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Alexandre H. Dual

O Outro Lado de Mim - 25Mar2019 15:32:17
Por vezes interrogo ao silêncio sem sangue
das estrelas quanto tempo demoraria
a separar completamente
toda a carne dos meus ossos
e quanto mais tempo seria, na verdade,
necessário para fazer passar a alma
num sopro pusilânime
para o outro lado de mim?

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=235597

"A Morte de Heitor" - 25Mar2019 15:32:17
E enquanto Heitor saboreava
O sabor sangrento da Morte que o cercava,
Desenvergonhada, Helena abocanhava
O duro sexo de Páris seu amante...
Impetuosa, toda a helénica boca era preenchida
Pelo viril membro que, a golfadas,
Lhe saciava a jovem fome com o néctar da vida...
Até que, em apolínea hora, toda a Tróia invicta
Viu o corpo de Heitor, murchando exausto, tombar
Aos pés de Aquiles, na terra fonte de vida.
E enquanto o sémen de um Príncipe corria abaixo,
Por breves momentos, pela garganta de Helena,
Era a terra penetrada pelo sangue de outro,
Para todo o sempre...

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=169006

À meia-noite de um frustrado dia meditava, cansado,
Sobre estranhos, raros tomos de ciência olvidada ?
Quase passava p?las brasas, surgiu uma toada rasa
Batendo à porta de casa, batendo à porta fechada.
?É alguém?, eu resmunguei, ?batendo à porta fechada ?
Apenas isto e nada mais?.

Ah foi, como bem me lembro, que, num sombrio Dezembro,
Se contorcia morrendo cada cinza desalmada.
E eu ansiei p?lo devir; nos livros quis descobrir
Como a mágoa concluir ? mágoa p?la perdida amada ?
P?la brilhante dama a quem chamam os anjos de amada ?
Aqui não responderá mais.

O incerto roçar sedoso do meu cortinado roxo
Encheu-me de uma aversão antes nunca experimentada;
Tanto que, p?ra me acalmar, a mim tive que provar:
?É só alguém a rogar que eu abra a porta fechada ?
Um serôdio visitante rogando à porta fechada.
É isso, não é nada mais?.

Co?a força a se renovar, disse eu sem mais hesitar:
?Senhor, peço-vos, ou dama, que me seja perdoada
A sesta que ora fazendo fez-me ignorar quem batendo
Veio, tão subtil batendo, batendo à porta fechada" ?
E escancarei, do que ouvira incerto, a porta fechada,
Só vi trevas e nada mais.

Temendo, sonhando os sonhos p?ra qualquer mortal medonhos
Bem dentro daquelas trevas a minha alma mergulhada,
Num silêncio sepulcral sem nada que desse sinal,
?Leonor? foi, por final, a fala, que, murmurada
Eu consegui sussurrar ? e ela ecoou, murmurada.
Isto apenas e nada mais.

Voltei p?ra dentro de casa, com a alma ardendo em brasa,
Depressa ouvi a batida, então ?inda mais pesada.
?É algo?, a mim repetia, ?batendo na gelosia?;
Quis ver o que lá batia, p?ra ter minh?alma aquietada;
Explorar este mistério, p?ra ter minh?alma aquietada ?
Seria o vento e nada mais.

De súbito abri a janela; e vi, excitado, por ela
Uma ave entrando ? um corvo de uma época passada.
Sem sinal de reverência, e sem pedir anuência,
Subiu, a nobre excelência, ao alto da porta fechada ?
No busto da deusa Atena, no alto da porta fechada
Empoleirou-se e nada mais.

E o alado ébano meu siso transfigurou num sorriso,
P?la austeridade briosa da feição apresentada.
??Inda que não tenhas crista não és, por certo, ave arisca,
Horrenda ave, anosa e triste, a errar p?la madrugada ?
Diz-me o teu sagrado nome nesta infernal madrugada!?
Respondeu o Corvo: ?Jamais.?

Por pasmado que me visse ao ouvi-lo sem gaguice ?
Embora pouco valor tenha a resposta dada ?
Temos pois de concordar que humano algum viu seu lar
Uma ave abençoar, do alto da porta fechada ?
Sobre um busto, ave ou demónio, no alto da porta fechada,
Com tal nome como ?Jamais?.

Sentado em cima de Atena, só, o Corvo disse apenas
Aquela palavra, como não pudesse dizer nada
Mais do que o que já fizera ? nem uma pena mexera ?
Até que eu entredissera: ?como outros em debandada
Amanhã voará, como meu ânimo em debandada.
Disse o pássaro então: ?Jamais?.

?O que diz é, com certeza, sua única riqueza
(Fiquei de facto perplexo p?la resposta tão bem dada)
Que algum dono por lazer, sem qualquer piedade ter,
Lhe ensinou até morrer ? até que apenas cantada
Fosse a canção da Esperança, melancolia cantada,
O duro fardo de Jamais.?

Mas ?inda o corvo meu siso transfigurava em sorriso,
Pus um assento defronte a busto, ave e porta fechada;
Aí, no encosto me afundando, intentei, fantasiando,
Decifrar a ave, estudando a horrível ave malvada ?
E o que a medonha, sinistra, horrível ave malvada
Queria dizer com ?Jamais.?

Isto pus-me a adivinhar mas sem nada declarar
Aos ígneos olhos que a alma me deixavam inflamada;
Isto e mais tentei saber, relaxando todo o ser
Onde a costumava ver, p?la luz velosa alumiada,
Onde a não hei-de mais ver, p?la luz velosa alumiada ?
No coxim violeta, ah, jamais!

Julgo que o ar ficou denso, perfumado por incenso,
Como se no chão um anjo deixasse som de passada.
?Deus, pobre demente?, a mim gritei, ?dá-te de presente
Interlúdio e nepente para as lembranças da amada!
Oh sorve o doce nepente e esquece a perdida amada!?
Respondeu o Corvo: ?Jamais.?

?Vate!?, disse eu, ?ser macabro! ? vate, pássaro ou diabo!
Quer por Satanás mandado ou arrastado p?la chuvada,
Triste mas intrépido ainda, nesta casa desavinda,
Imploro-te que tu digas a esta alma desgraçada:
Há bálsamo que alivie esta alma desgraçada?
Respondeu o Corvo: ?Jamais.?

?Vate!?, disse eu, ?ser macabro! ? vate, pássaro ou diabo!
P?lo Deus que ambos adoramos ? sob a abóbada estrelada ?
Diz a esta alma agreste se, lá no Jardim Celeste,
Verá a dama que veste dos anjos o véu de amada ?
A brilhante dama a quem chamam os anjos de amada.?
Respondeu o Corvo: ?Jamais.?

"Façamos a despedida, demónio ou ave amiga,
Restitui-te à tempestade e à infernal madrugada!
Não me deixes pluma preta (sinal da mentira dita!)
Nesta solidão desdita! Sai-me da porta fechada!
Tira-me o bico do peito e a ti da porta fechada!"
Respondeu o Corvo: ?Jamais.?

E ?inda o Corvo que me assombra se encontra quedo, se encontra
Quieto no busto de Atena, ornando a porta fechada;
E os seus olhos dão-lhe o ar de um demónio a sonhar,
E no chão faz desenhar sua figura assombrada
De onde a minha alma, presa dessa vil ave assombrada,
Será levantada ? Jamais!
O presente poema foi por mim traduzido directamente do texto original de Edgar Allan Poe.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=167090

Os cavalos estão cansados, chicoteados que são
Pelas pestanas sonolentas das crianças
E pelos seus lábios ávidos de vida.
Os cavalos estão mortos, triturados que foram
Os seus ossos e a sua carne nos estômagos
Das crianças ávidas de morte.
Os cavalinhos ainda estão por nascer, sussurra-me
Uma pueril orquestra de vozes, em uníssono
Com o roncar maquinal das suas barrigas a dar horas...

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=154988

S/título - 25Mar2019 15:32:17
Arrancados do corpo os espinhos, as feridas servirão
Agora para dar de beber aos habitantes do deserto.
O sangue que lhe corre pelo corpo ? esse mesmo corpo,
O corpo do poema ? escorre para a boca dos famélicos.
E dos que dançam a chuva para matar a sede. Arrancadas
As almas polissémicas às palavras ? essas mesmas palavras,
As palavras que não são do poema ? o que resta para lá do corpo
Despido e cru, ungido e nu, que um dia nos foi pão
Mas hoje nada mais que memória?
Como uma mortalha envolta em redor do coração...


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=147761

Viagem - 25Mar2019 15:32:17
Viaja a caneta pelo papel
Rasgando labirintos de brancura:
A branca branquidão da pele
Que veste a pálida loucura
Descobre em mim novo alento...
Pelo verbo me renova, me seduz
A fútil sintaxe do pensamento;
Das minhas ideias, enfim, a cruz...

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=145148

Dom Sebastião - 25Mar2019 15:32:17
Por entre o nevoeiro do amanhã
Nascido de uma manhã de nevoeiro, a névoa
Deixou as suas pisadas na neve que cobria
O pathos de uma tragédia grega
Ensaiada no deserto.
E é quando a selenita placenta de uma nação inteira
Se desagrega
Do útero matriarcal
Que os atiçadores de palavras e os escrevinhadores de incêndios
Se apercebem que é
A violência o último Dom Sebastião dos fracos?

Quando tatuaremos a Mensagem na Carne como quem marca o gado?
Quando tragaremos novamente o Mar como quem bebe sangue?
Quando carpiremos o Céu com lágrimas de fado?
Quando conquistaremos o Passado que nos fita Adiante?...


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=144886

Botão a Botão - 25Mar2019 15:32:17
Botão a botão, o tempo é desabotoado
Nesse teu corpo de flanela
Onde embrulhado e quieto,
Muito quieto, te vejo dançar à volta do espelho
Iluminado pelo ecrã de cinema.
Os teus gestos são ora lentos ora rápidos
Mas sempre silenciosos como se o vento parasse
De soprar no exacto momento em que as folhas
Avermelhadas pelo bafejo do Outono e caídas no chão,
Junto aos teus pés, se levantassem,
Como que renunciando à escuridão do Inverno por vir
E almejando voltar aos galhos da árvore
De onde caíram. De volta à Primavera, longe
Do tempo linear.
O meu coração é um relógio avariado
Avançando para trás no tempo, em busca da hora certa em que te conheci
E em que te amei.
E quando os primeiros raios de luz pintarem o horizonte do solstício de Verão
Vou simplesmente dizer-te
Boa noite...

Inspirado pelo filme "The Curious Case of Benjamin Button"

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=140936

águas passadas - 25Mar2019 15:32:17
depois de esquecidas as palavras depois
dos corpos sucumbirem ao cansaço do
plenilúnio líquido das promessas falsas
como juraria eu amar-te se sempre
te amei em silêncio o molhado silêncio
depois do sol se pôr na porvindoura maré
que te depositou aos pés os lençóis
mudos de silêncio o molhado silêncio
teia construída pelo cantar dos búzios
ou seriam ostras que me deste a provar
à preia-luar junto as mãos abertas em
forma de concha e sonho lagoas onde
te sopro as velas pandas os olhos líquidos
escutando-te as orações arrependidas
e esfoladas de um céu aquífero pelos
teus joelhos suportado de sereia
no final depois do molhado silêncio o suor
dos corpos que encharcaram camas as lágrimas
que secaram ribeiros as palavras que
molharam o silêncio apenas resta o cheiro
a terra húmida e a águas paradas

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=140873

S/título - 25Mar2019 15:32:17
Olhou-me um rosto outro do outro lado do espelho
Hoje ou amanhã ou ontem, não o sei bem.
Olhou para dentro de mim e olhou em minha volta
Com o estranho estranhamento de quem estranha
A familiaridade da âncora que
Quotidianamente ancora
Alguém à sua hora.
Entrei em pânico e saí de mim mesmo
Pela porta fora.
Sei-me melhor no não ver-me
Do que no olhar-me e desconhecer-me.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=140058