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UM SARGENTO DE MORTE - 05Out2017 14:27:00
Um homem caminha pernas e músculos
relaxe nos calções, sandálias tempos cálidos, praias banga no olhar escuro nos óculos afadigado pedestre comum viaja sonha cousas d´espaço algum. Um homem vem sentar-se nas mãos o funje da terra deliciar saborear peito nu correntezas d´ar línguas sons da terra kissanje gargalha caminha pai de família na igreja bebe embriaga-se d´homilia. Um sargento caminha nas botas as tardes aprumo camuflado militar metralhadora canos alardes mira de morte indefesa gente a deambular uma Kalashnikov pólvora e balas cinturões cartucheiras e mochilas. Kalashnikov ordens superiores no cérebro patentes de morte no ombro dedos unhas gatilho metal a manipular premir letal uma culatra olhar mirado, um homem um outro antes de família, armado. À noitinha agacha-se de vulgo no leito geme dorido um filho gritarias de fome ronca descansa intranquilo sono e dorme ordens de morte Kalashnikov no peito olhar fumegante morte a pedestre gente: é vítima severa servente (des)inocente! Décio Bettencourt Mateus Luanda, 20 de novembro de 2011. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2017/10/um-sargento-de-morte.html QUE COUSAS ANDAM TORTAS... - 31Mar2016 12:28:00
? E que cousas
andam os anos do filho da Suzete zungueira recém-nascidos, na poeira na zunga dos quotidianos que cousas andam tortas essas causas? Os filhos da pedinte mutilada na Baixa da Mutamba mãos de imploro à gente que passa e zomba que cousas cabelos de fome russos e bochechões nos discursos. As gentes negras só negras multidões ambulantes nas ruas das estradas a vender drogar as vidas cousas de que horizontes essas causas que leis que regras? O filho da Mingota vendedora na zunga da fome bebé, são cousas que nome causas que futuro desespero a vida as gentes esfarrapadas de poeira. E as falas reluzentes nas gravatas dos fatos barrigas inflamadas refastelo na esquindiva dos actos o filho da Suzete Mingota das gentes cousas assim para quando futuro dia belo? Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio Luanda, 4 de Dezembro de 2009. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2016/03/que-cousas-andam-tortas.html EM FALAS GABAROLAS - 07Dez2015 18:46:00
Nas ondas que gabas e falas teus fatos elegantes luzidios repletos luzidios falas de que gentes se caminham míseros silêncios quando enfartado falas de AC às salas. Nas ondas que propagas e advogas falares-me em nome discursos papeladas ruídos se famintas barrigas fome em rosto disforme quando arrotas teus passos abastados. E falas e desdizes números Gráficos rankings crescimentos? se vivências desesperos e sofrimentos habitam os musseques as noites nos dias quando de smoking gravatas jactâncias. E te abrilhantas de TV em propalas conversas de Marte e estrelas senhor doutor mazé patranhas de blá conversas artimanhas se de bocas famintas não sabem como caminham quantas. E sozinho te banqueteias lambuzas o mel as colmeias te coroas príncipe herdeiro terras mares petróleos diamantes que se borrem longínquas gentes de vivência mísero viveiro. Rádios jornais TV em falas gabarolas Desverdades conversas desfalas se fumega o vulcão o magma em quase erupção lágrima te assustas nas sombras dos teus passos discursos de baboseiras. Décio Bettencourt Mateus (In Os Portões do Silêncio). Luanda, 9 de setembro de 2010. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2015/12/em-falas-gabarolas.html ANTES QUE OS HOMENS A COR - 26Set2015 01:03:00
(Antes do Princípio) Antes que viessem os homens teríamos descalços viajado matos montanhas mãos dadas laços juras e confidências d´entrelinhas segredadas dispersas aos aléns. Antes que soubéssemos as cores teríamos deitado o capim a estalar-nos as costas a soletrares gemidos em mim promessas e apostas a colorirem-nos d´alvoreceres. Antes que mapeassem diferenças seríamos brincado felicidade nus a sorrir crianças tuas melodias sopro-murmúrio nas correntezas do meu rio antes que nos mentissem a verdade! E deitaríamos o chão dos nossos lagos adocicados, mel abelhas favos... antes que os homens as teorias e o cinzento dos dias acariciaríamos os cravos licores d´amor taças champanhe e tragos. Antes, muito antes que nos viessem os homens dia e noite uma linha d´horizonte longínqua ténue reluzente azul vida amanheceres antes que soubéssemos as nuvens e o brilho desfavorecido das cores, que os homens inventaram depois muito depois a distanciarem-nos os dois. Antes que os homens a cor corríamos felizes as constelações do amor. Décio Bettencourt Mateus. in Os Portões do Silêncio. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2015/09/antes-que-os-homens-cor.html NGANA MINGO TAMBARINO - 22Jun2015 23:24:00
Ngana Mingo Tambarino madruga pastor
Bois vacas cabritos cajado... apascenta o gado aconselha-se nas manadas soberano de cabeças e madrugadas: um ruído disperso de castor! Ngana Mingo Tambarino caminha caçador braços vigorosos, arco, zagaia... requinte no faro precisão saber no disparo o lúmen na noite uma fagulha luzidia: uma corneta toca mãos de tocador! Ngana Mingo Tambarino pássaro que voa-voa Marte Vénus Júpiter (um gemido oculto de mulher) rosto erguido vaidade em proa navega oceanos e galáxias revoluciona noites e sabedorias. Ngana Mingo Tambarino homem poder homens encolhidos grunhidos uma nuvem brinca às tranças e ensaia melodias de danças um sussurro-mulher um homem navega paraíso e gemidos! Ngana Mingo Tambarino canta baba geme, uma cavidade de mulher e Ngana voz treme-que-treme prazer orgasmos vulcão-tsunami-pasmos... Ngana Mingo Tambarino, homem poder, obedece que treme-treme à voz d´uma mulher! Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio Luanda, 26 de Setembro de 2011. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2015/06/ngana-mingo-tambarino.html AS HIENAS VIERAM A CORRER OS ABUTRES - 07Mar2015 22:49:00
As hienas vieram as hienas fugidias do longe das matas áridas de chuvas magras silenciosas amenas língua de fora astutas fugidias das terras securas. Vieram escapulidas fome nas patas terras deserto nos rios as hienas gargalhadas marotas esquinadas nos lábios caudas mansas salivando gargalhando sonsas. As hienas vieram a correr os abutres pendurados nas árvores terras à mercê presas pulsarem palpitarem indefesas a noite gemidos de morte a noite uivadas à corte. Cercaram cinturões às terras trocistas multidões d?hienas exércitos gritarias hienadas gritos as hienas soslaio matreiras os abutres os chacais as feras as gentes desesperam as terras. As hienas assentaram o covil conversa astuto ardil águas pastosas reluzentes sorriso nos cantos sorridentes as hienas as feras os abutres: terra gente húmus desesperam pobres! Décio Bettencourt Mateus. Luanda, 12 de Outubro de 2010. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2015/03/as-hienas-vieram-correr-os-abutres.html QUASE TE AMEI MIÚDA! - 06Dez2014 17:39:00
A uma Tânia
Quase te amei segredo nas noites cúmplices andando a Mutamba escura remorsos, sobes e desces em eterna busca-procura procurando-te os olhos cor gemido. Quase te amei miúda esgravatando eternidades adentro ruídos calemas mar a dialogarem-me a voz do luar caramba!, é gaja noite da vida vasculhando a palpitar-me dorido centro. E sonhar-te de bicos finos manteúda! Avenidas prostitutas palpites maldizendo-te caramba, negócios merda avenidas e andanças, miúda meu mar oceanos e silêncios nas rodas solitárias das noites. Teu ventre a tremer-me espasmos Marte Júpiter Saturno Vénus? a trotarmos galáxias e céus: a infinidade, minúcias d?orgasmos detritos, gargalhadas cristalinas esvaídas na Mutamba das esquinas! Quase te amei miúda o destino na voz do teu universo: sou tudo de todos, arco disperso nas avenidas da ilha defraudada uma estrada prostituta à noite uma janela um telhado aberto convite. Quase te amei miúda e sonhar-te de saltos-altos manteúda! Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio. Luanda, 01 de fevereiro de 2010. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2014/12/quase-te-amei-miuda.html UM MENDIGO ROBOTEIRO - 20Set2014 08:36:00
Um mendigo veio a cantar-me as dores do silêncio mãos pedintes mendigadas às gentes antigo combatente lágrimas amuadas ciciadas discretas às madrugadas. Um mendigo veio nos olhos a questionar pasmar ignorante as cousas vivências requinte costas doridas a estalarem galhos passos descalços pés trôpegos e multidões infindas de mendigos. Era roboteiro um farrapo qualquer a saltitar espreitar o candongueiro há-não-há ganha-pão mercadoria um mendigo miserável roboteiro a chafurdar lambuzar porcaria: uma estrela goteja lágrimas d´enternecer! Eram braços robustos emprestados a um corpo magro pernas gemido caminhar um negro um mendigo roboteiro veio pasmando fatos smoking atavio? as rugas nutridas nos rostos. E foi-se carregando o mundo as escórias num carro de mão sustento untado besuntado lamento lágrimas segregando histórias um mendigo roboteiro trabalhador: o planeta convulsiona rotações d?arco lágrimas e dor! Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2014/09/um-mendigo-roboteiro.html Um convite deveras tardio... - 15Set2014 10:57:00
MAR, PORÕES, CORRENTES? - 19Jul2014 13:12:00
Mar, porões, correntes? noites de chibatadas e triângulos de escravatura!, murmúrios, batuques e gentes: o amanhecer é uma noite escura a tatear teias e madrugadas! Sons, África, gemidos? a zumbirem melancólicos chicotadas e cânticos azul, sal e ranger dentes: tons África deploram noites surripiadas: o escuro funde horizontes! Negros, mar, águas incógnitas? rumorejam infindas nostalgia e ondas caminhos de morte e sopros de norte: o destino são vozes roucas desertas! A morte adormece o mar; negros, negreiros, navios o Atlântico repousa oceano em dorso dorido sereno, lamentações e luar: almas escravas choram silêncios!: Ó Salvador, Salvador, Salvador* a mesma dor Salvador pretas, cocos, catanas, baldes e miséria a mesma dor Luanda-Bahia o mesmo ritual de páginas escravatura o mesmo ritual turvo d´amargura. Ó Salvador, Salvador, Salvador... * capital do estado brasileiro da Bahia. Décio Bettencourtt Mateus Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2014/07/mar-poroes-correntes.html ESTE CHOCALHAR DE PÉS - 06Abr2014 18:24:00
Este chocalhar revolto
em pés empoeirados e cacimbados no quente do asfalto vem do longe dos musseques e traz o som dos batuques. Este chocalhar de pernas femininas a lutar bagatelas e gritarias em pedaladas fugidias vem do longe das sanzalas e foge a dança das minas. Vêm perdidas das matas perdidas das kubatas estas chocalhadas em chão quente de sol arrogante vêm corridas das lavras e trazem a fome das terras. Este arrastar de pés zungueiras com falas de asneiras em conversa matumba vem do longe dos musseques e dança a dança dos batuques a resmungar o chão da Mutamba. Este fedor forte conhece os grãos da estrada os grãos da caminhada e vem d?alguma parte escapulido das minas vêm d?alguma parte estas chocalhadas femininas. Esta catinga fedeu-se distante fugidia deslocada do kimbo aos gritos mãos na cabeça desesperançada sem graça esta catinga fedeu-se em andanças galopantes. Este chocalhar em pés encardidos e rachados este chocalhar revolto em pés de zungueira no quente do asfalto vem do longe dos musseques e dança a dança dos batuques! Décio Bettencourt Mateus. in Gente de Mulher. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2014/04/este-chocalhar-de-pes.html SOU UM PÁSSARO... - 12Jan2014 00:07:00
Sou um pássaro na infinidade do azul claro na infinidade do azul infinito meu grito ecoa a liberdade das infinidades da infinidade. Sou vida marinha vida aquática navego as profundezas e encantos dos oceanos revoltos e serenos navego a força mítica da força das correntezas. Sou astro no Universo imensurável vivo a explosão da vida no além insondável das galáxias escondidas vivo a vida no além empoeirado do cosmos distanciado. Sou vulcão sou lava em fervuras nas entranhas da terra grito a essência grito a efervescência da bravura na rocha viva grito a explosão da vida na rocha viva. Sou as ondas do mar em altas braçadas, Atlântico Pacífico, Índico sou a sinuosidade do curso da imensidão do Universo em braçadas de expansão, a amar! Sou um pássaro na infinidade das infinidades do azul claro! Décio Bettencourt Mateus In Gente de Mulher Luanda, 25 de Novembro de 2005. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2014/01/sou-um-passaro_434.html OS PASSOS DA MINHA POESIA - 11Nov2013 22:20:00
São de poesia os passos distraídos que galgo num Sol ardente do meio-dia dum qualquer dia distante a ecoar meus passos enluarados. São de poesia as voltas sem destino que trilho a errar a Mutamba a sofrer tuas malambas? a dualidade do brilho da vida a sorrir-me durezas e cortesia. E também a dor o peso que sinto nas imbambas de sustento carregas na cabeça de zunga a galgar distância longa é também poesia a dureza deste labor! A desarmonia tua fome que me rói também nas fúrias do homem emporcalhado d?embebedado são espinhos da minha poesia. Outrossim são poesia as caminhadas solitárias a descobrir poesia nas areias do chão por ti galgado e trilhado são de poesia as minhas trajectórias! Décio Bettencourt Mateus. in Gente de Mulher Luanda, 30 de Agosto de 2006. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2013/11/os-passos-da-minha-poesia_12.html AS SOBRAS DAS SOMBRAS - 27Jun2013 01:26:00
Faço de contas a fingir que no nascente do poente o Sol brilha para mim também e no além brotam migalhas de justiça a florir. Depois sonho com sombras debaixo dum Sol escaldante abomino as sobras das sombras estranhas me envias (in)complacente: as sombras também são minhas! Oh!, a chuva matinal Deus enviou-me a chuva torrencial sou dono das cargas d´água e minha amargura desagua na foz dum rio qualquer na foz dum rio a entardecer. Faço de contas a sonhar que as melodias das ondas do mar numa praia linda da ilha da minha Kianda cantam para mim entusiásticas melodias eufóricas. Oh o solo é meu, recebi de herança é minha a esperança perdida no chão de riquezas (riqueza? Que riquezas? Pobrezas!) é meu o solo rico que galgo é meu o lamento triste que rogo. Deus enviou-me o sol também o Sol é meu também as sombras abomino as sobras que do alto teu céu me envias arrogante. Turbilhões de justiça no além! Abomino os restos recuso! Protesto meus protestos as sobras. As sobras das sombras que tua falsidade me grita e envia hipócrita: recuso as sobras! As sombras. As sobras das sombras! Luanda, 19 de Maio de 2006. Décio Bettencourt Mateus In Gente de Mulher Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2013/06/as-sobras-das-sombras.html O TRUMUNO! - 23Mai2013 18:52:00
Pés voam descalços o quente d?areia trumuno o jogo da bola que gira e rola pernas marotas riscam espaços em bolas apressadas de meia. Correrias em pernas loucas cololas, cabritos fintas e trucas na disputa da bola na fuga à escola a garotada feliz aos gritos. em pernas craques o mundo na garotada em peitos suados de fora a escola à espera o velho em fúrias de porrada. Nos pés do maestro mestria no passe ao companheiro o maestro finta e escova enfia na ova do defesa o maestro finta e chuta p?ra baliza. Uaaá! Uaaá! Chulipas, quinhões e cabritos brigas e porradas cafriques quedas e truques acode, acode, é batota, é batota. Apitos, algazarra na garotada. ? Oh!, saudades! Eu nas pernas da garotada no peito da miudagem a fazer vadiagem a correr descalço um campo d?areia; depois o medo a tareia eu em medo, o velho e a porrada! Eu no trumuno do futebol É golo! Golóóóóóóóóóóóóóóóóóó! Luanda, 05 de Setembro de 2006. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2013/05/o-trumuno.html MUSEU DA ESCRAVATURA - 05Set2012 09:46:00
Na tristeza do meu kissange o lamento do pensamento das gentes que partiram p?ra longe que partiram p?ra outros horizontes em cânticos de desencanto. Nas tuas ondas cansadas oiço passos antigamente passos escravos acorrentados cativos em liberdade de correntes passos escravos no lamento tuas ondas. No longe tua superfície ondulada cheiro a navios negreiros dos homens acorrentados maltratados na tua superfície azulada a fumaça dos navios guerreiros: Ó museu da escravatura fala-me a história enterrada na memória dos dias fala-me os negros escravizados vendidos nas noites sofridas de brancura. Fala-me os rostos transpirados desgastados nos homens valentes arrastados prisioneiros em navios negreiros em navios nos aléns fumegantes. Ó museu da escravatura impávido viste meus irmãos fazerem travessia do infinito em inferno de porões fala-me esta angústia no peito esta angústia loucura. Ó museu da escravatura ainda sinto no pulsar tuas águas dor das mágoas dos meus antepassados maltratados acorrentados ainda doem os ossos nas noites de torturas. Ó museu ingrato fala-me o ranger de dentes Nos navios perdidos nos horizontes! Décio Bettencourt Mateus in Gente de Mulher Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2012/09/museu-da-escravatura_5.html GENTE DE MULHER - 13Jul2012 01:05:00
Lançamento de GENTE DE MULHER, meu mais recente livro de poemas, hoje 13 de Julho de 2012, na sede da União dos Escritores Angolanos, às 18h00. Apresentação por José Luís Mendonça. Estão todos convidados. São todos benvindos. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2012/07/gente-de-mulher.html A ESCALADA - 08Jun2012 12:50:00
E na escalada da montanha Tropecei pedregulhos e penhascos De areias escorregadias Beijei o fresco da manhã E a quentura dos dias Nuns pés cansados e roucos! Meus joelhos escorregadios Sangraram dolentes abrupta escalada Minha boca amuada Desbaratando caminhos E espinhos E jorrando dores fartas de lamúrios! Respirei ar-poeira beijando a boca Barro sufocando lábios De dolentes assobios E uma voz rouca Clamando o cimo da montanha Clamando o fresco da manhã! Meu corpo dorido num arrasto Deslizando detritos Pedregulhos, poeiras e areias Minha garganta um rosto Inflamado de gritos Lamentando a crueldade dos dias! Lábios inflamados morderam terra dura Minha seiva regou terra De montanhas e penhascos e areias Rebolei precipício abaixo Gemi baixo E limpei as feridas no silêncio das aldeias! Décio Bettencourt Mateus in Xé Candongueiro! Luanda, 7 de Agosto de 2007. ? Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2012/06/escalada.html MEU POEMA ACORDA DORIDO! - 29Mai2012 07:40:00
À memória de Luzia Bettencourt M.,
minha mãe. Manhã virgem manhã cedo meu poema acorda dorido manhãs frias vai à igreja vai à missa em pernas de pressa: ó Senhor pão às minhas crias. Meu poema sofre a madrugada a espreitar a aurora acarreta água ensonada enche bidão enche tamborão de olho na torneira música sofrida no coração. Dorme insónias na noite escura acorda constrangido a praça a vender gelados compra esperança recebe troco ternura bem diz os kwanzas bem diz trocados. Caminha um sol abrasador preocupação no rosto meu poema tem dor a rusga a falar serviço militar a rusga: kwata-kwata miúdos a passear kwata-kwata miúdos, oh desgosto! Meu poema desperta alvorecer lava roupa amontoada no tanque rebenta mãos de sofrer vende gelo no Roque e sofre filho fugidio emigrado filho mwangolé exilado. Meu poema dorme cansado é pai mãe marido mulher... cuida os miúdos atende o marido dorme dorido prazer dorrme dorido sonho de trocados. Meu poema dobra joelhos em manhãs frias: ó Senhor pão às minhas crias! Décio Bettencourt Mateus in Gente de Mulher Luanda, 10 de Agosto de 2006. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2012/05/meu-poema-acorda-dorido.html Gente de Mulher, meu mais recente livro de poemas. A publicar brevemente... Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2012/05/gente-de-mulher-meu-mais-recente-livro.html QUE COUSAS ANDAS AS QUANTAS* - 06Fev2012 05:59:00
Falas-me a papel,
nas cousas lindas que cantas nas letras mortas das palavras fartas que sozinho caminhas e andas; que cousas andas as quantas. E que me falas a Maquiavel oculto em discursos quando opulento nos bolsos bochechas d´arroto zombas-me o rosto na zombaria de falas a mel. Falas-me a Maquiavel quando me ignoras a palidez magreza nos ossos, na fartura dos discursos estupidificarem-me aridez na astúcia da palavra afável. Falas-me a papel no ornamento das palavras chacotas que lavras no alto da imponência da cor da arrogância quando me falas afável a Maquiavel. Falas-me à abastança da tua oca bonança em papéis de vã sabedoria pisotearem-me a miséria no rosto ansioso de fome que tua abastança me consome. que cousas andas as quantas quando me falas a papel cousas leves a Maquiavel que sozinho caminhas e cantas. Décio Bettencourt Mateus. Luanda, 2 de Dezembro de 2009. * Poema inédito, Mencionado no XXVII Prémio Mundial de Poesia Nosside. (Com algumas alterações) Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2012/02/que-cousas-andas-as-quantas.html E EU ERA O TEU KWANZA*... - 05Mai2011 07:22:00
E eu era o teu kwanza
Caudaloso E tortuoso Destreza A farfalhar as margens Das tuas paragens! Um kwanza vaidoso E sinuoso A fundir a doçura Do meu açúcar Na salgadura Das ondulações do teu mar! Ou ainda a nostalgia Dum pôr-do-sol a entardecer A luz do teu dia Eu era a delicadeza Duma brisa A sussurrar-te o amanhecer! Era a noite solitária A beijar a insónia Da tua madrugada Uma mania D?aurora adiada Na maré da tua praia! Era a melodia Do trecho Do canto dum riacho Harmonia D?águas a batucarem pedras E a polirem lascas ásperas! Um aceno distante No anoitecer Da tua noite Dormida-acordada Eu era o kwanza da tua almofada A balbuciar-te o alvorecer! Décio Bettencourt Mateus in "Xé Candongueiro!" Luanda, 07 de Junho de 2007. * Kwanza: rio de angola. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2011/05/e-eu-era-o-teu-kwanza.html CRAVOS DA VERDADE - 14Mar2011 12:15:00
Que importam as dores duma verdade
sonho-realidade e a tranca da porta cravada nos sonhos e desenhos que arquitetamos em noite farta? Que importa afinal o ruído inconfesso nos teus passos esquivos e furtivos a ornamentarem horizontes e fontes dum qualquer outro verso? Dorido escuto no silêncio das estrelas o cântico das promessas que cantaram nossas águas em noites mornas de conversas e luas num ritual de whisky e velas! Que importam os cravos da verdade e espinhos da saudade? estacionei numa noite de luar e astros a sonhar estacionei falas mansas e saboreei tuas promessas! Importa a distância no teu olhar? Cruzei as ondas do mar mergulhei fundo vasculhei nosso mundo no teu olhar perdido vasculhei nosso mundo num coral escondido! Importa tua mala arrumada e vazia de promessas a cruzar a estrada e embalar novas pressas? Importa? Sou sono dum tempo distante e me assentei no cimo da nascente! Décio Bettencourt Mateus. in Xé Candongueiro! Luanda, 09 de Maio de 2007. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2011/03/cravos-da-verdade.html E TAMBÉM OS PEQUENOS? - 17Nov2010 11:28:00
E também os pequenos
virgens d?anos e inocentes d?inocências nas costas uma zunga d?andanças e vivências a deambular caminhos d?esperanças! Também a garotada a cavalgar avenidas e cacos da vida ruelas, uma zunga de vida fatigada nas costas da mãe zungueira a calcorrear vida vendedora! E aspiram sol da dureza a miudagem a brotar indigente caminhada ambulante Sol d?asperezas: o meu futuro são árvores abandonadas nos cantos da esquina da vida! E fogem pendurados nos panos em pernas zungueiras lascas de zunga a dialogar distância longa: o meu futuro são gotas de poeiras e lixo na inocência d?anos! O meu futuro uma hipoteca de fome faminta a deambular praças barulhentas e gente esfomeada de ruas alagadas o meu futuro, uma dor de fome seca! Décio Bettencourt Mateus. in "Xé Candongueiro" Luanda, 10 de dezembro de 2007. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2010/11/e-tambem-os-pequenos.html FALAM INCOMPLETAS... - 22Set2010 12:21:00
Falam incompletas
Tuas palavras incompletas de voz A disparar veloz A melodia do telemóvel: ??Yá, mas não vai ser possível?, Tua voz de certezas incertas! Cantam incompletas e evasivas Tuas gingas altivas Nas estradas do meu mar Falas mansas de luar Melodia na voz do telemóvel: ?Talvez p?ra semana?. Doce nega afável! Ondulam rios de brincadeira Nas tuas margens A desenharem-me nuvens Depois teu andar chocalho Um sorriso um brilho Um doce ocultar desejo-ira! Dizem-me esquivas tuas manias Dias e depois dias de jejum e dias A doerem-me as noites Açoites no vazio Do teu silêncio Açoites em minhas incertezas inertes! Cantam pássaros quando passas de esguelha E teu sorriso num cora-brilha e brilha Tua voz sussurro distante Murmúrio ofegante Coisas d?ondas do mar Coisas de desejos no meu peito a latejar! Décio Bettencourt Mateus in Xé Candongueiro! Luanda, 31 de Março de 2008. Fonte: http://mulembeira.blogspot.com/2010/09/falam-incompletas.html Faça o seu registo
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