sozinho, mirando o sanitário, e parti arrastando as sandálias pelo corredor estreito, findando no meu oratório iluminado e florido, onde, com o olhar desolado e, sem mais nenhuma chance de esperança, clamei baixinho: Valei-me meu Santo Expedito!
?Nestas horas eu tenho que concordar com meu João Pedro quando diz que morador de vila é profissão. E é verdade. Se não tiver vocação e paciência, padece com a loucura?.
Em vila compartilha-se tudo! Sofrimento, prazer, tristeza, alegria, confusão, gozo...
Gozo sim, e eu que o diga! Quando o Braga, o novo amante que Sofia conheceu na última excursão pra Valença chega, é um Deus nos acuda! E amanhã é dia! Como todo dia trinta, ele chega trazendo nas mãos um lindo buquê de flores, uma garrafa de vinho tinto e no rosto um sorriso que me festeja a alma assistir.
?Percebo que somente sua presença, faz a noite ser mais quente e silenciosa... Abundam gemidos, gritos e sussurros... E tudo é compartilhado. Vale à pena perder o sono ouvindo-o. Não nego o prazer que me da e até tiro muito proveito da situação.?
Esmeralda a azeda da vila, disse noutra manhã, ao açougue, que se um dia acontecer alguma tragédia no invejável ninho de amor de Sofia e Braga, vamos ter de esperar feder pra tomar providências. Mas esta é despeitada, solitária e insolente, e como bem dizem por ai: a felicidade amorosa alheia só incomoda aos incompetentes!
As noites dos amantes, são mágicas e delirantes! Só tenho dó das crianças de Sofia, pois quando seu galã desponta no portão, fica indócil, que tranca os meninos no quarto dos fundos e toma de CD de Xuxa no último volume. Aí o inferno é geral! De um lado os sussurros de Sofia implorando amor: ?ah... meu rei, me mate agora!?. Do outro, a Xuxa gritando estridente... Ta na hora, ta na hora?... Que ninguém entende mais nada. A maior verdade em vila, é que todos, sem exceção, sabem de todos e compartilham de tudo, inclusive, comenta-se de ponta à ponta, da casa um a trigésima, que o novo casal é adepto de uma interessante prática amorosa: fantasia erótica!
?Santo Expedito que me perdoe, mas é parede com parede... Impossível ignorar. Eu até que tento, mas tudo que presta e o que não presta, viola o reboco fino sem permissão, e me pega desprevenida. Além do mais, a tal novidade, de que nunca ouvir falar, tem tornado minhas noites mais excitantes! Ainda recordo a primeira vez em que encenaram o Vampiro Tarado. Braga imitou com tamanha perfeição as gargalhadas do Drácula, que até me assustei, e aquela voz grossa e sensual, sussurrando indecências pra amante, me fizeram corar e inspirar coisas que nunca imaginei. Confesso que após a vinda destes pra vila, Sampaio anda até, se engraçando mais comigo?.
A partir de então, a noite do dia trinta, passou a ser aguardada com muita expectativa, e tem gente que só prega os olhos amanhecendo o dia, mas é manhã de sorrisos e gentilezas. Mérito todo de Braga. ?O danado tem talento pro negócio que dá gosto ouvir?. A última foi a do Chapeuzinho Vermelho. Da forma que ocorreu chego a pensar, que já perceberam o silencio especulador que envolve a vila, o que não é normal, pois resolveram encenar a trama do clássico infantil, no pequeno quintal, usando de cenário a velha goiabeira. Deu pra ouvir melhor aos diálogos que improvisavam na hora...
Lembro inclusive, que ao término da fantasia, Sampaio comentou ofegante e baixinho, enquanto o casal de amantes descansavam os corpos nus ao frescor do luar, que não achara tão excitante quanto a do Vampiro, principalmente na parte em que o malvado Lobo Mal comeu a Vovó. Disse que Sofia não soube interpretar seu papel. Não gritou de pavor, não exibiu medo, não sofreu... Por fim, não convenceu. Quem o visse falar daquele jeito, diria que se tratava de um perito crítico de cinema, que eu mesma não me contive e gargalhei dizendo que se fossemos nós, a trama não passaria do café com bolo... Novamente a voz de Tadeu, desta vez mais fraca e baixa pedindo perdão e jurando nunca mais tocar num copo de bebida, me trouxe a realidade. Houve uma breve pausa, até que Jurema cedeu aos seus apelos. Desde então, o silencio voltou a reinar na vila, e o pobre Marajá descansar em paz.
Sampaio retornou pra cama com o semblante abatido e não custou, adormeceu. Eu não, ainda fiquei recostada a porta dos fundos, fumando um cigarro, mirando a lua, rememorando os momentos bons que já vivi ali, naquela vila tumultuada... Pensei curiosa de como seria a tal da nova fantasia que ouvi o Braga combinando com Sofia na última vez: ?Lampião o garanhão e Maria a bonitinha?.O tema até que é bastante sugestivo, mas seja o que for, amanhã é dia trinta, e a noite, promete!

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/11/asa-vila.html

Casos de "rosinha": A PONTE - 15Out2007 01:05:00
Se vc gostou e quiser comentar a respeito, sinta-se à vontade.
beijok da Rosinha.
Casos de "rosinha": A PONTE

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/10/casos-de-rosinha-ponte.html

A PONTE - 15Out2007 00:41:00
A parede lateral da cozinha havia sido demolida para ceder espaço ao novo cômodo. Meu espaço privado. Pequeno, sei, mas só meu. Foi presente de minha querida tia Dulce. Tão logo tomou ciência do convite que recebi para participar do lançamento de uma coletânea de poesia, no sul, ficou emocionada, e providenciou as coisas por aqui... No fundo mesmo, minha felicidade era saber que a velha máquina de escrever deixaria enfim, de disputar espaço com o liquidificador à arca de jacarandá da copa. Resistimos quase vinte anos a estas precárias condições... Falei baixinho pra mim mesmo relembrando o tempo que por ali me inspirei...
O fato é que, desde então, comecei a divagar e vislumbrar suspirosa o prazer que estava tendo, pois o merecia! O entra e sai do pedreiro com carrinho abarrotado de entulho, transformava a rotina pacata de meus dias até então. Aliás, as mudanças foram muitas. Mérito do senhor Ataíde, o famoso: ?língua nervosa?, que espalhou a notícia, e assim, findou meu anonimato literário.
As visitas foram muitas, desde do pai de santo, muito simpático se diga, que Gilda trouxe pra me benzer contra a famosa inveja que Gilda entende e acredita, até a unção especial que Padre Miguel Luiz, me dedicou na última missa... Sem falar nas recompensas vindouras. Pra começar, recebi uma cortesia do Coifair Samaris, que adorei, para viver o meu "dia de princesa." Imagina, um dia todo dedicado a mim, e com direito até, a tal depilação especial com cera importada, que Leila tanto comenta...Uma semana de jornais grátis, presente muito bem vindo do senhor Juvenal... E consta mencionar, que até, o atendimento no mercadinho da esquina sofreu mudanças. O dono fez questão de me atender pessoalmente. E era tanta gentileza que não cabia ao bairro... Até, ouvi contar, que Associação dos Moradores do Bairro, corria lista pelas ruas a fim de angariar fundos para a confecção de faixas coloridas, que ficariam espalhadas pelas esquinas, me congratulando o feito. Demais!!! A esta altura, estava me sentindo a própria Danielle Steel, autora de um best-seller que amei o prazer: Amor Sem Igual...
E, foi nessa virada da maré, que, como bem diz Lucrecia: quem não sabe remar naufraga, que tive a honra de conhecer o jovem Marcelino. Um competente pedreiro que indico de olhos vendados e empenho palavra se preciso for. Basta dizer, que logo de cara, nos tornamos bons amigos... Sampaio tem razão quando diz que sou muito conversadora, mas está na alma esse dom, e dom é coisa que não se pode evitar... Era recém chegado do nordeste, onde, deixou esposa e quatro meninos pequenos empenhorados com o senhorio da humilde casa alugada no interior do interior do interior... E sorria contando sua tragédia pessoal usando a mão como escudo a boca, a fim de esconder o vexame de não possuir a maioria dos dentes. Acostumei-me a vê-lo às manhãs, e sempre muito bem humorado... Enquanto erguia o espaço entre a cozinha e a área, doava idéias ótimas ao pequeno projeto, idéias que aproveitei a maioria.
A obra logo tomou rumo e sentido. A casa, por ser antiga, de vila, fazia com que uma nuvem de poeira espessa invadisse as frestas das janelas vizinhas causando vermelhidão nos olhos das crianças, irritação nos brônquios, coriza. A tarde começava a findar, mas o maldito barulho surdo e compassado da marreta as paredes firmes, insistia, e fazia tremer o meu mundo... Mas comparando o prazer que sentia, o mundo, literalmente falando, poderia vir abaixo que não me importaria. Marcelino não cedia trégua. Levava as horas cantando modinhas do sertão que me encantava os refrões. Devido à falta de estudos, fato muito comum em toda parte do país, cometia equívocos hilários, mas ninguém é perfeito de todo. Quem pensa que sabe tudo, ou sabe mais, comete maior equívoco! Aprendi que cada qual sabe dar conta de um particular da vida... Eu jamais ergueria uma parede tão perfeita. Certa vez, em prosa com Sampaio, após o café, o jovem desapercebido, confundiu concepção com Conceição. Sampaio estava de boa maré, e fingiu ignorar o fato. Até consentiu, que Marcelino, muito abatido se diga, narrasse a triste história da erisipela crônica nas pernas de sua tia, a Conceição.
Com João Pedro foi melhor ainda. Meu bancário talentoso, aconselhava-o a começar a pagar uma autonomia. Mal começou a falar, Marcelino interrompeu-o, com certa arrogancia estampada, agradeceu, mas dispensou o bom conselho contando que o que ganhava, mal dava pra comer. E no mais, falou. ?Carteira de autonomista pra quê, se nem sei dirigir?. Meu João pasmou e antes que tentasse explicar, me adiantei lembrando-o da hora... Mas, foi o episódio da ponte que me fez gargalhar de chorar sem mágoa ou dor. Imagine que o simpático pedreiro, às vésperas de concluir a obra, me chamou pra um particular. Percebi-o muito tímido, receoso, mas o coitado só buscava saber se eu conhecia outro pedreiro pra indicá-lo como ajudante. Aceito qualquer coisa no momento. Não posso parar de trabalhar dona Rosinha. - Falou preocupado. Caso contrário minhas crianças morrem de fome e no relento. Vendo aqueles olhos lacrimosos, tentando disfarçar o medo futuro, lamentei toda miséria do mundo, com a alma pesarosa. Deus, somente Ele sabia como me senti naquele momento, mas infelizmente, como expliquei, o único pedreiro que conheci e que por anos me serviu, o senhor Otávio, já estava aposentado. Foi logo após, fazer as duas pontes de safena! Falei abatida e suspirosa. Mas, Marcelino de fato era muito mal entendido das coisas. Imagine, que encheu o peito de ar e respondeu meio que despeitado, que se um dia na vida, lhe couber a mesma sorte, com certeza se aposentaria também. Meu coração disparou ouvindo-o explicar: Imagine eu, pegando a empreitada de duas pontes em Safena... Com uma só, eu lavava a égua, aliás, eu lavava era o gado todo, dona Rosinha. ? Concordei gargalhando e num forte abraço dispensei-o.
Relembrando os fatos, confesso que sou apaixonada demais, por esse ser raríssimo, chamado ?gente?!


Texto de:
Marisa Rosa Cabra;

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/10/ponte.html

O PÃO - 15Out2007 00:34:00
Hoje faz dois anos, três meses e catorze dias que pratico minha caminhada matinal e por mero prazer. Claro que no início, sobre grande pressão, mas a gente se acostuma. Foi ordem do doutor médica pra diminuir meu peso, que, aliás, naquela época tudo em mim andava em alta... A pressão arterial, o colesterol, a glicose, a gula sem mencionar a preguiça. Em baixa somente a auto-estima. Todo início é difícil! Quem disse isto, na certa, andava exagerando em alguma coisa.
Não perco da lembrança aquele primeiro dia. Um vexame! Foi o Janeiro mais quente da minha vida. 76 quilos e oitocentos gramas, socados neste corpinho de apenas, 1,63cm. O excesso já há muito, ia se acumulando... Nas nádegas, seios... Pra se ter uma noção mais clara, era impossível identificar aonde começava e terminava minha barriga. Minhas curvas resumiam-se do queixo pro pescoço, do pescoço pros seios e dos seios pras canelas... E apesar das inumera evidencias, ainda tentei desistir na primeira tentativa. Mas Sampaio não permitiu. Começou um maldito discurso moralista. Comentou até, as estatística, repetindo as mesmas palavras do médico, que a maioria dos infartos fulminantes se dava por conta da obesidade. Pobre Mariana! A menina tomava seu café tranqüilamente, ouvindo-o se apavorou...
Saí de casa às seis horas em ponto, cronometrada pelo relógio paraguaio que Sampaio comprou e preservou na embalagem durante oito meses... Encarei os 42 graus de calor que fazia, e ainda vestida num terrível casaco de moletom estampado de girassóis amarelos vibrantes, presente que Sampaio me trouxe-o de véspera, contando que era a última moda na zona sul. Deus! Um jardim suspenso da Babilônia... Sim... E suspenso por um par de tênis, azul com laranja 38, mas no pé parecia 44 e o diabo de uma luz no solado que ascendia a cada passada! Estava me sentindo a fachada luminosa de um desses ?Bingos? clandestinos da cidade... Pra se ter uma idéia, logo de cara, o seu Nestor, da casa 2, me cumprimentou sorridente... O velho mal enxergava. Vivia a dar cabeçadas pelas paredes... O pior se deu com o Juca da farmácia. Ô rapaz inconveniente. Eu, que já tentava me ocultar por detrás das árvores, corei com seus gritos do balcão indagando se estava indo pra algum tipo de passeata? ? Passeata uma ova! Pensei tomada de ódio. - Seu Juvenal, o jornaleiro da banca da esquina, que não se detém por nada, se intrometeu no assunto, e o pior, chamou a atenção de todos que passavam, afirmando que era um protesto solitário: ?Esqueçam a Amazônia, que não tem mais solução e salvem as gordinhas!? De longe ainda, ecoavam as gargalhadas. É nessas horas que eu odeio o povo do subúrbio. Sabem dar conta da vida de todos! Por fim, cheguei à Praça do Patriarca, local onde acontece o encontro dos ATI ?Atletas da Terceira Idade, o que não é o meu caso, mas Gilda falou que era só pra começar. Eu estava mais perdida que cego em tiroteio naquela manhã. Não sabia pra que lado ir, e em completo jejum, pasmei, assistindo toda aquela gente passar ligeiro por mim... E na maioria, idosos! Não deu outra, fiquei zonza que dona Margarida teve de me acudir, e a mesma, aos setenta anos de idade, passou umas quatro vezes por mim enquanto mal concluía a primeira volta... Era o peso, o desgosto, o desconforto das roupas e tudo aliado a fome, que só lembrava os pães fofinhos, a variedade de massas cheirosas... cada modelo mais atraente que o outro e ainda, besuntados de cremes e açucares... Mas estavam proibidos...
_Quem diria... Eu, traída pelo pão de cada dia! Deveria processar a classe dos padeiros.
A marcha seguiu adiante, cumprindo a rota, e eu atrás, resistindo, até que de repente, surgiu as vistas a tradicional ladeira da igreja de São Roque que pensei: Agora é que me dano de vez! Só não desisti, porque lembrei da aposta que Sampaio bancou na esquina... Três caixas de cervejas contra uma, de que eu, não resistiria ao primeiro dia. E foi exatamente naquele momento, ensopada de suor, bufando de cansaço e arrependida de ter consumido tantos pães, que as coisas fizeram sentido. A luz se ascendeu, enfim! Aquela roupa chamativa que subornava meu animo, só poderia ter sido intencional... O pique da raiva foi tamanho, que ao invés de me abater, me motivou. Criei gosto. Meus passos a partir de então, tornaram-se firmes e determinados que as bochechas estremeciam ao impacto... Dona Margarida ficou pra trás a ver poeira, e a medida que eu lembrava Sampaio com seu sorriso falso e olhar dissimulado, meus passos aceleravam. O pior, é que o cretino ainda tirava onda pelo bairro dizendo, que ao contrário de mim, estava em forma. Um iludido! Desde que se aposentou não faz nada. Passou a ser simplesmente, mais um adorno pra minha sala de estar... Marido aposentado, é que nem duendes de jardins de gente rica: sedentários, ultrapassados e barrigudos, e não fugia ao modelo não. Sua barriga há muito se sentia absoluta, flácida e uniformemente acomodada sobre o cós da bermuda. Uma empada de botequim! Do jeito que ia, não tardava perder das vistas o pequenino e quase aposentado orgulho... Mas descarado que era, dizia ser por conta da cerveja... ?Se eu parar ela some!?... E eu que pensava que esta saía toda pela urina. Sussurrei quase sem fôlego.
Mesmo com aquela roupa, parecendo altar de igreja em dia de festa, jurei completar as três quadras, duas ladeiras e gastando o tempo mínimo de quarenta minutos. Moleza! Falei enxugando o suor... Era exatamente o mesmo tempo que eu gastava pra buscar o pão na outra quadra, claro que, considerando a fila no caixa, a espera no balcão, a falta de troco, as malditas cem gramas de mortadelas da promoção dos dez pãezinhos que só fazem aumentar a freguesia, mas que findam antes do prazo cedendo vez às brigas... Estava morta, mas cumpri a penitencia. O suor escorria, as carnes das pernas latejavam trêmulas, os pés ardiam, mas os malditos girassóis prosseguiam vibrantes e inabaláveis! Atravessei os portões da vila com meu estômago roncando, vistas turvas, mas a alma de uma verdadeira heroína. Mariana veio me encontrar no caminho gritando: Mãe você conseguiu! Você conseguiu! Sorriu-me exibindo aquele pavoroso aparelho metálico, tomado de massa de pão, mas poupei as criticas afinal, disse que havia me preparado um café especial: chá com adoçante e quatro torradas de água, sem o sal... Juro que, se eu cedesse ao pranto naquele momento, estaria chorando até hoje...
Sampaio não. O salafrário preferiu me aguardar ao portão com os olhos fitos no maldito cronômetro e o coração por certo, acelerado pelo desapontamento. _ Três minutos adiantados! Falou irônico, e ainda teve a ousadia de dizer que o primeiro dia não dá pra avaliar, pois normalmente é motivado pela emoção, pressão, vaidade... Ergui a sobranceira esquerda, gesto que evito, mas quando acontece faz todos em casa temer, e olhando-o com extrema indiferença, que fiz questão, respondi: _ Vai se ferrar, Sampaio! A partir de então, suspirei aliviada, leve, que até os girassóis ficaram mais simpáticos... Parti pro banho assoviando a musica do Gonzaguinha: ?Desesperar jamais?.
O fato é que, há dois anos mantenho a dieta rígida e a rotina de caminhar todas as manhãs. Confesso que no início, passei o pão que diabo amassou, mas cheguei ao peso ideal. Hoje, de uniforme novo e com tudo em ?baixa?, sirvo de exemplo e orgulho para muitos no bairro, inclusive Sampaio, que depois de ouvir muitas criticas a sua barriga, largou mão da resistência e aderiu ao prazer de uma vida mais saudável.

Texto de:
Marisa Rosa Cabral
13/09/2007.

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/10/o-po.html



Dindi e Gabi chegaram ontem pra passar o final de semana. Minhas lindas sobrinhas: 6 e 9 anos. Vieram pra assistir a queima dos fogos do São João que acontece aos primeiros minutos do dia 24. Hábito a que primo cultuar, mas não vai além de uma gostosa e saudável tradição que a família mantém desde os tempos de vovó Aristhéa.
Por motivo de ?força menor? me recolhi mais cedo ao leito. Dindi sugeriu uma historinha pra matar a saudade, mas estava sem ânimo. Perdi parte do dia driblando um carrinho dentro do Supermercado, cheio e tumultuado, o que me levou todo humor e inspiração. Deus me perdoe, mas as coisas andam caríssimas! E o pior, a cada dia um preço novo. O shampoo de lanolina que Mariana me pediu ficou pro próximo mês, assim como o vinho branco de Sampaio. Mas, pra não desapontá-las, (coisa chata, é ver criança triste) disse que cantaria uma cantiga da época, antes, porém, relembrei as noites de minha infância, em que, soltávamos balõezinhos de papel fino. Todos muito coloridos que subiam como passarinhos noturnos, decoravam todo o céu de luzinhas- ?céu de vaga-lumes? comentei. Dindi nesse momento fechou os olhinhos, abraçou seu coelhinho, suspirosa, que até pensei: deve estar imaginando um céu igual. A penumbra do abajur lilás, comecei a cantar baixinho, quase sussurrando...?Chegou a hora da fogueira/ É noite de São João/ O céu fica todo iluminado/ Fica o céu todo estrelado/ Pintadinho de balão...?
Gabi que aos nove anos, vive a idade típica do ?por que?, me interrompeu. ? Tia Rosinha, por que não fica mais pintadinho de balão como na sua época? Sorri e expliquei muito paciente, que os balões foram crescendo de tamanho, no lugar da bucha simples, começaram a usar botijas de gás, com isso, provocava acidentes graves, queimadas... Dindi abriu os olhinhos e se atreveu no assunto. _ Daí veio o aquecimento global né tia Rosinha? Sorri daquela doce inocência astuta, e concordei. De fato, contribuíam para isso. Prossegui contando, que eles além de crescerem, ficaram mais lindos. Levavam imagens vislumbrantes de personagens encantadores... Neste momento me veio à mente um famoso e muito comentado que trouxe A inesquecível dentuça ?Mônica? personagem muito famosa do cartunista Maurício de Souza! Mas, com os constantes e graves acidentes provocados pelos balões gigantes, soltos por homens inconseqüentes, a justiça resolveu proibir terminantemente a prática. -O São João ficou triste? Perguntou Gabi chorosa. Abracei minha pequenina comovida, e respondi que não. Somente o céu não ficava mais colorido e pintadinho de balões, mas que as estrelas fazem o espetáculo por eles. Dindi novamente interferiu. -Daí, veio o famoso apagão aéreo não é, tia Rosinha? Gargalhei folgada e concordei. Sim, foi assim, que tudo começou, e hoje, até avião faz protestos contra a dura decisão da justiça, em proibir os lindos balões que me encantavam.


Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/07/verdadeira-histria-do-apago-areo.html

É Phoda!!! - 13Jul2007 01:23:00

Tanta modernidade...
Nasci numa década onde a simplicidade fazia-se moda. A música, somente esta, caracterizava um modernismo à parte... Os Beatles e Ronling Stones, em grandes bolachas de vinil, eram tocados na minha vitrola Telesparck em 33 e 78 rotações...
Logo chegou João Gilberto trazendo uma bossa nova, detalhe importante: a garota de Ipanema era virgem e os anos eram dourados. Em seguida, surpreendeu o nosso Tropicalismo e a Banda que inspirou Chico Buarque ainda, prossegue aos trancos e barrancos nos centros comerciais em época de promoções. O cabelo cheio de Gal Costa marcou meu estilo durante anos... Lá onde se ouvia o canto do sabiá...? Vou voltar/ Sei que ainda/ vou voltar/ para o meu lugar/ Foi lá....? Saudades dos grandes festivais... Dos tempos da brilhantina, meias-finas, cinta-liga, pó de arroz Coty e Helena Rubinstein, mas chorar o passado é ultrapassado já!
Infelizmente o mundo gira e girando levou embora o caracol do meu cabelo, lança perfumes, Os Mutantes, os grandes carnavais... Bons tempos... nunca mais!
Novidades, hoje são muitas!
Tecnologias surgem e atravancam o mercado, que ultimamente me sinto mais perdida que cego em tiroteio em meio aos tantos aparelhos e botões que encontro pela casa. O que antes, era um simples ?dois em um? e uma TV de seletor, que nos obrigava a levantar e sentar muitas vezes, (exercício muito bom para coluna) transfigurou-se. Hoje uma tela enorme, finíssima se ergueu cheia de truques, desafiando os leigos e o pior: em ?inglês?. Sinto-me literalmente, o pobre coelho procurando à antiga cartola que o mágico há muito, aposentou. O palco de minha sala que deveria permanecer na origem de descanso, passou a ser considerado meu inferno diário, mas sou turrona!
Ironias! Quando, enfim, consegui desvendar os mistérios do meu obsoleto vídeo cassete, chegou-me o tal de DVD. Era a fita exagerada cedendo lugar para um disco pequenino, o que me intriga até hoje. Recordo o dia em que o vi pela primeira vez... Suspirei desolada, desanimada mirando o aparelho prateado ?Slim?, pensava que ali estava o objeto que iria me abater, o inimigo inteligant, tal qual, o moinho para Dom Quixote, mas graças ao ímpeto feminino de bisbilhotar tudo que vê, hoje consigo ligar e desligar meu aparelho. O segredo é simples: o botão de ?ON? e ?OFF? não mudou a característica. E ainda que no mesmo controle remoto, conste de inúmeras configurações, ignore, pois não farão nenhuma diferença se o idioma estiver em ?Português?... A imagem ainda, surge no ON e desaparece no OF. Ufa!

Constrangedor foi saber depois de meses que as caixinhas de som, espalhadas pelos cantos, que nunca ousei perguntar a ninguém, faziam parte do arsenal, detalhe que, meu sobrinho sabido de tudo, o Malcon Stuart da Silva desvendou num simples olhar. Claro que ficamos surpresos, ambos, ele por não entender o descaso ao famosíssimo ?Home Theater? e eu por não saber sequer do que se tratava. Pasmei! na verdade, pensava que fossem partes de um micro sistem, afinal, hoje em dia, compra-se tudo por partes, que não estranhei a moda chegar a minha casa... O pior momento de minha vida, e que ninguém suspeita o desconforto que senti, se deu no último dia das mães quando, recebi de meu amado filhão, via cedex, um radinho (made in Japão) pequenino, lindo, AM e FM, fone de ouvido... Tudo que queria na vida: minha alienação passiva. Passei aquele maio trabalhando e ouvindo músicas, até que, Mariana desvendou o que nem suspeitava: meu radinho, também, era um ?Pen drive?, o que me explicou, e naquele mesmo dia gravamos todos os meus clássicos favoritos e ainda coube espaço para muitos antigos sucessos, num programa da Internet. Fiquei feliz como pinto no lixo!
Malcon Stuart veio semana passada para uma visita. Ô moleque esperto! Dele fiquei sabendo tudo que faltava saber. Meu radinho, o tal Pen Drive, também fotografa e se eu quiser, faz até ligações para o exterior...
Pasmem vocês! Meu radinho de fato, é um lindo celular de última geração.

Ô mundo complicado este, mas eu domino! Ufa!

Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/07/phoda.html

Aprendo vendo a vida... - 26Jun2007 15:21:00

Gosto de acompanhar metamorfose de mulher quando engravida e rir do equivocado que lhe empina, a barriga, querendo explodir pra frente, de repente, desce!

Gosto de me assustar ao rever a menina de trança quando já dança aos braços do jovem de barda rasteira se fazendo faceira e pasmar os olhos às ruas e me surpreender com a casa antiga reformada, de onde exala cheiro bom! Choro de bebê... Coisa boa de vê!

Vida é que nem torneira aberta jorrando água... ?Água demais mata a planta?, já dizia o poeta, mas quando não mata escorre fazendo trilha no chão de lama virando um rio na imaginação que cresce e vai longe, como o fio de lã ao colo de tia Edith, que sem perceber, vai se transformando em manta e a mesma linha mágica, quando sobra, transforma-se em biquinhos coloridos, que quem vê, pensa ser um bando de passarinhos amarradinhos ao pano da cozinha que enfeita a pia, dia à dia!

Aprendi, com sorte, que só o tempo desbota cores fortes...
Que o que muito se ergue, enverga e tomba...
De onde sai um chamego, escapa um gemido.
Onde habita sorriso, chora uma queixa.
Onde transborda a amor também, escasseia.
Onde cresce um pedido, mora uma prece...
E que a jovem quando emagrece sem dor, padece de amor.

Aprendi que o céu é o mesmo, as luas são muitas...
E que, ao leito que me deito às vezes quente, às vezes frio, a paixão que me jurou ser constante ontem, hoje, faz tempo de estio.
Mas o único segredo desvendado, a mim, foi saber que a esperança
Nunca morre! Apenas desfalece, dorme...


Marisa Rosa.





Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/06/aprendo-vendo-vida.html

- 16Jun2007 18:37:00
Gilda atravessou o quintal em silencio que me assustou a cozinha. Trouxe além do empadão de frango que tanto gosto, uma cara desolada que não perguntei. Aliás, também não ando bem de humor. Há dias que venho lembrando Sampaio de não deixar vencer minha assinatura no jornal, pra não perder a promoção que custei tanto a adquirir, o que não adiantou. Manteve o estranho olhar cisudo, quando sentou-se a mesa. Servi o café e como bem entendo de gente assim, me aliei ao silencio. Perdeu-se olhando pro nada, suspirando vez o outra, enquanto que eu apenas, lamentava em segredo não saber das previsões do meu horóscopo. Não acredito, mas gosto de ler, por que às vezes bate certinho com a realidade, e hoje, julgando por pelas primeiras horas, bem que eu gostaria de confrontar.De repente, ergueu-se da cadeira inventando preguiça, arrastou as sandálias até chegar a janela e fingiu que olhava o movimento. Aquele silencio dissimulado, que muito bem conhecia, a perseguia como filho novo agarrado a barra de saia de mãe, mas deixei passar assim. Findei a louça, e quando já pensava em aprontar o almoço, ousou finalmente. Claro que rodeou palavras, até desembuchar o drama. Narrou muito tímida o que ouviu das faladeiras de ruas sobre a visita inesperada de um primo de Salete. Deduzi que seria o tal, que conheceu a dez anos atrás, e nunca conseguiu esquecer, aliás, todo caso que Gilda teve no passado, suscita um ar de "fatalitê", como diz Jean o cabeleiro da praça. Ela acendeu um cigarro e no primeiro trago, destatou a choramingar amaldiçoando a vida, o destino e tudo mais. -Deus, agora esta! - pensei comigo - Se pelo menos eu tivesse agora as minhas cruzadas diárias, agiria tranquilamente como faço com Sampaio, fingindo atenção, mas não, tive de olhar nos olhos e ainda, sentir pena quando revelou que no fundo se sentia insegura com a situação._ Faz tantos anos... Já estou mais velha, e sei muito bem que homens maduros gostam de meninas mais jovens. Gargalhei de sua irônica fragilidade digo: fragilitê naquelê momentê. Não era a minha amiga quem falava. A mulher mais dissimulada e atrevida que conheci nesta vida. A própria mãe dizia que, verão sem sol era Gilda sem homem, mas não falei dessas recordações pra não magoá-la, mas atentei para o fato de que se tratando de um homem do interior, não era pra tanto medo. Abraçou-me carente e chorosa que tornou a surpreender e, disso não gosto. Coisa que não aprendi, foi lidar com a fragilidade alheia e no mais, pensei confortando-a, querenta e dois anos, é idade suficiente pra se saber das inconstancias que a vida promove. _ mas tu és ainda muito fogosa, e quer saber, nem aparenta tanto. falei deixando-a mais tranquila. Tão satisfeita ficou, que até chamegou um olhar vadio dizendo que desde que soube de sua vinda, deu pra tecer sonhos tolos, infantis... lembrá-lo a voz, o cheiro. ? Ora, isso é muito normal na tua idade, já passei por isto, que nem lembro mais! -tornei eu. Arrastou as sandálias de novo e pousou a janela como coruja assustada, contando que Salete não poupou cena ao contar que o tal primo, agora estava bem de vida, dono de sua própria oficina mecânica. A melhor do lugar! ? Interior do interior, imaginei desdenhosa, mas argumentei com um sorriso que, se o tal, entende de bem de recauchutagem e motor, não teria problemas. Gargalhamos.A tarde veio mais mansa; trabalhei em silencio sozinha nas minhas costuras achando admirando a paz que fica, quando os filhos partem pra construir vida igual a nossa. também fiquei assim no início do casamento, inventando uma nova rotina pra seguir. Sampaio saiu que nem vi. Anda assim estes dias, desdenhoso, cabisbaixo... Só porque reclamei da assinatura do jornal. Não medi a altura das palavras. Fiz como ele, qundo insiste em me chamar de caduca, e há três dias que dorme na sala. Pior pra ele!No início tudo é poesia. A lua não brilhava mais que meu sorriso. A primavera existia por invejar meu perfume... Dizem que não, mas o amor envelhece! E o nosso já vagueia débil pelos cômodos. Amor meu, perdeu a visão, pois Samapaio passa por mim que nem o percebo...fala que nem ouço e se sorrir, pergunto de cara amarada: o que foi? Saiu cedo que até rejeitou o café. tentei persuadi-lo, mas como sempre, pra justificar seus ?equívocos?, busca histórias, cria enredos fantásticos... Imagina que teve a capacidade de relembrar as primícias das bodas, quando eu, insana pobrezinha, contava sorrindo que gostava de cheirar suas camisas antes de lavá-las... _Tolo é você! -gritei da cozinha. - Traz da morte coisas que não ressucitam! o amor! Findei a questão do jornal chamando-o de mesquinho. Sei que fui dura demais, mas retroceder é errar de novo, e no mais, teimosia é coisa de mulher.Naquela mesma noite, ouvi das bocas que sabem tudo, que Gilda havia saído pra jantar com o primo de Salete. -Tomara que este lhe dome! falei sozinha, e aconcheguei-me solitária á rede, com as mesmas dores nas pernas que não passam. Por graças Sampaio chegou. Menos uma preocupação na cabeça. Trouxe o jornal do dia, um embrulho de presente que me entregou junto a um sorriso apático. Era um óleo de ervas cheiroso, que contou curar dores no corpo. _ Serve pra curar memória de marido esquecido também? -perguntei séria, ao que me sorriu tímido e conivente pediu desculpas. desde então, permiti que ficasse ali, ao meu lado. _Dê-me cá as tuas pernas que eu quero ver se o óleo é bom mesmo! falou e enquanto deslizava a mão quente entre minhas coxas, esqueci as dores, o mau humor e até puxei sua atenção, quando disse que a gente é quem morre um pouco a cada dia, mas o bendito amor nunca finda, nunca acaba e nem se esgota.
_ Tu é que tá caducando, mulher!
_ Ora... Antes que ousasse estragar aquele momento de carícias boas que já premeditava onde chegaríamos, ele me silenciou com um beijo caliente que ardeu tudo em mim.
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Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/06/gilda-atravessou-meu-quintal-to-em.html

Ester vai andar de avião. - 13Jun2007 21:57:00



Ester vai viajar e por isso estou feliz. Há anos que diz que vai, mas sempre um problema impede. Da última vez até se programou direitinho. Depositava sagradamente, mês por mês um pedacinho do salário, horas extras, serões... Numa poupança programada, quando a filha solteira resolveu dar desgosto. Apareceu de barriga e sei que novidades desta, não há mãe que não se abata. Mas agora não. Tudo fluía e contribuía satisfatoriamente. Já é de anos que a assisto sofrer com a distancia da família. Notícias somente por cartas que custam e quando chaga, alegre ou triste, já é passado. Mas desta vez tudo deu certo! Fluiu que nem rio que parte embora. O neto inesperado já engatinhava pelo chão lustrando o assoalho vermelho com uma frauda encardida atando a chupeta, pra não perder. Coisa ruim é criança perder este vício. Mariana custou anos, e findou dentuça que nem coelho. Hoje reclama de ter que usar aparelho. Sinto um ódio quando Sampaio chama a menina de para-raio ambulante, no fundo também morro de pavor de vê-la sair em dias de chuvas, sei lá se esses metais atraem mesmo relâmpago. A gente ouve casos e mais casos por aí. Vou ver se convença Ester a tirar o vício do neto antes que cresça muito. Não hoje, pois a casa está um alvoroço só. As malas foram feitas e desfeitas inúmeras vezes. Ninguém chegava a um consenso. Impaciente com tanta indecisão decidiu conferir a lista que dona Margot, tão gentilmente nos cedeu naquela manhã. Aliás, Margot é a vizinha que todo mundo deveria ter. Elabora lista pra tudo. Viagens, passeios curtos, longos, ninguém melhor que ela pra fazer lista de gestante e bebê. A danada gosta do engenho que leva gosto. Tem até uma lista de presentes para todos os sexos e idades. Quando solicitada em caso mais específico, como no de Ester que vai para Portugal, leva semana se dedicando em estudar do país o clima, as estações, a cultura e muito exibida, até manda de quebra uma de roteiros e visitas. Tive o prazer de um dia conhecer o interior de sua casa, na ultima enchente que quase inundou a rua. Fiquei impressionada de ver que a porta da geladeira dela, mais parecia mural de oficina mecânica. Infestada de bilhetinhos curtos e compridos. Mas estava tudo certo. Não esqueceu nem das cartelas do específico homeopático ?46? que serve para aliviar a prisão de ventre já Ester sofre muito disso. Prisão de ventre e humildade exagerada. Todo mundo que se aproxima feliz com novidade, ao invés de tirar proveito que vai a Europa, não, só fala que o prazer mesmo, vai ser andar de avião pela primeira vez. Ah se fosse Gilda. A esta altura sua vaidade já cobriria o bairro de um lado à outra da estação, exatamente como fez Salete na primeira viagem ao Paraguai. Recordo precisamente, a manhã em que desceu a rua rumo ao salão do bairro, e retornou horas depois, esnobando ao vento o novo colorido dos cabelos, sem contar a lente de contato verde e a prótese nova que tirou no cartão do filho, pra garantir um sorriso a altura. Gilda disse entre os dentes que Salete estava ridícula. Parecia uma perua, mas era pura inveja, eu sei, conhecia ambas, como afirmo que Salete abusou da sorte. Desdenhou tanto a pobre Ester, que esta chegou a achar que a vinda inesperada do neto, foi praga rogada, pois tudo se deu no mesmo ano. Mas uma excursão pro Paraguai não se compara com a viagem de Ester. Sampaio pesquisou e disse que são pra lá de dez horas de avião. E pelo que recordo Salete retornou na mesma semana com a mala abarrotada de muambas. E já no mesmo dia seguia convite a todas as vizinhas para ir ver as novidades. Gilda não foi. Disse que se dependesse dela, o protético levaria a prótese na marra, por falta de pagamento. Eram tantos brinquedos eletrônicos, perfumes, lenços de seda estampados, cada um mais belo que outro. Comprei até um relógio bonito pro meu João Pedro estrear no novo emprego.
Tantas coisas que agora nem é mais novidade. Pelo que sei, qualquer um pode ir ao Paraguai comprar. Nininha mesmo, a manicura do salão, já foi três vezes!
Ester enfim pregou os benditos cadeados e olhando pra gente toda chorosa já, declarou emocionada - Amigas, nem acredito que vou andar de avião! Gilda se engasgou com o café. me disse ao pé do ouvido - Oh, meu Deus! Como pode ser isso, minha amiga rosinha? Sorri disfarçando seu desgosto. - Europa era tudo o que eu queria na vida!
Lembrei que meu João Pedro viria pra almoçar e tratei de me despedir, mas que tentação absurda me tomou, disfarçadamente roubei a chupeta do menino sem que ninguém visse e sai. No caminho de volta, braços dados com Gilda, retruquei ironizando seu despeito incontrolável: - Deus não dá asas à cobra minha querida, e a bem da verdade, doa a quem doer... Ester vai andar de avião.


Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/06/ester-vai-andar-de-avio.html

Deus Apolo - 13Jun2007 18:20:00



Que boa surpresa ver primo Paulo amanhecer em casa naquele sábado ensolarado. Fiquei deveras contente, pois a muito que andava carente de amigos e boas prosas. Estranhei que veio só, sem Débora e os meninos que tanto alegram a casa com seus falatórios.
Percebi que se exibia o oposto do que sempre fora. Ao invés de falador, reservava-se calado e muito apreensivo de alma, que a princípio me assustou. A mesa do café, somente eu usufruí, e olha que tinha o famoso bolo de milho que aprendi de tia Dirce.
Sampaio como sempre perambulando pelo mundo. Este não abre mão do passeio diário as praças do bairro, inda mais agora que empenhou todo salário num ?canário da serra? que mais parece ser da ?serra calada?, pois o bichinho nunca ousou um pio! Pra não dar o braço a torcer, diz que não canta por que fica intimidado com os ?tic-tac? diários de minha máquina de escrever. Se for esse o motivo, vai morrer mudo. Se em dois meses não se ambientou a rotina, não será preciso um ano como disse o amigo que o vendeu, mas no fundo rezo pra que desembuche logo. Imagine a frustração se o bicho não for dado ao canto. Seu gosto foi sempre ter um desses cantando as manhãs em nossa varanda, e depois, anda tão calmo que se soubesse já teria lhe comprado dúzias...
Mas primo Paulo parecia não se empolgar com as novidades que lhe contava, nem manifestou satisfação quando contei que meu João Pedro havia conseguido a promoção no Banco e ainda ironizei. -Um gerente na família era tudo que precisávamos! Ele limitou-se apenas, a um apático, ?É?. Foi então, que percebi que carecia de ajuda, e não de conversas bobas. de boa alma, convidei-o para conhecer meu novo escritório construído a pouco, nos fundos da casa. Graças ao canário! Pensei comigo... Meu reservadinho era simples que nem eu. Sem ar condicionado, carpete cinza, frigobar e cortinas de cetim, apenas três estantes de madeira que eu mesma lixei e envernizei. Pra da um toque mais fino, coloquei a antiga escrivaninha de papai, que tanto Sampaio me cobiçou à alma pra vender pro antiquário do centro. Instigou-me dizendo que renderia boa quantia, e mesmo as carencias assistidas, resisti. Inda mais que na época, lembro bem, andava às volta, envolvido em montar um time de futebol com os vadios do bairro. Pensei que no mínimo o dinheiro da venda seria usado para quitar a conta dos uniformes que mandou fazer na Lapa. Tem nome sujo na praça até hoje. Parei de repente pra recolher do chão as pétalas secas das rosa brancas ao chão, pois bentinha diz que é bom pra fazer chá pra limpar barriga de mulher, e perguntei pro primo o que se passva. -Débora está tendo um caso, rosinha. Falou tão de repente, que custei minutos pra assimilar. Vivi o silencio preciso, por que não me chegavam palavras certas pra começar um diálogo de nível tão melindroso. Abri a porta do escritório e oferecendo um lugar a ele me prostrei abalada pensando naquela santa mulher, atracada aos beijos com outro homem as praças. Era esforço demais. Impossível assimilar a questão, mas mesmo assim, superei o impacto. Com certeza estava equivocado. Aquela santa que conheço bem, não possuiu vestígios da alma volúvel que toda mulher que trai exibe. Sempre se portou com dignidade invejável. Guardo a melhor impressão desta que tenta difamar. -As aparências enganam! Respondeu desolado, mas retruquei imediatamente de que, se tratando de Débora era, inconcebível julgar somente as aparências. Debruçado a janela e, disfarçando o olhar lacrimoso prosseguiu narrando o trágico drama pessoal. Estava muito envergonhado, que, aliás não entendo bem como, e nem por que, quando os papeis se invertem, exibem logo a santa oculta hipocrisia no olhar e palavras que surpreende até santo no céu. E ali estava meu digníssimo primo, que na vida cabia muito enredo pra novela, encenando eximiamente o papel de vítima, dizendo que a semanas, a esposa vinha se comportando mais animada que o normal.
-Vaidosa, perfumada, deu até pra usar batom vermelho pra ir às feiras no bairro, coisa que nunca aconteceu. Achei normal e até disse, que era muito pouco argumento pra um veridicto tão grave. Ele atenuou minhas dúvidas declarando finalmente, de que se tratava de um amante virtual de nome: ?Deus Apolo? que de tanto remexer no computador descobriu o ?caso?. Quase despenquei da cadeira. Pasmei completamente. E à medida que declarava o seu drama pessoal, eu ficava ainda mais bestificada.
Contou que Débora se levanta de madrugada com a desculpa de que vai baixar pesquisa pros meninos, e que o horário as tantas é gratuito, somente pra se sentar e ?teclar? com esse tal ?Deus Apolo?. Antes de jogar meu pato de porcelana ao chão, amaldiçoou a internet e tudo que dela vinha. -Vou pedir separação! Declarou tão decido que nem ousei argumentar o contrário. Pensei comigo mesma, enquanto recolhia os cacos do chão, que entre o amante virtual e a besta real de meu primo, Débora estava certa!
Ele partiu mais aliviado depois de ouvir alguns conselhos de Gilda que é macaca velha e de tudo sabe na vida.
Naquela mesma tarde fresca e iluminada, me acomodei a rede da varanda e fiquei a pensar na Débora e seu amante virtual, e em tudo que ouvi. Confesso de boa alma, que até achei o nome do amante bastante sugestivo. Sonhadora que sou, dei asas a imaginação e não demorou, pra vislumbrá-la toda feliz ao lado de um belo louro alto e galante, daqueles que a gente vê em filme americano, pernas grossas, bíceps avantajados, bem dotado... Mas o intruso olhar decadente e deprimido de meu primo, se atreveu. -Débora que é mulher de sorte! Pensei mirando o por do sol tão lindo! Sampaio que cuidava de agasalhar a gaiola do mudinho também me assitia, por isso veio sorrateiro investigar a estranha nostalgia em meu sorriso. -Ta suspirando de quê, rosinha? Não deixei o por do sol por ele, mas respondi que recordava coisas boas. Se sou exímia sonhadora, ele nasceu de alma gêmea com a desconfiança. E não se dando por convencido aproximou-se intrigado, disfarçando olhares e bocas, para enfim, especular. Sorri e o chamei pra deitar-se junto a mim. Abraçou-me apertado, roçou a barba mal feita no meu pescoço, coisa que gosto é esse roçar, esse chamego que me arrepia do pé a cabeça. -Divide comigo tuas coisas boas, minha Rosinha. Pediu quase que implorando. Besteiras! Respondi me aconchegando em seu peito peludo. Estou pensando em vender a velha escrivaninha e investir o dinheiro num computador com internet. - Não acredito! Tu é tão apegada a ela. Falou surpreso.To só preocupada com o canarinho, meu amor.
Sampaio se comoveu com o gesto. Beijou-me a boca com tanto gosto, que a noite passou e nem nos demos conta.


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Um sonho chamado Werneck - 13Jun2007 16:29:00

Não sou despeitada, mas bem que senti certa inveja quando da janela de meu quarto, acenei comovida pra mudança de Clarice partindo embora naquela manhã. Bem que gostaria de um dia poder partir também pra uma casa mais bonita, conhecer novos vizinhos... Saber o gosto de vida nova. Desdenhar a sorte, não! Nunca faria isso. Apenas fico triste de ver um bom vizinho se despedir de mim. Parecem dias de sepultamento. Fico lamentosa rememorando os momentos bons que tivemos... Sampaio diz que sou a mulher mais sentimental e sonhadora da face da terra, choro com final de novela, romance triste e até por morte de cachorro... Só por que lembro a data todo mês do meu que morreu ?acidentalmente? esmagado pelas rodas do seu ?Fusca? como disse, mas tenho cá minhas dúvidas. Tudo bem que além negro como a noite, já há muito andava cego e surdo a esbarrar nas coisas... Mas foi o meu grande amigo, isto não nego! Nunca reclamou se a comida estava salgada, apimentada, mal temperada, e me fazia festas todas as manhãs quando abria a porta da cozinha para saudá-lo. Um santo, comparado a Sampaio que ultimamente reclama até do café de bentinha, e olha que há décadas usa o mesmo pó, a mesma água fervida, a mesma xícara... Penso que o que mudou, foi o paladar e o gosto da relação. A cada ano mais rabugento e crítico. Clarice deve estar dando graças à Deus de deixar pra traz um vizinho como ele. A pobre penou com suas queixas e ameaças a respeito dos filhos. Dois meninos inconseqüentes como os nossos foram, e caso não lembre, sofremos os mesmos inconvenientes, mas memória de ?marido? se perde com o tempo. Sim, vão perdendo tudo aos poucos. A carteira de documentos é o primeiro sintoma deste mal acometido aos homens, depois o chaveiro, as datas importantes, a consideração, a vergonha, aliás, só adquirem barriga e mau humor, enquanto que mulher vai perdendo os sentidos de propósito. Há anos que tateio a relação em paredes frias. se Sampaio fala, eu não ouço, se chega, eu não o vejo e se insiste num assunto, concordo sempre sem saber com quê... Mas se fui feliz nesta vida, devo a ele estes momentos. Fez-me ser mulher completa e saciada, só não realizou alguns sonhos antigos engavetados, mas tenho esperança e sei que esta felicidade chegará por ele, como disse certa vez tia Dirce. Lembrá-la até me comove, pois gostava de vê-la aos domingos à cozinha dançando bolero, enquanto batia a massa do seu tradicional bolo de milho com erva-doce. Vez ou outra gargalhava cínica olhando janela a fora, mas eu sabia por que, e disso, guardo segredo até o túmulo. Uma vez, quando voltávamos da missa pelo atalho da chácara, pois gostava de usá-lo ainda que mais demorado fosse, só pra ver o amor proíbido. - Rosinha minha linda mocinha... Vou te contar aqui o segredo que somente a você permito. Sorriu tão lindo, somente pra contar que homem era mal necessário a vida de toda mulher, pois só ele trazia consigo a felicidade. Balancei a cabeça concordando. Eu era tão menina pra conceber o que queria que eu entendesse, mas prosseguimos pela trilha de barro no meio de mato, ela cantando e eu pensando, sonhando com um menino anjo de asas douradas trazendo na mão um saco dourado cheio de pó colorido que me arremessava ao corpo. Foi assim que vi a felicidade aos doze anos, e foi por este segredo de tia Dirce que comecei a sonhar meus sonhos desde então. Senhor José Madeira, galochas cumpridas, o mesmo blusão xadrez azul com cheiro forte de suor e colônia de alfazema, recolhia o agrião as margens do mangue que de longe vimos. Parecia até que premeditava-nos. Na curva da mangueira ele já aguardava ansioso, sorriso escancarado de alegria. Ficava tão contente de vê-la que recompensava ao prazer, uma sacola repleta de verduras verdinhas, mas era casado, eu sabia. Trocavam frases esquisitas que só hoje sei bem o que diziam e o que significavam um pro outro. Ô vida minha temperada de saudades, sonhos antigos e outros novos a me rondar a mente. Atrevidos são estes que surgem e logo hospedam a alma da gente como se fossem donos por direito, mas meus sonhos são amenos e delicados e não me afastam e muito menos põe risco a vida e realidade que vivo... Se um dia por ventura, Deus achar minha ficha perdida e me conceder o prazer de um realizado, com certeza vou ignorar o de querer mudar de vida, pois falo mal mas gosto mesmo é desta, vou pedir que realize o mais recente. O que nasceu na peixaria ontem ouvindo o poeta Gílio contar sobre sua infancia querida. Em suas saudades também sonhei. Tantas belezas detalhou, que me fez desejar conhecer sua cidade natal, Werneck, só pra passear no trenzinho panorâmico reconhecendo as paisagens que tão bem detalhou e me encantou. Com certeza neste passeio vai nascer inspiração pra tecer mais um sonho pra sonhar e esquecer as saudades que vão se acumulando as janelas do meu quarto. Afinal, sonhar é bom!


Texto de: Marisa Rosa Cabral

Publicado no recanto das letras. T:525211

Na comindade Poemas e Cia.



Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/06/no-sou-despeitada-mas-bem-que-senti.html

Sou, mas quem não o é? - 01Jun2007 17:14:00


Podem me chamar de saudosista que não ligo. Gosto de preservar prendas inúteis, antigas saudades... Sou mesmo, este museu ambulante de quinquilharias, ou como citam meus íntimos: casa antiga fedendo a guardados. Mas não mentem. É isso que sou!
O que fazer se nascemos assim, com mazelas estranhas e incuráveis na alma? Embora feliz com a vida que levo, confesso que nada me dá mais prazer que remexer neste meu íntimo, e tão imenso baú de lembranças vãs, somente para me deleitar com olhares e sorrisos a muito extintos... Cena que nunca deleto, é rever meu papai recostado à porta da cozinha ofegante e cansado pelo mal que o levou, cantando a inesquecível ?Boemia?. De mamãe o som dos dedos em mãos delicadas de pianista relaxada, saltitarem sobre a mesa, enquanto pensava e pesava a vida que não sonhou... lembro-a às tardes, quando varria as folhas largadas ao chão de barro de nossa casa humilde no surbúrbio, onde uma canção sempre nascia. Tinha na alma um ventre parideiro de fazer poesias belas, e que nasciam assim, com tão pouco estímulo... Stela cantava com voz afinada, eu, ao coro ajustada, e teinha dedilhava o violão pra nascer bonita a nova melodia...
Nestes devaneios ainda que insano, peso da vida tudo que sei e sou, e se sei tudo de dor e saudade aprendo com estes. Sou mesmo, este velho museu ambulante!

Marisa Rosa Cabral cabral.

publicado no recanto das letras. Código do texto: 509675.


Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/06/sou-mas-quem-no-o.html


A invejável jovem "Mídia" - 30Mai2007 15:54:00



Jurema é uma dessas personalidades que a gente só encontra no subúrbio da cidade.
Voz pausada, carregada por um sotaque nordestino, muito comum por aqui. Desde moça solteira, lembro bem, a assisto batalhar a vida em faxina pela vizinhança. E sabiamente, como ouço contar, investe seu suado salário na boa educação das filhas, Elaine e Elisa, que cria sozinha com grande orgulho. Trata-se de uma mulher humilde, religiosa, viúva que prossegue a vida na mais perfeita decência e recato. Por isto, estranhei encontrá-la naquela manhã, descontraída, mas um tanto incomodada com a cadeira giratória do salão de beleza: ?Mary Coiffeur?. Sorri percebendo-a aflita em meio a tantos espelhos, escovas, laquês... Não sei por que, mas sua presença naquele lugar me causou um estranho contentamento a alma. Sabedora de sua saga e lida, pensava que ela mais que ninguém, merecia usufruir daquele espaço privado, onde nós mulheres dispensamos sem pesar, boa parte do salário somente, para sustentar a vaidade tola de se sentir bem. Um mal imprescindível ao ego feminino! Sampaio diz que é defeito congênito, mas quem é ele pra questionar, se sua vaidade é ainda maior. Passou boa parte da vida servindo a pátria, pátria esta, que nunca reconhecerá seu valor, treinando novos soldados em guerrilhas simuladas, e ainda aposta que não morre sem vê ao menos uma guerra! Merece ver mesmo pelo tanto se empenhou, mas que seja em outro país... Jurema mais que ninguém, merecia degustar daquele momento especial. E garanto que este seria um momento que nunca esqueceria! Como era meio de mês, salão em baixa temporada, pudemos compartilhar de uma conversa mais reservada sobre o assunto que a convencera estar ali. Disse-me tão orgulhosa que Elaine, sua filha mais velha, inteligente que a fama, era por todo reconhecido, havia conseguido boa classificação no vestibular de Direito para Universidade Federal do Estado. Mais que justo, querer ficar bonita para uma comemoração desta! Falei orgulhosa, já que hoje em dia é tão raro um filho proporcionar estas alegrias. Eu mesma, digo de cadeira, não é mesmo! O meu João Pedro é um desajuizado. Imagine, que há três anos seguidos, vem tentando vestibular, e nada. Nem corre riscos nas reclassificações, mas um dia, tenho fé, quem sabe consiga o feito. Se conseguir, já não será razão de alegria, mas de grande alívio, pois haja dinheiro pra bancar cursinhos e apostilas. Sampaio este ano até, adotou o sistema de agenda pra anotar todas as despesas do filho, e a quase um ano que assisto inconformada, todas as manhãs, meu filho partir com seus livros em frangalhos aos braços, ouvindo a mesma ladainha do pai e suas cobranças. Parece prece de terço maligno em romaria pra santo renegado. Mas homem quando quer ser arrogante o faz tão eximiamente que quem vê se assusta... Mas Jurema se achegou a mim sorrateira e muito tímida que é, comentou baixinho, que invejava certas celebridades. O comentário me surpreendeu, mas prosseguiu confidenciando, que até então, seu mundo foi somente sonhar um futuro bom pras filhas... ?Qual mãe nessa terra de meu Deus, que não vive a tecer na alma lindos sonhos pros filhos?? Falei solidária e ainda acrescentei que a gente voa tão longe e alto...
Jurema puxou a cadeira mais pra perto e muito mais à vontade, contou que ha muito vinha ouvindo e acompanhando pelas manchetes, rádios, televisão... Enfim, tudo que podia ouvir sobre tal jovem de nome: ?Mídia.? Neste momento paralisei os gestos e o pensamento para conceber de quem se tratava de fato, ao que tão inocentemente prosseguiu relatando sem pudor ou malícia, que, desde que soube dos projetos da filha Elaine, em se formar em doutora advogada, passou a desejar fervorosa em suas orações e vigílias, que sua menina também, pudesse contar, nem que fosse com a metade da sorte que a tal da ?Mídia? tinha, e desdenhava pelo mundo à fora.
_ Imagine, falou ela, que até na política a danada é respeitada e por demais, influente! Saquei toda moral naquele momento, mas para não deixá-la constrangida em data tão importante, simplesmente concordei.
Jurema baixou os olhos e levou a mão à boca como se fosse proferir blasfemas, mas muito simplória, indagou-me se Deus se ofenderia com os desejos vaidosos de uma mãe, atentando categórica, que invejar a sorte de outros não é boa prática cristã. Neguei veemente um castigo divino, e ainda acrescentei de boa alma, que o que importava naquele momento, era que Elaine prosseguisse provando seu talento e determinação. O reconhecimento seriam provas de bom resultado. Então, aquela pessoa humilde, bonita e de mãos calejadas, desenhou em seu olhar envelhecido um cativante sorriso acanhado e me sussurrou como quem revela um segredo, que pela grande fama da moça, Mídia, no mínimo, deva ter estudado em alguma universidade americana. _Aquelas famosas que a gente vê nos filmes.
Concordei gargalhando de sua magnífica coerência em julgar os fatos, e antes que partisse de vez, segurei-a pela mão e olhando-a firme nos olhos disse.
_Sabe Jurema, no fundo você esta coberta de razão. Essa tal de ?Mídia? pela fama incontestável que promove por aí, só pode ser cria de americanos. Os caras lá são muito, inventivos!
_E com certeza, deve ser loura, né dona Rosinha? Sacudi a cabeça concordando e fiquei ali, em silencio, pensando nestes momentos fantásticos que a vida nos apresenta a cada dia abençoado por Deus







Texto de Marisa Rosa Cabral.


Editado no Recanto das letras. sob o código de texto: T 509529.


Comunidade: Café Filosófico.


Comunidade: Poesias e Cia.


Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/05/invejvel-jovem-mdia.html

Mulher de peito!!!! - 30Mai2007 14:03:00



...


_Maridos, pra que tê-lo(s), se não tê-lo(s) como sabê-lo(s)?
Pensei suspirando sacando a bolsa, documentos e partindo porta à fora ignorando os argumentos falidos de Jorge Sampaio, meu marido. Primeiro, resmungou do horário da consulta com o cirurgião plástico que, diga-se de passagem, consegui à custa de sacrifício alheio, para nossa filha Mariana... Depois, praguejou o café frio, engolido às pressas, tudo para não perdermos a carona que, Cícero gentilmente nos ofereceu, e, por fim, criticou a cor do blusão teimando não combinar com seu jeans (como se houvesse outra escolha)... E, conhecendo bem o marido que Deus me deu por castigo, ignorei as queixas. Afinal todo aquele mau humor se dava apenas, pelo sacrifício de despertar cedo e nos acompanhar até o Centro da Cidade, onde se localiza à Santa Casa de Misericórdia, (e haja misericórdia) pois infelizmente, os documentos de autorização dependiam das nossas assinaturas._ Tudo vaidades! Tudo vaidades! Resmungava ele repetindo as frases do seu finado pai.
É só isso que sabe dizer quando o assunto não lhe favorece. Se fosse pra uma partida de futebol com os amigos do bairro, estaria de pé sem reclamar uma palavra. _Vaidade é uma ova! Respondi furiosa afagando os cabelos de Mariana que cochilava em meu ombro. Não sou de duvidar da sorte, querido! E, no mais, seria burrice permitir que uma oportunidade rara dessa, passasse em branco por minha vida... Vaidade ou não, farei o que for preciso para impedir que minha filha cresça atolada em complexos. Já basta ser pobre, pois pra pobreza, meu caro, não há cirurgião que dê jeito!
Prossegui a viagem calada, rezando agradecida e relembrando os sofridos cento e vinte três dias, catorze horas e vinte e dois minutos de angustia que tive de suportar aguardando por essa bendita consulta, e que, não levaria um tostão do bolso de Sampaio!
Chegamos com tempo de sobra ao hospital que aquelas primeiras horas já fervilhava de gente falante e ansiosa. Deixei Sampaio cuidando de Mariana e fui me certificar das coisas por ali. Ciente de tudo e sem que ninguém percebesse, furtei um cafezinho na sala de exames e saí a caminhar pelos corredores silenciosos a fim de amenizar a tensão. A imagem de Gilda surpreendeu meus pensamentos, então, sorri agradecida por sua generosidade sem medida. _O que seria de mim sem meus amigos? Falei comigo mesma lembrando que foi ela, Gilda, vizinha de longos anos quem me fez conseguir aquela consulta com o melhor cirurgião plástico. Dr. Carlos Gusmão. O mesmo que meses atrás executou uma bela plástica em seus seios. Caídos e volumosos. Relembrei seu bom humor quando, muito antes da cirurgia, apelidara-se a si mesma de ?Mulher Patrimônio?, e concluía a largos sorrisos... Seios, bunda... Tudo tombado! De fato seus seios ficaram perfeitos! Parecem peitinhos de moça solteira que agora desfilam em diversos decotes sensuais pelas ruas do subúrbio.
_Mariana Rosa Sampaio, chamou a voz rouca do outro lado do guichê. Suspirei sorrindo entrando na fila... Tudo certo! Retornei para buscá-los. De longe, observei o imprestável do Sampaio cochilando e babando sobre os ombros frágeis de Mariana, que raiva! Adiantei-me pra socorrê-la.
No curto caminho fui falando com Deus, pedindo que o tal Dr. Carlos Gusmão, tão competente em reerguer peitos tombados, promovesse o mesmo milagre com o nariz ?chato? de Mariana... Tudo acertado. Cirurgia marcada para semana seguinte após o aval do clínico. De repente, sem motivos aparentes, Sampaio ficou tenso preocupado que até estranhei, mas logo tudo se esclareceu. Sua dúvida era quanto ao custo dos exames.
_ Então os exames, RX e tudo o que for preciso ficará totalmente grátis? O doutor respondeu que sim, e eu ainda reinterei de que, inclusive, nem seria mais necessária sua presença, ao que concordou feliz.
Muito sem graça, agradeci ao Dr. Carlos Gusmão pela atenção dispensada e ainda tive de me desculpar por Sampaio que a essa altura, já ía longe. Adiantou-se no caminho louco pra voltar pra casa. Enquanto ajeitava as tranças de Mariana pensava silenciosa... Oh, Deus, sei que é pecado confabular contra o próximo, mas se um dia, a medicina avançar a ponto de conseguir mudar personalidades, eu arriscarei com Sampaio, tranquilamente. Fosse o tempo que fosse à fila de espera, sem mencionar o imenso prazer que teria! Apressei-me e alcançando-o no caminho ajeitei seu blusão, acertei seu cabelo e perguntei baixinho: _ Doeu?!
***




Texto de: Marisa Rosa Cabral




publicado no recanto das letras, sob o código de texto: T509513

Comunidade Poesia e Cia.

Comunidade Café Filosófico das 4.



Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/05/mulher-de-peito.html


Nasci, cresci e me casei em Osvaldo Cruz.
Não me assusto em constatar que morrerei por cá também.
Falando assim, até parece que é sina ruim,
Mas com alegria contagiante declaro, que
Sou suburbana feliz e praticante!

Meu bairro fica bem ao lado de Madureira.
Subúrbio da Cidade Maravilhosa!
Citam-no como raiz do samba, terra de gente bamba,
Berço da gafieira em quintais de manga rosa.

Mas o que percebo é um povo humilde, chinelos gastos, roupas simples, sorriso sincero e um devotado:
Bom dia! Boa tarde! Boa noite! e Como vai?
Que até parece verso decorado.

É natural ouvir da janela um pedido de favor,
Que vai de uma simples panela grande, um xarope, um cobertor, uma carona pra maternidade, e até um ombro
Pra derramar mágoa e dor.
Se essa gente é bamba não sei.
O que sinto, é que na cadência diária do trem que parte, e chega, tem mesmo um batuque de samba.
Uma marcação cerrada que nos adverte pro trabalho,
Pra escola, pras compras...
Em fim, pra vida nossa de cada dia.

Penso se não foi nessa cadência que chegou a ?inspiração?
No peito de um caboclo apaixonado.
Pois dizem que um boêmio bem trajado,
Terno de linho e cravo na lapela.
Por este encanto inspirado, criou a nossa ?Portela?.

Hoje tenho quarenta e oito anos exatos!
E vivo aqui voluntária de alma e alegria,
Agregada a esta grande família que
Estende-se de um lado a outro da ferrovia.

Desde lá, 1959, que assisto o preguiçoso progresso se atrever.
O que antes eram pastos verdes, brejos e vacarias
Hoje se formou vilas de casas que abriga famílias,
Crias de antigas famílias.
Findou-se a famosa granja somente pra comportar
a civilização recém chegada,
pois somente esta se atreveu em crescer galopante,
Mas muito determinada.
Novidades chegaram também.
Hoje podemos contar com duas drogarias.
Quatro boas padarias, que disputam acirrados
Pães fresquinhos a toda hora, para toda freguesia.

Senhor João ainda mantém se mercadinho
E sem que ninguém perceba, este
Cresce a cada ano um bocadinho.
Temos escolas grandes pra incentivar a cultura.
E se não for preguiçoso o bom moço,
Logo mais adiante fica a linda floricultura.

No antigo campinho da Rua Pereira de Figueiredo,
Que abrigava a frondosa e inesquecível mangueira,
Uma fábrica se instalou e não é que deu certo!
Hoje já são duas. Opa, três! Quatro fica correto!

Onde jorrava inesgotável o tradicional ?bicão?
Ergueu-se a mansão azul de janelas branquinhas,
Varanda ampla e cercada por plantas verdinhas.
Extinguiram-se as famosas lavadeiras
Com suas trouxas de roupas cheirando a jasmim,
Mas compensou.
Hoje só moça faceira de mini-saia,
É quem passeia e encanta naqueles jardins.

Osvaldo Cruz é terra de tantas marias,
E as filhas destas, casaram-se e ficaram por aqui.
Famílias pobres e de altas patentes.
Mas em todas nasce um inteligente.
E é assim que vive minha gente passeia tão displicente
No meio de tantos a sorrir.

Nem vou citar os famosos que por aqui fizeram histórias.
Deixa-os adormecidos no leito fogoso da memória,
Pois os que daqui partem e, que não seja por morte,
Sempre voltam pra curtir um pouquinho
desse doce pedacinho de paz, que resiste a toda sorte.

Aqui não tem favelas.
Apenas algumas casas velhas carecendo de reformas...
E enquanto a grana não se apressa,
Toda essa gente se conforma.

Oswaldo Cruz é um porto seguro
sempre de braços abertos a nos receber.
Um humilde paraíso longe da maresia do mar,
das belas florestas e nem nos alcansa o abraço do Cristo Redentor,
Mas nas noites de inverno tem o mais belo luar
Que da sacada fico a meditar ao léu,
Se não é isto cá, um pedaço do céu.

Sempre que me perguntam como é meu bairro
Digo convicta, que é o quintal de minha casa,
A janela de minha sala,
As alegrias de meus canteiros,
E o ano todo é fevereiro!

Ah... Meu nome é Marisa Rosa Cabral,
mas aqui serei simplesmente, "rosinha" contando casos hilários.


Fonte: http://causosderosinha.blogspot.com/2007/05/oswaldo-cruz-meu-bairro-poesia.html