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Maria Muadie

- 18Mar2019 23:50:00
Uma das vezes que eu quase morri foi tomando banho na casa de meu pai, em Valença, e, míope e displicentemente, suspendi o braço para alterar a temperatura do chuveiro, certa que encontraria o pino e tomei um choque tão violento que caí sentada tremendo.

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2019/03/uma-das-vezes-que-eu-quase-morri-foi.html

- 26Jan2019 21:49:00
final da tarde e meu 
coração vagabundo

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2019/01/blog-post_26.html

- 24Jan2019 16:52:00
Interpretação

As palavras aí estão, uma por uma:
Porém minh'alma sabe mais.

De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais.

Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz.

Falai! meu mundo é feito de outra vida.
Talvez nós não sejamos nós.

Cecília Meireles

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2019/01/interpretacao-as-palavras-ai-estao-uma_24.html

- 17Jan2019 00:54:00

A procura por você 
foi longa. E ainda não terminou.

Fui ao seu encontro 
como quem busca
um velho amante,
sem disfarce.

Como o pássaro que não teme
e se demora a comer 
na palma da mão do homem.

Martha





Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2019/01/a-procura-por-voce-foi-longa.html



- 11Jan2019 01:18:00

















Hoje, um quente dia de verão, aniversário de minha mãe. Representando todos que lhe querem bem, Louise, minha cunhada, eu, e a bonequinha Marília, de quem estamos loucas de saudade.

fotobiografia: Haroldo

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2019/01/hoje-um-quente-dia-de-verao-aniversario.html

- 07Jan2019 16:15:00
De uma criança desamparada nasce uma chaga com um adulto.

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2019/01/de-uma-crianca-desamparada-nasce-uma.html

- 03Dez2018 15:08:00
ÁGUA-VIVA

A vida
é a água-viva
que queima minha perna
quando nado.
A literatura é o rastro que deixo
na água quando volto à terra
gemendo.

(traduzido do norueguês-nynorsk por Luciano Dutra)

[BRENNMANETEN]

Livet
er den brennmaneten
som streifar låra mine
når eg sym.
Litteraturen er faret i vatnet
etter meg, når eg hylande
spring på land.

Gunnhild Øyehaug



Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/12/agua-viva-vida-e-agua-viva-que-queima_3.html

- 03Dez2018 15:01:00
Uma Menina Chamada Nina 
Feira da Fratenidade






Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/12/blog-post.html

- 23Nov2018 21:37:00
melancia

em mil novecentos e sessenta eu tinha oito anos de idade,
os dias áridos e longos nunca chegavam ao fim e eu trazia
aqui dentro mil revoltas sem razões aparentes, motivos de
surras corretivas e constantes do meu pai, devido pirraças
e malcriações, maldades com plantas e bichos e por bater
nos meus irmãos menores, tipos de coisas das quais não
tenho nenhum orgulho;

então quando aprendi a xingar meu pai de corno, viado e
filho da puta, as surras viraram espancamentos medonhos,
de criar bichos e de se ficar mijado no chão;

em mil novecentos e sessenta meu pai trabalhava noite e
dia de meieiro nas terras incertas de um espanhol chamado
périco garcia que tinha uma filha chamada dulcinéia, em
lucélia na alta paulista, onde eu maldizia o tempo por não
passar, quando ouviu falar que melancia tinha rendido
lucro seguro e fácil na safra passada, grana abundante que
muita gente que vivia atolada na penúria tinha lavado a
égua com essa espécie de lavoura e andava posando de
bacana, inclusive diziam, desfilando pra cima e pra baixo
de trator da massey & fergusson e caminhonete zero bala;

meio mordido pela mosca branca da possibilidade de um
ganho fácil mas com um pé na frente e outro atrás, como
qualquer bom japinha, meu pai reservou naquele ano ao
lado dos tradicionais cultivos de feijão, milho e algodão,
de quiabo, abóbora e amendoim, um áspero e inútil trecho
de terra, um oitavo de alqueire se tanto, para experimentar
uns pés de melancia coquinho, como se arriscasse uns
trocos na milhar e centena do primeiro ao quinto e ainda
cercasse com um duque de dezenas, por via das dúvidas,
e me fez encarregado de cuidar da plantação rastejante;

até hoje é um milagre misterioso para mim, os pés de
melancia terem vingado e se espalhado verdejantes no
meio daquelas pedras e tocos ressequidos mas a verdade
é que um dia elas surgiram e cresceram do mesmo jeito
e tamanho, dezenas delas, irmãs gêmeas de tão iguais,
com exceção de uma, a maior, mais exuberante e mais
cobiçada fruta que eu tinha visto na minha vida de dias
infelizes e demorados, onde eu ficava torcendo o tempo
todo para que ela madurasse urgentemente;

naqueles dias lentos e exasperantes, enquanto eu ajeitava
com carinho as melancias com os cabos para cima como
meu pai ensinara para que crescessem uniformes e eu o
observava com afeto e orgulho de filho, todos os dias eu
perguntava a ele se a minha melancia já estava no ponto
e todos os dias ele respondia que ainda não, que estava
verde ainda, que tenha paciência, akira, mas um dia não
aguentei mais a curiosidade e a gula e com um canivete
afiado talhei a bitela de cima a baixo e a coitada ainda
estava branca por dentro, as sementes nem tinham se
formado e eu levei a mais injusta das surras na hora da
janta daquele dia, por desobediência ou talvez porque
meu pai estava puto da vida devido o preço da melancia
que tinha caído no mercado;

então na noite de humilhação e revolta fugi correndo para
o meio das plantações e cego de dor e raiva, com minhas
mãos sedentas de vingança arranquei um monte de pés de
melancia que no dia seguinte estavam mortos e murchos e
quando ri do desespero do meu pai tentando replantar no
chão duro e seco, as raízes sem vida, não deu outra e aí
sim, levei a mais feroz e definitiva surra da minha vida, de
soco,de pau, de pontapé, de cinta e do que ele tivesse na
mão e mais ele me batia, mais eu o xingava de viado filho
da puta;

dois dias depois, como eu não falasse, não comesse, não
me mexesse, não bebesse e nem xingasse, não chorasse,
mijasse ou cagasse, meu pai me examinou, nem tive força
para fugir, e percebeu que meu braço estava quebrado e
com um tranco o colocou no lugar e improvisou uma tala
de madeira para colar a fratura e minha mãe passou iodo,
álcool e mercúrio nos meus hematomas e então eu virei
um menino calado que nunca mais sorriu e de repente os
dias começaram a passar tão rapidamente que eu não
conseguia mais acompanhar.

Akira Yamasaki

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/melancia-em-mil-novecentos-e-sessenta.html

- 20Nov2018 17:29:00
Descobertas

Quando eu buscar
os últimos segredos do teu corpo
indo dos teus lábios verticais
até chegar entre os dedos dos teus pés,
é quase certo o céu querer
trocar estrelas comigo
E eu te digo. Direi não.

Éle Semog

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/descobertas-quando-eu-buscar-os-ultimos.html

- 20Nov2018 17:29:00
Sóya

Há-de nascer de novo o micondó ?
belo, imperfeito, no centro do quintal.
À meia-noite, quando as bruxas
povoarem okás milenários
e o kukuku piar pela última vez
na junção dos caminhos.

Sobre as cinzas, contra o vento
bailarão ao amanhecer
ervas e fetos e uma flor de sangue.

Rebentos de milho hão-de nutrir
as gengivas dos velhos
e não mais sonharão as crianças
com gatos pretos e águas turvas
porque a força do marapião
terá voltado para confrontar o mal.

Lianas abraçarão na curva do rio
a insónia dos mortos
quando a primeira mulher
lavar as trancas no leito ressuscitado.

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada.

Conceição Lima

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/soya-ha-de-nascer-de-novo-o-micondo.html

- 04Nov2018 22:31:00
por exemplo, o interfone está sempre quebrado, varro o quintal, mato formigas, o sofá está ficando velho, faço feijão enquanto vejo novela, sou Martha, cuido das plantas, não faço nada, tempero e congelo, perco a paciência, leio, faço pouco dinheiro, sou irmã, sou mulher, escrevo, choro, sinto saudade, dirijo, quebrei um prato e alívio: o vidro era temperado, quebro promessas, sinto raiva, conto história, sorrio, sou filha, viajo, volto, uso o mesmo chaveiro desde os 15 anos, sou mãe, fico calma, grito, uso perfume, sou amiga, gargalho, desisto, duvido, mando mensagens, sou indiferente, dou água e comida aos gatos e cágados, não faço a cama, quero flores, tenho medo e coragem, numa desordem retada.

foto: Luciana


Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/por-exemplo-o-interfone-esta-sempre.html

- 04Nov2018 22:25:00
um forte aperto
no peito à beira
dum abismo tonta
à beira um peito
um aperto tonto
um forte peito
um abismo forte
um peito abismo
apruma à beira
tonta tonta
um peito aperta
apruma forte
embora tonto
à beira à beira 
um peito aperto
apruma firme

Deisiane Barbosa

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/blog-post_20.html


- 04Nov2018 22:20:00
mameluco

hoje a cabeça frita desde cedo no 
óleo quente do noticiário. não sou
poeta nem filósofo, sou ingênuo: acabo
de aprender: a culpa é dos outros, 
meus amigos dizem, meus ancestrais
também, eu ouço meus ancestrais
no chiado da frigideira, na gordura
borbulhante, bolha-tamoio,
bolha-banto, bolha-mouro, bolha-
manoel-de-trás-os-montes, algo me 
diz que são os outros que me tomam 
pelas mãos e pelos pés, e num tapete
voador, essa noite, eu fui à cidade
sagrada dos mamelucos, e lá me
pregaram na cruz, e lá me fizeram a
cabeça com o sal do tempo, as 
especiarias das índias, e gordura
fervilhante, a banha que eu trago: 
nos vazios do corpo, esse
corpo de camadas e camadas e
camadas de espíritos que eu fui,
que eu sou, que eu encarno como
ninguém mais: eu frankenstein que
assombro os homens, costurado
até os dentes com os pedaços
disponíveis, walking dead dos
sertões, flecha dos índios guarani-
kaiowá: apontada pro coração-de-
jesus-louro-de-olhos-azuis na
parede da sala

Nílson Galvão

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/mameluco-hoje-cabeca-frita-desde-cedo.html

- 04Nov2018 22:19:00
Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/poema-boca-fechada-nao-direi-que-o.html

- 04Nov2018 22:17:00

incurso
de um roxo violáceo
céreo-etéreo-esfriado
desses rasos, quase diáfano
quase marinho acaso alga
lhe tomando a face e o abdome
e a casa inteira e a cumeeira
e a casa inteira e a cumeeira

Iolanda Costa


Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/blog-post.html


- 04Nov2018 19:59:00
Sargaços

Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.
Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(Sargaços ofegam o peito opresso),
Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
Do corpo
E não parar de nadar,
Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.

Waly Salomão 

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/11/sargacos-nascer-nao-e-antes-nao-e-ficar.html

- 25Out2018 19:46:00
Para Leo Mir

Em solidariedade
Aos que se abstêm de beijar em público
Por medo de ser banidos
Insultados
Espancados
Assassinados
Decretaremos um dia sem beijos escancarados
Um dia sem abraços apertados
Nos aeroportos
Nos terminais rodoviários
Nas filas dos metrôs
Um dia inteiro sem encoxadas de adolescentes
Apaixonados nos pontos de ônibus
24 horas intermináveis sem carinhos públicos
Nenhuma expressão explícita de amor
Nos pátios das escolas
Nenhum chupão no pescoço
Na despedida da festa
Em frente ao prédio sob o olhar do porteiro
Nada de beijos rápidos e fortes
No amarelo do sinal
Sem EuTeAmos gritados
No meio da rua, nas praças, nos parques
Nenhum aperto de mãos nos leitos de hospitais
Abraços nos cinemas: interditados
Pelo prazo de um dia
Agarrar aquelas pernas no sofá da sala
Na presença de toda a família
Também está proibido pelo eterno, solitário
E frio tempo que perdurar esse decreto
Aos que se arriscarem
E forem flagrados
Em escândalos de beijos ou
Quaisquer das restrições acima
Igualmente serão banidos
Insultados
Espancados
Assassinados
Depois de encerrado o dia
Os hipócritas sentirão
Uma sede infinita de amor
E se houver sobreviventes
Beijar escondido
Estará restrito à máxima conquista
De crianças curiosas
E amantes incendiários
Nenhum amor será mais necessário
Somente máquinas, trabalho escravo
E a eterna espera pelo décimo terceiro salário

Assinará Souza



Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/10/blog-post_25.html

- 18Out2018 15:36:00
ONDAS

Sei que me estou a afogar, mas ao menos
consigo manter de fora a cabeça.
De modo que, por favor,
não venhas tu fazer ondas.

Amalia Bautista

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/10/ondas-sei-que-me-estou-afogar-mas-ao.html

- 14Out2018 15:30:00
Urdidura

se vou cair no corpo
sem fundo
a palavra me ampara

Martha

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/10/blog-post.html

- 17Set2018 14:43:00
BAHNHOFSTRASSE

Olhos que zombam mostram com sinais
a rua em que ando enquanto a tarde cai-

a rua é turva, e seus sinais,violáceos-
a estrela do encontrar-se e do apartar-se

estrela má!da pena!a idade moça,
do coração pleno de alento,foi-se,

e falta um velho e sábio para entender os
sinais, que me acompanham zombeteiros

James Joyce

Tradução Alípio Correia

Fonte: http://mariamuadie.blogspot.com/2018/09/blog-post_17.html