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tenho para mim que todas as coisas têm uma certa imaterialidade. o corpo respira. a mente figura a respiração do corpo enquanto o peito cresce. ontem estava só e pensei o universo, talvez se vivessemos dentro de nuvens nos doesse menos a falta de oxigénio. depois de pensá-lo encurtei as palavras à espera de silêncios, que me viessem buscar aos sonhos, que a realidade me fecunda desses estados de tempo que não tenho. ontem estava eu, com os membros em frio, gelados por certo pela paciência da espera. estava eu a pensar o universo quando por mim passaram as paisagens, agarradas umas às outras por um fio, quase invisível, de horizonte. chorei com tanta beleza, pensá-las assim na minha frente, quase estáticas, assim para sempre, era como acordar dentro de um nuvem, sem falta de ar. depois lembrei-me de ti, sentado na rua ao frio, lembrei-me dos teus olhos fixos num pedaço de terra, onde a tua mente por certo imagina puder construir uma casa. e lembrei-me de uma casa, creio que a tirei então do bolso, construía com a imagem de fundo das paisagens, agarradas umas às outras, e imaginei-lhe uma árvore grande ao lado, a crescer, cuja copa batia exactamente no fio, quase invisível, de horizonte. fui feliz. talvez porque por instantes tenha acreditado na realidade. talvez porque o meu corpo se tenha imaterializado. ou só apenas porque sustive a respiração. mas fui feliz, ainda que te não consiga explicar onde estava ou para onde ia, ainda que debaixo da pele as lágrimas se solidificassem, ainda que esse estado de tempo me levasse por dentro de uma nuvem, e eu a senti-la, e a nuvem me dissesse de ti, de te ver na rua, à espera. tenho para mim que a impressão das coisas é como cair de uma varanda de três metros. magoar sem morrer. ainda aguardo a impressão do corpo, que me mate de uma vez para sempre e me leve por dentro das nuvens, e me deixe ficar, e me deixe lembrar-te. Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/06/tenho-para-mim-que-todas-as-coisas-tem.html levar os olhos ao peito, ver-lhe em crescendo a dor, a ferida aberta. descer a rua com o corpo encolhido num sarcófago. como as árvores cresces para o chão e é teu o destino dos pássaros. caem-te os braços do corpo, seguram-se às pernas, caminham contigo, só mais um pouco. a rua é hexagonal e latem cães, gritos absurdos de fome e medo e raiva e pânico, sobem aos muros com os dentes afiados na pedra. duas pessoas conversam no interior de uma casa e tu interrompes o percurso do corpo para ouvires falar de amor. porque o amor dói como espetar uma faca na pele ou enfiar uma tesoura na boca. sabes que tem razão, que te dói o amor no corpo enclausurado. pendes para um lado, onde te pesam mais no cérebro as memórias, cais. ninguém passa. nos seis ângulos da rua amontoam-se restos de corpos que como o teu não souberam chorar, nem souberam o que fazer, para onde fugir. estás pálido, vem-te à boca o que te alimenta. na boca tens agora a face dela, o jeito dela, o corpo dela, a morrer-te na boca, quase à superfície do corpo. e tu sempre a quiseste ter por dentro, nas entranhas a fazer escavações, a encontrar-te sentidos, a explorar-te emoções. era ali que a punhas de cada vez que a comias, dentro do coração a coser a ferida. chove. talvez mais tarde a consigas engolir de novo. esperas. arrumas o corpo um pouco, encolhes as extremidades e choras . Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/06/levar-os-olhos-ao-peito-ver-lhe-em.html queria escrever-te sobre o espaço contínuo onde um barco adormece o cais ao colo. tu sabes de que falo quando o silêncio se impõe entre os nossos corpos sós. é por ser de noite dentro das pálpebras e se ouvirem vozes caiadas de deserto fora da pele. queria descrever-te o barco feito por sal e gaivotas em vôos antecipados, tão quieto, um sorriso na proa à espera da maré alta ou do vento de sul. tão quieto. não há sobreviventes nesta imagem, só os meus dois olhos como buracos de luz que o horizonte evoca. falar-te-ei futuramente das estrelas, no mar cativas. esperam que as sereias as libertem. que um deus no mar afogue a escuridão e as falésias sejam pontos de abrigo. e é nas falésias que me nasce o coração quando te lembro. tinha tão pouco para te dar, sempre mais do que podia. hoje não vive em mim mais nada, só as partes do corpo que abraçaste. Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/06/queria-escrever-te-sobre-o-espaco.html até as silvas dão flores. como a um poema também a ela lhe faltavam duas pernas com que fugir, hábeis como as asas de um pássaro. como a um poema também a ela lhe faltava uma boca com que gritar os silêncios rente ao chão ou ao céu. quase sempre só como um poema, quase sempre pobre em rimas e versos, quase sempre triste. parcialmente ela. faltavam-lhe poemas onde pernoitar. abrir as mãos ao vazio e correr, correr com os braços e as pernas para trás até ao momento em que aprendera a chorar. isto é vou parir pela manhã a primeira flor na boca uma palavra antes de ser primavera sabes meu amor se a vida fosse minha entregava-te as estações todas nesta dos braços caem-me sementes gestos sítios onde morrer de corpo aberto até quando o amor quiser e eu for do amor como tu és dos sítios onde não ando como pedra fica-me o coração dentro à espera que a pedra bata e fure o destino e é como quando sem ti se vestem as árvores como quando são folhas e ninhos entre elas é onde imagino uma casa nossa há no mundo uma beleza que te pertence no abrir dos braços e sorrir saudade fugir pelos carreiros nos montes dos sonhos onde soubemos inventar a felicidade e é a felicidade que me visita quando isto é silêncio (latim vulgar minuare de minuo, -ere, diminuir) v. Decrescer; diminuir. 2. Tornar-se menor. 3. Declinar. 4. Faltar, escassear. 5. Passar (a Lua) Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/03/pri.html
andava por aí a semear dor nos corações. era-lhe difícil levar a boca ao peito e lamber as feridas por isso queria outras bocas, maiores que a dele, com línguas compridas; mas línguas compridas falavam muito e ele gostava de silêncio. o silêncio era-lhe uma casa, outra, mais pequena, onde de braços e pernas esticados tocava em todas as paredes. onde em bicos de pés chegava às estrelas e estas lhe ficavam presas ao cabelo. era por isso que de noite se assemelhava a uma constelação e era bom, deixar o corpo ao abandono da terra e observá-lo até adormecer. andava por aí a provocar a dor, queria fazê-la sangrar, vê-la parir, talvez para lhe resolver o mistério, descobrir-lhe um antídoto. às vezes viam-no a cruzar os braços em volta do pescoço, era flexível, vi-o tantas vezes num oito e tantas vezes o vi assim que quando assim não estava quase não o reconhecia. de manhã passava na minha rua, com o coração preso por uma trela, a dois passos do corpo nú. um dia o coração fugiu-lhe, bem vi, soltou-se e correu rua abaixo, desenfreado. soube mais tarde que morreu atropelado por um peão.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/03/andava-por-ai-semear-dor-nos-coracoes.html
sonhei: havia o meu corpo no sexto andar de uma casa inacabada, uma sala rectangular com um candeeiro preto, ao canto superior esquerdo uma cadeira, de madeira velha, faia creio, havia um corredor estreito, ladeado por paredes outrora brancas, ao fundo uma porta aberta, sempre aberta, para lá da porta o quarto, o tecto azul, as paredes verdes, ao centro estava ele, de chapéu na mão e olhar suspenso, parecia-se muito com um poeta que eu conheço, um que às vezes pára nos meus sonhos e fica a recitar poesia a noite toda; o quarto não tinha cama, o pavimento era uma alcatifa verde, semelhante a relva, de uma das janelas podia ver-se a baixa da cidade, pessoas em movimentos circulares, numa azáfama, com os corpos lançados para a frente para dar velocidade aos movimentos, algumas andavam tão depressa que os pés se perdiam das pernas e tinham de voltar atrás a procurá-los. às vezes o tecto era invadido por sombreados brancos, cinzentos e/ou pretos que se deslocavam lentamente ou apressadamente consoante a precipitação e era tão bonito deitar-me de barriga para o ar e pôr-me a dar figura aos sombreados, pensava: cão e logo um cão me aparecia, pensava: casa e era uma casa que eu via. outras vezes eram os sons que me visitavam em forma de pássaros, vinham com o vento, davam a volta à casa e sentavam-se, normalmente nos ombros do poeta, a cantar. esta casa, inacabada, havia há muito tempo, visitava-me em sonhos, trazia com ela fotografias da infância, em álbuns velhos, escondidos dentro das paredes, em buracos, cicatrizes no coração. sempre gostei destas visitas, aparições, subterfúgios. tantas vezes dei comigo a meio dos sonhos, como uma estátua de olhar suspenso, a recitar poesia para uma casa inacabada, de onde se viam ao longe as pessoas, na costumeira pressa de correr com a vida, ou então era a vida a correr com elas.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/03/sonhei-havia-o-meu-corpo-no-sexto-andar.html
estávamos sentados, não, andávamos, tu às voltas eu em linha recta. trazíamos dentro do coração uma carabina pronta. às vezes eu falava, às vezes tu dizias e entre o falar e o dizer haviam alguns disparos, sempre dados em sentido contrário. e como saber do sentido do chumbo quando o coração nos fugia. e como saber do sentido do coração quando o chumbo o atingia. e como saber do sentido dos corpos, os nossos, quando o chumbo e o coração se encontravam. e como. e como saber o destino. que fazer da pólvora seca na ferida. que fazer da ferida aberta na pólvora seca. que fazer do amor aflicto no coração defunto. que fazer. estávamos sentados, sim, sentados, tu com o coração à cabeça, vivo, eu com o coração no colo, morto.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/02/estavamos-sentados-nao-andavamos-tu-as.html tinha tantos nomes para te dar eras por dentro e ficavas de fora não houve tempo de nós era teu ou meu ou meu ou teu era aparecias ao coração sem corpo nas memórias ficavas talvez porque soubesses no mar o sal ou o sol o sol ou o sal no mar ainda te procuro quando me encontro por dentro da ferida à espera um mar em nós Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/02/tinha-tantos-nomes-para-te-dar-eras-por.html podia inventar-te um país qualquer sol que nascesse agora uma mão a segurar o tempo para sempre podia inventar-te um corpo podia eu trazer-te outras águas qualquer mar que te amputasse os braços um só momento para abraçar-te nunca mais podia trazer-te outra vida mas olha não sei de outra vida nem desta nem sei se há países ou mares se é fácil carregá-los ao colo sei de nós tristes e saber-nos assim dói muito amanhã ainda és? Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/02/podia-inventar-te-um-pais-qualquer-sol.html sei hoje que todas as coisas te procuram, também eu te procuro hoje em todas as coisas. se todas as coisas me falassem, se elas falassem! não sei das coisas que falam acredito que as tenham morto, como sei que hão-de morrer estas palavras à espera de as encontrares. na porta do coração só as mãos, também elas esperam os gestos. quero dizer-te o mundo. queres ouvi-lo? e eu sei, meu amor, eu sei, é hiroshima. Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/01/sei-hoje-que-todas-as-coisas-te.html
à janela um coração. caiu. no peito um buraco. se não soubessemos de nós onde nos encontraríamos. penso: amanhã volto que hoje não tenho forças. deixo então que a noite me mate os gestos antes que sejam eles a matá-la. há noite quando a luz fugiu. hoje não volta. quanto a mim sou um humano, tenho dentes, tenho cicatrizes, tenho unhas, tenho pêlos, tenho vontade de voltar. amanhã volto que hoje não tenho forças. tenho fome de beijos. sinto falta de línguas. dessas bocas que afogaram as palavras.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/01/janela-um-coracao.html
não sei que memória do mar hei-de ter em ti, ou que memória de ti havia de ter no mar, sei apenas que se fecho os olhos me encho todo de ondas, se os abro afogo o mar delas. e nos teus gestos falo, como quem quer dizer os búzios e as conchas, da espuma a crescer nos sentimentos. nos teus gestos mordo areia e recolho estrelas, mato-me de céu no teu reflexo, quando me olho água na tua água. e salgo os pés de vida antes da morte, julgando reinventar outras memórias como as que havia de ter do mar em ti.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/01/nao-sei-que-memoria-do-mar-hei-de-ter.html
sei que havia um espaço, não sei exactamente que tamanho o ocupava, mas neste momento podia ocupar-lhe qualquer tamanho, que a minha atenção se volta não para o que ele é, mas para onde ele não está. havia um espaço pouco linear entre os braços, às vezes creio que me atravessava o corpo de uma ponta à outra, outras creio que ele próprio, quase envolvente, me abraçava. do espaço pouco sei, apenas isto: que desapareceu já há algum tempo, quando os teus olhos atravessaram o meu corpo e lhe roubaram as pontas.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2010/01/sei-que-havia-um-espaco-nao-sei.html
era de me não conheceres que te vinham os sonhos, como navios sem rumo, a tecer as ondas de outras direcções, sem mar. onde estavas quando te perdeste? perdido antes de acontecer a invenção de te encontrares. agora ainda por aí caminhas, transeunte de ti mesmo, à espera que alguém te salve. por me não conheceres falas de mim como se me faltasse o coração. não sabes tu que dentro do peito, me cresceu uma fonte de lágrimas. talvez agora ainda penses fazer de mim sempre o que querias mas do teu querer já não se fazem as minhas emoções. quando te deres conta já não sonhas nem sabes de ti perdido noutros mares. vai ser feliz para outro lado. que deste lado de mim já não há espaço para te ver chorar, quanto mais sorrir. apodreceremos em lados opostos. estou cansada de ti, de te ouvir dizer que conheces o que nunca em ti soubeste existir - eu.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/12/era-de-me-nao-conheceres-que-te-vinham.html
resta-me: esperar. sento-me, levanto-me, caminho, deste lado da rua para o outro, a distância é de três passos. rua estreita. não sei de outra rua, não agora. estou desatenta, ou atenta a outra coisa. é a tua memória que me assalta, me arranca o coração do peito, é a ele que vejo agora, sangrando na calçada. onde estás. traz-me o meu amor, depressa, que o meu coração está fora.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/12/resta-me-esperar.html
quase, quase, quase
nuvem ou céu. quase nuvem, apenas céu, tão simples como ter os pés enterrados em lume. quase chama. quase tu ou eu, ou nós dois a nascer ao mesmo tempo. quase um campo de tulipas, apenas desfeitas pela chuva, apenas chuva ou tão dezembro. Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/12/quase-quase-quase-nuvem-ou-ceu.html
intra-natura: feto, fungo, fraga.
todas as coisas eram de repente simples, como pestanejar água, ou florir casca de carvalho, ou nascer estrela entre o musgo. bastava-lhe o olhar, firme, seguro, como se acompanhasse a delicadeza de uma boca semi-aberta, um olhar que carregava uma pessoa inteira dentro, dessas pessoas que ficam a crescer-nos como heras nos muros do corpo. Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/11/intra-natura-feto-fungo-fraga.html
entrou descalça dentro do sorriso, lembrou-se depois que não ia preparada para amar e, com um frio gélido de língua aos pés, quis recuar, do alto do céu de boca algumas estrelas roubaram-lhe a atenção, foi quando se esqueceu do frio e se começou lentamente a despir.
já nua dentro do sorriso amou. Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/11/entrou-descalca-dentro-do-sorriso.html
coagido o coração encurta-se, lento, até ao acanhamento de dois centímetros de dor; ergue-se depois, colossal no pranto, movimentos gastos em misteriosos torpores, até que se torna o corpo, inteiro, a esquinar-se com um sorriso em todas as faces da pele. a manhã mordisca-lhe mais a fala, acorda em silêncio, a oprimir palavras feridas como mar ou vento; já de tarde ergue-se em vocábulos, antecipados por um ou dois arrulhos, até se ouvir por toda a casa, por toda a rua, por todo o mundo, mais interior que exterior; a noite nasce-lhe precoce no sangue, quase extinto. não haverá tempo no coração, não enquanto dentro dele morrerem os sentimentos.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/11/coagido-o-coracao-encurta-se-lento-ate.html
trazia a noite entulhada no coração. da raiz das mãos ao cérebro era um compasso de arquitectónicos casulos onde fermentava sentimentos novos. julgo às vezes tê-la visto mais a leste, onde as mulheres costumam ir parir dores; mas não posso estar certo. um dia destes hei-de contar-lhe como a minha rua foi parar à dela ou como, dobrando a esquina pelo lado de fora, consegui alcançar a alçada da porta onde costura as extremidades dos corpos, tantos, que se quebram quando há despedidas. a primeira vez que encontrei a felicidade foi no seu colo, com a cabeça encostada ao seu ventre, a sentir tocar-me na face as recordações que a comiam. agora acho que me perdi ou ela se perdeu em mim, porque há decerto em mim um buraco negro onde se perdem as poucas pessoas que aprendo a amar.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/11/trazia-noite-entulhada-no-coracao.html
outros há que ousam segredar-me o fim do horizonte, como se lhes orvalhasse no coração tamanha infelicidade, que as árvores então inclinassem as copas em direcção à raíz. outros há que guardam histórias tristes no bolso das mãos, para me contarem quando estiver mais feliz. julgo ter perdido o jeito de pronunciar o teu nome sempre que estás longe, estás tantas vezes longe que as próprias vogais comeram as consoantes e na dissonância do teu nome, quando gritado pelo meu, levantam-se pássaros migratórios, desses que andam de coração em coração a debicar migalhas de amor. e o que de ti guardo vai secando, como se as estações do corpo passassem na pressa dos dias de inverno e as flores, que voltadas para a chuva entristecem, começassem lentamente a morrer. queria que as estações não me pesassem tanto na pele, para me ser possível guardar-te nas primaveras.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/09/outros-ha-que-ousam-segredar-me-o-fim.html
julgo hoje ser, na perpendicular deste texto, a linha ténue que separa a relidade da ilusão. no trecho breve deste início de noite, escrevo as tuas mãos ausentes, de fora da baínha dos sonhos, à espera que eu as toque ou que, num qualquer modo que desconheço, caia entre as rugas delas e me afogue nas lágrimas retidas à epiderme da pele. por estares morto é que te ouço, a bater os dentes sobre o frio pausado da noite que nos chama, é por estares morto que me ouves, no não falar coisa nenhuma que me embarga. se hoje pudesse matar-me, morrer deveras, esticar os pulsos e cortá-los ao som da angústia, deixar a vida fechar-me a porta de todos os textos; se hoje pudesse ficar aqui.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/09/julgo-hoje-ser-na-perpendicular-deste.html
pediu-me então que descalçasse os olhos e, como quem espera alguma coisa, pôs-se a cambalear o corpo para a frente e para trás. não consegui esquecer-me desta imagem, do seu semblante póstumo, o seu perfil a desfocar-se perante a nitidez do meu silêncio. acreditei que fosse um anjo, talhado a ouro, sobre o altar posto, à espera que um qualquer a viesse cobiçar e lhe roubasse também com os olhos, o que eu lhe roubava agora, a juventude. parecia-se com alguém que eu já vira, anos atrás, creio, recordo agora, a face destituída de expressões, história acabada de que já nem me lembrava não fossem tão grandes as semelhanças entre esta e a outra, aquela que me viria a cobiçar o coração. e no peito, irrequieto, abriu-se de novo a ferida, o buraco de onde um coágulo sanguíneo saiu sem eu contar. ainda com o peito aberto, assisti à sua morte. perigosa é a morte daquela que amamos, tão certa como a nossa própria morte, a que nos espera depois de braços abertos nas ruas da solidão.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/08/pediu-me-entao-que-descalcasse-os-olhos.html
a romper por certo a quietude mórbida do texto, ela estreita o ar dentro dos pulmões e com desenvoltura prende as palavras, todas, no canal que liga a boca ao estomâgo, a que os entendidos chamam esófago. é por certo este o momento de fumar um charro, fumá-lo até à epiderme do dedo indicador e esperar ver a mão ser comida por memórias felizes, imagens que não lhe pertencem de um tempo que não viveu. agora que a pressa se acomoda no seu colo, é tempo de fugir, às tantas esquece-se do seu nome, o seu ou qualquer outro nome que lhe chamam quando a vêem passar. e tantas vezes passa pelas mesmas ruas que até as pedras, ou os recantos comidos dos passeios, lhe sabem de cor os silêncios, lhe conhecem os gestos assimétricos, a forma incauta de andar como se corresse em direcção a alguma coisa desesperante. paralelamente a isto, põe-se a fitar o horizonte como se o comesse, e fossem das suas formas feitas as suas esperas. não há sentimento que a não encontre só, não há nada que a não faça triste, chorar é a única certeza que lhe trazem as noites que duram dias e dias e dias de pálpebras abertas. verá então, por certo, que o tempo é o exacto momento em que se perde do mundo, ou o mundo se perde dela e, no entanto, todos os espaços lhe parecem familiares, como se a memória selectiva que lhe pertence já lhe ocupasse todas as recordações que tem ou nunca teve. vem sentar-se aqui, ao pé de mim, como uma árvore despida, com o frio invernal a ocupar-lhe os lábios cerrados. vem falar comigo, com aquele olhar, que não consigo esquecer, de quem tudo perde sem ter culpa e ainda assim sente que é esta que lhe prende os movimentos sempre que quer avançar. recuar é o seu destino, e é com os braços e as pernas presas ao passado que ela caminha em círculos, ladeada pelos sonhos que não consegue realizar.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/08/romper-por-certo-quietude-morbida-do.html
a solidão de dois passos pode pesar mais no coração do que uma vida inteira. é assim que me sinto sempre que me afasto, costas com costas, mãos atrás destas, a pedir aos olhos para não chorar a prematura despedida dos afectos. é assim que me sinto quando te deixo, à boca de todas as ruas, e de tantas vezes te deixar temo que um dia ao regressar te não encontre. as pessoas mudam de lugar como quem muda de roupa, as pessoas mudam de pessoas e eu não quero mudar de ti, sair daqui. as pessoas preferem a solidão de dois passos a um sorriso, eu não. talvez tenha perdido esse jeito de ser pessoa, talvez tenham sido as pessoas a perder o jeito de serem como elas próprias. não sei. gostava apenas de não ter de te deixar tantas vezes.
Fonte: http://margaretedasilva.blogspot.com/2009/08/solidao-de-dois-passos-pode-pesar-mais.html Faça o seu registo
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