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Poesia Angolana

CRÓNICAS - ANGOLA É O POVO! - 12Mai2017 13:36:00
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Visite este site angolano, onde Alexandra Simeao fala sem papas na língua:


http://www.alexandrasimeao.com/HOME/index.php/angola-meu-amor?start=6

EM ANGOLA, AS ÚNICAS PESSOAS DECENTES SÃO AS QUE DEFENDEM O MPLA.


Em Angola, as únicas pessoas decentes são as que defendem o MPLA. 
De acordo com os defensores de serviço:
- As Zungueiras sujam a cidade e dão má imagem junto dos turistas.
- Os Taxistas, são os mal formados e são todos da Unita.
- Os Jovens que pensam, são delinquentes e frustrados e os
que vendem na rua são uma cambada de ladrões.
- Os Estudantes são mal agradecidos, por não reconhecerem
que o desemprego é normal após a graduação.
- As Crianças que pedem um jardim, são produto do capitalismo selvagem.
- As Mães que defendem a vida dos filhos, são perturbadoras da ordem pública.
- Os Pais que querem um salário melhor, são inimigos da paz.
- As Avós que não concordam, são aliadas dos colonialistas.
- Os Angolanos que vivem na diáspora, quando fazem
um comentário contra, são ressabiados.
- Os Eleitores que pedem o respeito pela constituição,
são os que querem as "primaveras".
Nestas condições, afinal, quem é que votou no MPLA?

Alexandra Simeao


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2017/05/cronicas-angola-e-o-povo.html

(java)



MARIA JAVA

Mal os primeiros raios de Sol despontavam no caminho do Leste, Maria Java já se estava banhando nas águas tranquilas do meu corpo. Não era um banho comum, parecia era um ritual, um estranho cerimonial. Depois, Maria dirigia-se para a Vila e por lá deslizava como se fosse um rio atormentando os homens com a sua beleza provocante. Maria Java não fazia nada para provocá-los, era simplesmente o seu modo de andar, a sua beleza que embriagava os homens de desejos. Ao fim da tarde, quando o Sol ia dormir roxo de cansaço, ela regressava ao ninho para voltar, na manhã seguinte, a cumprir o mesmo ritual.
Com a chegada das primeiras chuvas, Maria deu à luz um menino. Na primeira visita à Vila, as mulheres não aguetaram a curiosidade e vieram, sem cerimónias, espiar a criancinha que, nua, dormia envolta em folhas de bananeira. Houve logo ali mesmo alguém que traçou as parecenças da criança com o Xico Camionista. A novidade correu como brisa no tempo das chuvas. Só a mulher do Xico, claro, não gostou. Fez cara feia, muxoxou e foi tirar a prova visual do ADN da criança. Quando viu o menino, os resultados da análise saltaram com todos os cromossomas e também ela viu as trombas do mulato Xico Camionista, seu marido, na face angelical do menino. Revirou os olhos, muxoxou ainda mais, pôs as mãos na bunda e foi tartar do assunto com o Xico. Consta que o Xico, mulato franzino, negou conhecer a Maria Java mas isso de nada lhe valeu porque apareceu no Bar Esplanada com um olho negro, dizem, de um sopapo que lhe deu a mulher.
Depois do nascimento do filho Maria Java passou literalmente, para as mulheres da Vila, a ser uma pária, uma espécie de enjeitada da sociedade. Ignorada pelas mulheres mas desejada pelos homens enquanto deslizava pelas ruas da Vila, filho nos braços e os seios fartos de leite. O tempo, mangonheiramente foi passando e  Maria Java deixou de ser o tema de conversa das mulheres. (...)

Namibiano Ferreira (final na próxima postagem)


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2017/05/conto-de-namibiano-em-passaros-de-asas.html


Os sucessos da história da literatura angolana



MARIA JAVA 

 Ninguém sabia de onde ela veio, quem era ou o que pretendia. Se é que pretendia alguma coisa. A meio da estação seca apareceu na Vila, grávida e semi-nua, com um par de seios a parecerem dois maboques provocantes. Era uma mulher bela, elegante e enigmática. Não andava, deslizava pela Vila sem nunca falar ou estabelecer qualquer forma de contacto. Também não pedia e mantinha uma certa altivez. As mulheres da Vila inventaram estórias sobre ela, conversas, bisbilhotices e mujimbos. Kuribotices, enfim, que só as mulheres sabem criar sobre outras mulheres. Por qualquer estranha razão as mulheres da Vila não gostavam desta ave de arribação vinda sabe Deus de onde. Só D. Dominguinhas, sekula de muitos cacimbos e chuvas, fez saber que sabia alguma coisa sobre esta solitária e estranha mulher. O respeito e a credibilidade da velha sekula, parteira nas horas vagas e lavadeira de profissão desde os tempos coloniais, trouxe as orelhas das mulheres até à boca de D. Dominguinhas que beijando seus dedos em cruz falou: ? Juro, por Nzambi! Estava lá na margem do rio sozinha mesmo a lavar umas roupas quando ela apareceu do lado donde o Sol dorme. Chegou assim mesmo do nada, a última vez que olhei naquela direcção, eu vi poisar uma ondjava, depois mesmo ela apareceu, de tanga e mamas a apontar o céu. Agora, vocês num me perguntem mais nada mas o andar dessa moça me faz lembrar uma ondjava.? E deu uma gargalhada sonora e cantante daquelas que só uma mulher kwanhama sabe dar. E foi assim, D. Dominguinhas virou madrinha de Maria Ondjava, mais tarde ficou só Maria Java. Maria Java não se misturava com o povo da Vila, limitava-se a passear, a deslizar pelas ruas. Vivia junto da minha margem, fora da localidade, numa cubata que mais parecia um amontoado de folhas e galhos velhos e secos. As gentes da Vila, isto é, o mulherio, chamavam, com desdém, o ninho da Java e realmente parecia um ninho. (...)

Namibiano Ferreira


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2017/05/conto-em-passaros-de-asas-abertas.html

PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS - 09Mai2017 12:48:00

?A língua portuguesa é um pássaro de asas abertas?


Em edição organizada por Margarida Gil dos Reis e António Quino, esta seleção reúne trinta e seis dos autores mais expressivos da literatura angolana, apresentando histórias do nosso tempo, histórias que se centram nas relações humanas e familiares, que desnudam conflitos sociais e mergulham no interior do ser humano, mas sobretudo recriando estórias a partir da tradição africana, dando especial relevo ao que se convencionou chamar de oratura, como fonte inesgotável de inspiração. Marcadas por uma grande diversidade temática e estilística, a maior parte destes contos baseia-se em conhecidas lendas e outras narrativas fantásticas, onde o sobrenatural convive naturalmente com muita imaginação e invenção, próprias de um povo que se refugiou em narrativas mirabolantes aproximando o maravilhoso e o insólito, como forma de dar uma tessitura peculiar à sua mensagem, de uma maneira muito próxima do realismo fantástico que caracterizou durante as últimas décadas a literatura latino-americana. Dando especial relevo à feitiçaria e bruxaria, de uma forma que pode levar a algumas confusões, pois brincar com coisas sérias pode levar a resultados perigosos, sobretudo quando o público-alvo é pouco informado, uma grande parte dos autores vai na onda do bonito e aparentemente poético, aproveitando uma moda que em breve ficará ultrapassada pelo seu abuso, esquecendo talvez a primeira e fundamental missão do intelectual, que é ser autêntico e realista, havendo que ter muito cuidado com a forma como a linguagem alegórica é apresentada. Uma das personagens recorrentes, por ser transversal em várias etnias angolanas é a Kianda, singular de Ianda, sereia em Kimbundu, conhecida também como Deusa das Águas, uma personagem muito amada e tradicionalmente venerada através de oferendas. Pepetela, um dos expoentes máximos da literatura em Angola, tem inclusive um livro intitulado O Silêncio da Kianda. Cada meio aquático tem uma sereia, isto é, cada rio, cada lagoa, cada charco tem a sua Kianda que toma o nome do rio, lago ou cacimba. De certa forma, ela é a encarnação do próprio meio aquático. Literariamente, esta utilização da oralidade através de uma estilística cuja escrita incorpora os fenómenos socioculturais, sendo um produto válido e pertinente para conhecer efetivamente um contexto político e sociocultural de uma terra, é, de vários modos, plausível e aconselhável, mas há que perspetivar que a literatura deve ser sempre ampliada e combinada com a vida, tornando cada narrativa um observatório privilegiado de leituras de cenários históricos e socioculturais de um povo, tornando assim cada obra viçosa e profunda. Além da mãe,
A memória do conto popular africano e as heranças da oralidade nos mecanismos de manutenção, preservação e transmissão do conhecimento, dos costumes, das questões éticas e estéticas coletivas; a tradição cultural dinâmica e o importante papel da memória como repositório e veículo da cultura, na sua função de comunicação e continuidade na sociedade angolana perpassam acentuadamente na antologia de contos angolanos, Pássaros de Asas Abertas, editada recentemente em Lisboa. Marcadas por uma grande diversidade temática e estilística, a maior parte destes contos baseia-se em conhecidas lendas e outras narrativas fantásticas


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2017/05/passaros-de-asas-abertas.html

 


Apetece-me escrever um poema.

Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser entendido
pela canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do sol
e pelo carácter integro dos homens.

Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de inversos chuvosos e frios
e seja lume para acolher as gazelas
que pastam inserguras
nos acolhedores campos da imensa vida;
amizade para corações odientos
motor impelindo o impossivel
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.

Um poema
(ah! quem comparou a Africa a uma interrogação
cujo ponto é Madagáscar?)

Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha recta de afirmação;
e a beleza das florestas virgens
a precisão da engrenagem da existência,
o som fantástico do trovejar sobre pedras,
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire,
a obnubilação ansiosa das almas da penumbra,
o claro arrebol dos olhos dos homens.

Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços erguidos da podridão;
esculpido no amor

que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas do quissanje ao luar;
e as gargalhadas infantis para a minha amada;
com o calor simpático
do corpo sangrento dos homens.

Um poema fechado
- longo e imperceptível
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
da outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear de máquinas de escrever,
grito aflitivo no vácuo
e a aspiração dos homens.

Mas não escreverei o poema

Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
o caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilométricos intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?

Não escreverei o poema.

Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.
Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referias à Primavera.
Sonharei contigo.

E com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado,
ao Sol, - uma praia furiosa lá ao longe.
E ficará dentro de mim
A amargura de não escrever o poema
Ele há tantas amarguras!

Não escreverei o poema.

Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
como a força da harmonia dos braços
como a esperança no coração dos homens.
Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e do terror transmitido dos abismos.

Direi simplesmente sim!
Sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores
ao odor inesquecível da natureza
que apaga os possíveis cheiros amargos.

Sim!
á interrogação mágica de Talamungongo
do Cunene ou do Maiombe;
ao sonoro cântico de ritmos subterrâneos
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando paz para o fio da ancestralidade
esbatido além;
ao ponto interrogativo de Madagáscar.

Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas,
às expansões magnificas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade
com a filosofia do imbondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.

Sim!
à África-terra, à África-humana.

Direi sim
em qualquer poema.

E esperemos que a chuva pare
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem
e o desejo de escrever um poema.
Isso passa.

Agostinho Neto


In ?CULTURA?, Sociedade Cultural de Angola, no 8. Luanda ? 1959 


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/sim-em-qualquer-poema-dia-mundial-da.html

BÚSSOLA - 15Mar2015 07:51:00
  Almada Negreiros


Para a Dinah:




Oriento-me no oriente
de teu corpo
esperando o sol
erguer-se fagueiro
no sorriso luminoso
candura de teu ventre
chana quente
aberta ao desejo
iluminado no muxito
de meus olhos
ondulantes.
 


Namibiano Ferreira


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/bussula.html

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR - 13Mar2015 08:35:00
 Artigo de opinião de  Gociante Patissa, publicado no ?Semanário Angolense? e no jornal ?Público?





Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo e vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.

Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul: «A língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais».

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como, por exemplo, «é maka grossa me apanhar a pata». Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do «K» pelo «C», mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes «K, W, Y», tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa

Escritor e linguísta em Ciências da Educação. Texto originalmente publicado no jornal Semanário Angolense (Angola) a 28 de Junho de 2014 





Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/o-portugues-tem-de-dialogar.html

TEMPO - 11Mar2015 15:19:00

Perda a perda se constrói
a mágoa
como pedra a pedra se constrói
a nossa  casa
e o rio rola com águas
macias e pacientes
as pedras que hão-de ser seixos.



Namibiano Ferreira


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/tempo.html




O jornal britânico Financial Times apelidou este sábado que Angola é uma ?cleptocracia? dominada por uma elite que ignora os problemas da população e que é aceite ?como parte integrante do sistema ocidental?.
O artigo intitulado ?Why the west loves a kleptocrat? (Por que o Ocidente adora um cleptocrata) analisa o livro Magnificent and Beggar Land: Angola Since the Civil War (Terra magnífica e pedinte: Angola Desde a Guerra Civil), do investigador Ricardo Soares de Oliveira, professor de Política Comparada na Universidade de Oxford.
O texto começa por argumentar que ?mesmo para os padrões dos Estados petrolíferos, Angola é quase ridiculamente injusta?, afirmando que ?os oligarcas deixam gorjetas de EUR 500 (USD 542) nos restaurantes da moda em Lisboa, enquanto cerca de uma em cada seis crianças angolanas morre antes de chegar aos cinco anos?.
?No entanto, esta cleptocracia com poucos estudos é aceite como parte integrante do sistema ocidental. Os expatriados fazem a economia angolana mexer. Os oligarcas angolanos habitam no luxo das escolas públicas britânicas, dos gestores de activos suíços, das lojas Hermès, etc?, lê-se.
soares-angola-final-webA publicação tem como base os dados apresentados por Ricardo Soares de Oliveira no seu segundo livro, que analisa o estado país desde 2002, com o fim da guerra, onde ?algumas famílias de raça mista? passam a dominar o sector político e social. Os dirigentes pertencem ?em grande parte a umas quantas famílias de raça mista da capital, Luanda, que considera os cerca de 21 milhões de angolanos negros do mato ou dos musseques pouco civilizados e tem pouco desejo de os educar?. O autor do livro garante que ?os angolanos continuam a ser dos menos educados e das pessoas menos saudáveis ??do mundo?. Facto que, segundo o livro, não incomoda o Governo.
?Os governantes contratam estrangeiros qualificados para praticamente todos os sectores principais da economia? e, ?mesmo quando há a ilusão de um papel de Angola, as tarefas reais são realizadas pela KPMG, Ernst & Young, McKinsey, Deloitte bem como por outros fornecedores internacionais mais pequenos?.
?Por trás de cada magnata angolano há uma equipa de gestão maioritariamente portuguesa?, que não se preocupa com as consequências da sua gestão, por isso os estrangeiros são responsáveis pelo petróleo, ?fazem luxuosos vestidos e constroem aeroportos sem sentido no meio do nada?, lê-se.
?Trabalhadores chineses constroem fábricas que, em seguida, não são utilizadas. Apenas dois sectores ocidentais estão mal representados em Angola: os meios de comunicação e as ONG. O regime não precisa deles?, continua o artigo.
Os governantes de Angola têm ?uma ideia generalizada de que cada interlocutor é impulsionado pelo lucro e, portanto, as soluções, e as pessoas, podem ser comprados?. Partindo desse princípio, esses dirigente acumulam o lucro ?nos bancos e gastam-no nos quadros, em cirurgias plásticas e em casas de praia, para além de acções de empresas, especialmente em Portugal?.
O texto do Financial Times conclui com uma referência à crise actual. ?A elite fez a festa durante o crescimento do petróleo. O provável impacto no regime do colapso nos preços é pouco, porque se só se está a alimentar uma pequena percentagem do povo, USD 50 dólares chega e sobra?.



Magnificent beggar land_image


Luanda ?has been partly re-Europeanized?, he writes. ?Behind every Angolan tycoon there is a mostly Portuguese management team.? The expats enable an elite that is killing Angolan children by neglect. No matter: the western professional?s ethos is to do a professional job and not worry about much else. And so foreigners pump Angolan oil, make expensive dresses and build pointless airports in the middle of nowhere. An ?Israeli defence outfit? guards a stretch of Angola?s border. Chinese workers build factories that then sit unused. Only two western sectors are barely present in Angola: the media and NGOs. The regime doesn?t need them.
The regime likes to remind expats that they are in Angola to make money and shut up. Hence the almost monthly ritual in which ?glum-looking foreign workers? are deported live on TV, while the commentators debate ?immigration and its impact on Angolan jobs and ?national culture?? just like European pundits.
Almost all western governments happily shut up. They used at least to pretend to have a ?democratisation agenda?: just give General X a few more years and you?ll really start seeing reforms etc. But in the past decade the west has virtually abandoned even democratic talk. This is the consequence of the Iraq war, China?s rise as a new friend to tyrants and the global economic crisis that has made us desperate for any deal, no matter how dirty. China doesn?t nag friends about human rights ? and nor do we. In 2013, the UK declared Angola a ?High Level Prosperity Partner?.
Angola?s rulers, says the book, have ?a pervasive assumption that every interlocutor is driven by the profit motive and, therefore, that solutions, and people, can be bought?. This assumption is almost always correct. Foreigners merely chuckle in private about garish Angolan excess.
Angola?s elite ?has spent the last decade converging with the material life and cultural signifiers of the global jet-setting class?, writes Soares de Oliveira. The happy few jet around western capitals, unhindered even by talk of travel bans or freezes on their bank accounts. We accept that Angola?s money is their personal property. Anyway, they stash it in our banks and spend it on our paintings, plastic surgery and holiday villas, plus stakes in our companies (especially in Portugal).


Retirado do Jornal britânico ?Financial Times? de 6 de março de 2015

Na íntegra aqui: http://www.ft.com/cms/s/0/e8fe02d4-c2b1-11e4-a59c-00144feab7de.html#axzz3TyBuio6nse conseguir aceder a esta página fora do Reino Unido.


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/a-reaccao-ao-livro-ascensao-de-angola.html

O CERCADO - 10Mar2015 08:58:00
Dedico esta postagem ao Fernando Ribeiro, um poema de Ana Paula Tavares, uma poética que ele muito aprecia.





De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado



Ana Paula Tavares  


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/o-cercado.html

cronica_reginaldo_O racismo de Deolinda RodriguesREGINALDO SILVA

O ?racismo? de Deolinda Rodrigues

?04.03.2015 ? 00h00 ? atualizado às 08h27

Se me fosse possível fazer alguma futurologia regressando ao passado para me colocar na primeira metade dos anos 60, não teria muitas dúvidas em admitir que Deolinda Rodrigues depois de Viriato da Cruz e Matias Miguéis, seria a primeira dissidente do MPLA a assumir a sua ruptura com a direcção de Agostinho Neto.
Esta convicção que não é de hoje nem de ontem, nasceu-me da leitura parcial do seu diário e outros documentos que o irmão Roberto de Almeida decidiu publicar em dois volumes entre 2003 e 2004 embora os originais já estivessem em sua posse há cerca de 30 anos.
Estamos a falar de ?Deolinda Rodrigues- Diário de Um Exílio Sem Regresso? e ?Deolinda Rodrigues- Cartas de Langidila e outros documentos?.
A ter em conta o seu explosivo conteúdo, o novel editor teve de facto necessidade de pensar muito e de repensar ainda mais, mas felizmente para a própria história que certamente já lhe agradeceu o gesto.
A decisão foi a melhor, evitando-se mais uma ?queima de arquivos?. Chegou assim ao público um testemunho autêntico porque escrito na intimidade de quem se confessa para o papel, sem ter necessidade de prestar contas a ninguém, nem de ter conta os condicionamentos habituais de quem fala para uma plateia, seja ela qual for.
Uma edição feita sem mexer em nenhuma vírgula, como se costuma dizer, isto é, sem qualquer censura, o que em principio não seria possível durante o monopartidarismo, tempo em que Roberto de Almeida foi o mais atento e vigilante responsável editorial do regime, nas suas vestes de Secretário do MPLA-PT para a Esfera Ideológica.
O próprio editor reconheceu a ?gravidade? da sua decisão ao escrever no prefácio que ?talvez não agradem ao leitor as referências e observações feitas a respeito de alguns personagens, mas Deolinda era assim mesmo ? doce e compreensiva mas também cáustica e dura, quando necessário, no contexto da época?.
Este ano decidi revisitar estes dois livros, aproveitando a passagem de mais uma um ?Dia da OMA?, que é o 2 de Março, em homenagem à data em que Deolinda Rodrigues e suas 4 companheiras de infortúnio (Engrácia dos Santos, Irene Cohen, Lucrécia Paim e Teresa Afonso)foram presas em 1967 pela FNLA, tendo sido posteriormente assassinadas em condições que nunca foram completamente esclarecidas quanto suas reais motivações.
Na altura os dois movimentos nacionalistas combatiam o colonialismo português, mas também se digladiavam ferozmente entre eles próprios a anunciarem o que seria o sangrento pós-independência e que se veio a confirmar plenamente.
Nesta futurologia que perdeu o comboio do passado, atrevo-me pois a sustentar que Deolinda Rodrigues tinha todo o potencial para ter a já referida evolução, em direcção a um choque aberto com então direcção do MPLA.
De todos os documentos que tenho tido acesso relativamente a este tempo passado, nenhum como estes manuscritos de Deolinda Rodrigues, são tão frontais na crítica interna ao funcionamento do MPLA e muito particularmente ao posicionamento de alguns dos seus principais dirigentes da época e muito especialmente no que toca ao tratamento da chamada questão racial que sempre dividiu os ?camaradas?.
É de facto um retrato fiel daqueles anos difíceis de exílio por ente os dois Congos, onde as contradições que viriam a desabrochar em toda a sua plenitude pouco mais de dez anos depois, já estavam a marcar o quotidiano do movimento e de que maneira.
?Eu estava decidida a participar na reunião de terça-feira, mas agora pergunto-me para quê, se tudo o que se diz é racismo? Eles estão sempre na defensiva e agarram-se sempre à clareza da pele, única garantia deles sob o regime português?- Era assim que em Março de 65 Deolinda se referia ao debate racial no seio do MPLA.
?O fulcro da questão é o desnível económico existente, que traz toda a revolta e humilhação. Não que devamos obter já uma vida completa cá fora nesta fase. Não. Mas que aqueles que se dizem também nacionalistas e estão cá connosco, compreendam também isso e não se limitem a uma tentativa de sacrifício bem relativo. Este é o meu racismo?.
Mais do que isso:
?Eu juro a todos os mulatos e portugueses metidos directa ou indirectamente no MPLA que, tudo o que não contribuir para o bem estar das massas angolanas mais exploradas, será combatido por mim com uma força cada vez maior.?
Ainda mais claro nesta abordagem está a sua crítica à liderança dos dois principais movimentos nacionalistas:
?A base tem que ser preparada agora para atingir o cume, esta é uma tarefa urgente.
E é aqui que o meu ânimo desmaia: Angola não tem ainda actualmente o dirigente necessário. O Holden é um escroc cem por cento, para dizer o menos possível dele. O Neto é muito influenciado pelas teorias ?avançadas, compreensivas e não sei mais o quê?. Não é política e moralmente virgem. Isto é o que eu penso. Posso estar errada.?
É aqui nesta parte que a minha futurologia iria começar.


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/cronica-de-reginaldo-silva-na-rede.html


Livro de Ricardo Soares Oliveira, professor em Oxford, foi lançado ontem numa conferência-debate na Universidade de Londres.

**


Baseado em três anos de investigação e de experiência em primeira-mão, é lançado amanhã na Universidade de Londres o livro Magnificent and Beggar Land: Angola Since the Civil War, de Ricardo Soares de Oliveira, da Universidade de Oxford, numa conferência-debate que contará com a presença, além do autor, de Christopher Cramer, Lara Pawson e Gika Tetembwa.

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Professor de Políticas Comparadas, Ricardo Soares de Oliveira estudou a fundo evolução de Angola desde o fim da Guerra Civil em 2002 até agora e, tal como explica o subtítulo do seu livro, traça um retrato do país que se ergueu das feridas de um conflito de quatro décadas, primeiro de luta de libertação e depois de guerra civil, para se transformar naquilo que é hoje, potência regional e económica.
Assente numa aliança estratégica com a China e com o apoio de centenas de expatriados, financiado pelo dinheiro do petróleo, sobretudo, e dos diamantes, explica o autor, o governo angolano estabeleceu uma ambiciosa estratégia de reconstrução nacional que resultou num crescimento económico de dois dígitos anuais e a transformação do país na terceira maior economia da África subsariana.
Magnificent beggar land_imageProfessor em Oxford desde 2007, Ricardo Soares de Oliveira foi investigador no Sidney Sussex College da Universidade de Cambridge e membro do Centre of International Studies da mesma universidade, também trabalhou na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, e é professor visitante no Centre d?Études et Recherches Internationales de Paris, conhecido como Sciences-Po, e no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington.
Trabalhou nas áreas de governança e energia do Banco Mundial, Comissão Europeia, no National Democratic Institute for International Affairs e no Ministério da Defesa francês, tendo escrito, em 2007, o livro Oil and Politics in the Gulf of Guinea, tendo sido ainda co-editor de China Returns to Africa: A Rising Power and a Continent Embrace, em 2008, e The New Protectorates: International Tutelage and the Making of Liberal States, em 2011.




Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/ascensao-de-angola-da-guerra-potencia.html

DOIS POEMAS DE AMÉLIA DALOMBA - 04Mar2015 07:57:00


Mãos

Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima
São lágrimas ao altar do desespero


Herança de morte

Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito
Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança



Amélia Dalomba


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/dois-poemas-de-amelia-dalomba.html

AS MURALHAS DA NOITE - 02Mar2015 06:26:00
 


A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.

Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.


João Maimona


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/as-muralhas-da-noite.html

CONTOS TRADICIONAIS DA C.P.L.P. - 02Mar2015 06:17:00



Livro dos Contos Tradicionais da CPLP-Comunidade de Países de Língua Portuguesa

 O áudio-livro ?Contos Tradicionais da CPLP? reúne contos oriundos dos Estados-membros da CPLP, acompanhados por narrações de vozes ilustres e ilustrações animadas da autoria de grandes artistas plásticos dos países da CPLP.

Equipa de coordenação:

Celina Pereira ? Cantora e contadora de estórias ? (Cabo-Verde)
José Afonso ? Produtor musical ? (Cabo-Verde)
Sidney Cerqueira ? Artista plástico ? (Guiné-Bissau)



Descarregue o 'Livro dos Contos Tradicionais da CPLP'




Postagem retirada do blog:  



Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/03/contos-tradicionais-da-cplp.html

MARIA GRAZIELA - 27Fev2015 02:29:00
Publicado no Cultura nr. 76. 
Luanda, 16 de Fevereiro de 2015.



Maria Graziela

(Imagem Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras)


Poema que se encontra há muito na Alma para ser escrito mas como outros, aguardam um determinado momento especial para nascer... Onde tu estiveres Maria, minha irmã, que alguém te possa levar estas notícias... um beijo!

MARIA GRAZIELA

Para a minha irmã de criação que não sei viva ou morta.

Lembro o crespo sentir
da tua carapinha dura,
os teus olhos doces de gazela
o teu nome Maria Graziela,
os lábios pequenos, pétalas
suaves de uma flor inominável
e a tua pele, ébano-cetim
onde o sol deixava indelével
beijos cegos de luminosas esferas
sobre o relevo macio do teu rosto.

Maria, tu foste tu és tu serás
a minha irmã, a mana mais velha
a irmã que nunca tive tenho terei...

Foi logo no burburinho inicial
dos ferros e das armas de fogo
quando nos perdemos um do outro.
Disseram-me tinhas ido no Huambo
seguindo a militância dos dias
eu fiquei no Namibe... esperando
vi os karkamanos chegar e partir
porém, só tu nunca vieste...
se por acaso fores viva, ainda,
que o sol te beije por mim
todos os dias a todas as horas;
se já viveste teu komba, então
que os anjos celestes te beijem
e ponham por mim pequeninas
esferas de luz divina em teu rosto.

Tu és a mana mais velha...
a irmã que eu queria voltar a ter.


Namibiano Ferreira
23/03/2010


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/maria-graziela.html




Como Se o Mundo Não Tivesse Leste

(As Águas do Capembáua)

Em Abril chouveu bastante, últimas chuvas da estação. Os três primeiros meses de permanência de R na fazenda foram afanosamente preenchidos com a implantação de uma vedação de arame à volta da fazenda. R. acordava a meio da noite ainda, na barraca de zinco, ouvindo o Calembera às voltas com o fogo, para fazer café. Lavava a cara na bacia de esmalte, cá fora, aquecia as mãos no telheiro da cozinha, bebia a zurrapa e arrancava no jipe. Trezentos metros à frente, no acampamento, recolhia os tractoristas e ganhava a savana, antes do sol nascer, o carro descapotável e o vento a cortar a face.

Meses frios, Junho e Julho. As nuvens baixas, sempre, de cacimbo, e a humidade, à tarde, ventosa e agreste, do lado do mar.

Cento e trinta quilómetros de periferia. À frente um tractor, a abrir a picada. O pessoal, atrás, a fazer buracos, a implantar os postes, a estender o arame. O cheiro da terra, arranhada pelo bulldozer, e o imprevisto diário de sucessivos horizontes, extensos e novos.


Ruy Duarte de Carvalho, Como Se o Mundo Não Tivesse Leste


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/como-se-o-mundo-nao-tivesse-leste.html

Maria Alexandre Dáskalos nasceu no Huambo em 1957. Fez os estudos primários e secundários nos Colégios Ateniense e São João de Cluny. Frequentou o ensino superior na ex-faculdade de Letras, no Lubango, vindo, posteriormente, a terminar a sua formação em História Contemporânea em Portugal. É considerada pelos críticos com uma ?impressiva voz feminina na literatura angolana?. Actualmente, é jornalista na RDP África. Constam da sua obra os trabalhos poéticos Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003 

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Os anjos choram.

Uma cidade caiu
e os homens perderam-se nos trilhos
das casas agora desabadas.
As mulheres de joelhos em cima do
nada

já não sabem rezar.

Os anjos choram
e o bálsamo de todas as
feridas
não chega até nós.


*

E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz ? esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.




Maria Alexandre Dáskalos


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/dois-poemas-de-maria-daskalos.html


Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris

teus olhos
são abismos imensos

onde na escuridão
todo um passado se esconde

teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma

oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde

teus olhos
não são estrelas
não são colibris


       Arlindo Barbeitos  (Angola Angolê Angolema) 


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no tempo
em que as pacaças entravam
                   pelos povoados
o vôo alvoraçado das perdizes
carregava sonhos
que
a mãozinha inerme de criança
feliz
agarrava ao lusco-fusco dos muxitos
no tempo
em que as pacaças entravam
                   pelos povoados

                  Arlindo Barbeitos (Na leveza do luar crescente)


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/dois-poemas-de-arlindo-barbeitos.html







O inferno e a morte na palma da mão
ou a mirabolante estória de Pedro Francisco,
sobrevivente de todas as batalhas na cidade do Huambo,
contada por ele próprio em tempos de paz

Caçar ratos e lagartixas com a tchifuta, quem acredita?
Eu procurava crateras. Bomba que cai não acerta no buraco onde já explodiu outra bomba. Isso a gente aprende, se sobreviveu e fica de atenção com a vida.
Morrer ? quem quer morrer, ou ser só baicado à toa?!
Então, eu corria logo-logo para lá, onde tinha acabado de explodir um obus. Às veces, um míssil atrás do outro ? horas e mortes seguidas.
Choviam tempestades diluvianas de bombas. Tanques de guerra chagavam e entravam pelos escombros da cidade adentro, disparando sempre, uma gincana de posse e de espaço. Rajadas de metralhadora, tiros de canhão, morteiros, bazucas. O inferno e a morte na palma da mão.
O céu desaparecia do azul da manhã, eclipsava-se. E era a terra, em repuxo, a sair e a ser cuspida da Terra, pelas entranhas. Com suas pedras, suas árvores desde a raiz. Pedaços de ferro das carcaças das bombas e dos tanques fulminados. Tudo pelos ares, como se fosse a lava de um imenso vulcão. De centenas, de milhares de vulcões entrando em actividade ao mesmo tempo ? tempo irrespirável, e sem medida.
Sangue de gente ou de animal. Telhados de casas, paredes, restos de portas e janelas. Pedaços de corpos, vísceras, braços e pernas desmembrados ? tudo isso caía, depois, na cabeça da gente. Tudo isso caía em cima dos mortos ? e nenhum morto era um morto completo, reconhecível. Só pedaços desencontrados da sua própria alma.
Estar na guerra e fugir da guerra é estar e ser sozinho. Ninguém pode carregar família atrás. Ninguém pode juntar e fugir com a família.
Para onde? A que horas?
A familia, na guerra, acabou. Família, na guerra, é só a tua sorte. A sorte de cada um, sozinho, fugindo para lado nenhum. Ou deixando-se ficar em lugar que não existe.
Eu escavava a medida do meu corpo deitado. A terra era quente, estrondada pela morte. Os bolsos rotos da roupa esfarrapada cheios de pedras para a tchifuta. Uma vara para escavar a terra, fazer colchão no fundo das crateras como se fosse já a minha sepultura.
Eu queria ser enterrado, se morresse. Se me matassem. Isso, eu queria. Custava aceitar ser comido pela onça, ser comido pelo leão, pela hiena ou pleos mabecos, que agora vinham de noite à cidade comer os nossos mortos. Os nossos mortos, que as bombas e a guerra não deicavam sepultar.
As pessoas olhavam alucinadas para a carne desses mortos, e pergutavam:
-Você já comeu alguma vez carne humana?
E salivavam. Juro que sim. Cresica-nos água na boca.
Eu vi os cães comerem os seus antigos donos ? homens, mulheres e crianças, com quem antes brincaram e lhes deram de comer, alimentavam-nos agora com a carne do seu próprio corpo. Eu vi.
Alguém acredita?
Nesta guerra, só os cães engordaram. E a gente, quando já não pode mais e aparece um cão assim desprevenido, a gente mata. E come.
Devora-o!
Eu já assisti á morte de pessoas, sem nada poder fazer para as salvar, porque não tiveram forças sequer para acender a fogueira e esperar o tempo de cozer ou assar um pedaço de cão. E já vi gente comer carne de cão completamente crua, ratos, lagartixas, sem mais nada. Eu próprio já o fiz.
Sal para temperar um pouco a carne? Isso é um luxo que a gente não pode nem sonhar. Nem sal, nem muitas vezes água para beber, ou cozer um pouco de capim.
-A gente, agora ? eu falei uma vez para a minha falecida mulher -, come a carne dos nossos parentes e dos nossos amigos e familiares na carne dos cães que se tornaram o nosso único alimento.
Nem pássaros passam mais nestes céus, depois das bombas. Nem pássaros. Essa guerra também lhes roubou as árvores de poisar e fazer os ninhos. E não há nada para eles comerem, aqui ? nenhuma semente sobre a terra calvinada, nenhum fruto. Só abutre e milhafre, de quando em vez, sobre os cadáveres. Só essas aves, que nem pássaros são.
Gatos? É carne que a gente já não prova faz tempo. Muitos anos, para falar a mais pura verdade.
E até os ratos, aquelas ratazanas luzidias e contentes, saindo dos escombros e das crateras, que a gente fuzilava de tchifuta e nos davam um pouco de proteínas, tambiém esses se exilaram das nossa barrigas inchadas, desnutridas.
Carne de cobra, sapo ou lagartixa? Muito pouca, também. Quase nada. Como os grilos e os gafanhotos ? eles próprios: deslocados de guerra.
Um dia, deitado no meu colchão-sepultura, no fundo da cratera ainda fumegante das últimas bombas, vi uma jibóia em trânsito. Passou a dois ou três metros de mim, e eu, sem faca nem catana: só um pau, uma vara para escavar a terra.
E a tchifuta, sempre engatilhada para disparar.
Acreditei que tinha chegado a minha hora mais fodida.
Esqueci as bombas, as rajadas de metralhadora, os disparos dos canhões e dos tanques, tudo a disparar e a cair ao mesmo tempo, e me levantei de um pulo, apontando a tchifuta à cabeça da jibóia.
Reparei que ela estava com tanta fome quanto eu, boa para ser morta e devorada com a pele e tudo.
Ou ela, ou eu ? pensei.
Mas, porra, ser comido vivo por uma jibóia, ao fim de quase vinte anos a conseguir sobreviver na guerra, com toda a família morta ou deslocada, família perdida sei lá por onde?!
-Não dá, caralho! ? gritei a plenos pulmões contra todas as bombas e todo o pavor da morte. ? Vou-te matar, filha da puta! Eu não vou morrer engolido por uma jibóia, caralho? Não vou!!!
E atirei a pedra que tinha na tchifuta em direcção da cabeça dela, com o resto de todas as forças que ainda me restavam.
Até hoje, eu estou para saber se foi a pedra que lhe acertou, e a fez fugir, ou se foram os meus gritos e movimentos alucinados que a assustaram. O que eu sei é que ela se escapuliu de mim, e bazou, para se ir empanturrar de algum morto ali perto, onde foi encontrada a jibóiar, feliz da vida.
Alguém a matou à paulada na cabeça. Depois, foi estendida de costas no chão, aberta da cabeça à ponta da cauda para se lhe retirar da barriga o cadáver que ela jibíava, e finalmente devorada, com a pele devidamente estaladiça e tudo, num dos churrascos mais festivos desses tempos malditos.



Zetho Cunha Gonçalves 


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/o-inferno-e-morte-na-palma-da-mao.html

O PERFUME DAS CHUVAS - 04Fev2015 01:30:00

Para Midori, a minha neta!
Que faz hoje 4 anos.

Quase no final das chuvas e eu choro os desbarulhos da saudade das chuvas futuras que hão-de vir depois do comprido cacimbo.

Em África, as chuvas recriam a vida como se caissem no primeiro dia do Génesis.  A cada ano, quando tamborilam as primeiras chuvas, há uma musicalidade mística que habita a alma das gentes. As chuvas trazem um sentido virgem e puro como se o Mundo  acabasse de ser inventado.

Aqui, na Europa, as chuvas são simplesmente chuvas, água sem alma, caindo morta e sem um sentido profético de renovação. Não há aquele odor vivo, incaracterístico das chuvas a beijar o chão seco e quente no início de cada estação. A chuva não casa com a terra.

Em África, quando o sémen  dos Deuses chove sobre a terra,  liberta-se um perfume fresco e telúrico de fartura cozinhada que se come, que se bebe e se respira como se cada pessoa fosse moldada no barro húmido da terra.

Namibiano Ferreira



Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/o-perfume-das-chuvas.html




1975-2015





Luanda, madrugada de 4 de Fevereiro de 1961:

Um grupo de mulheres e homens, munidos de paus, catanas e outras armas brancas, atacaram a casa de reclusão e a cadeia de São Paulo para libertarem presos políticos, ameaçados de morte.
O regime colonial fascista reagiu brutalmente e respondeu com uma acção de repressão em todo o país, com assassinatos, torturas e detenções arbitárias. Autênticos actos de terrorismo de estado.
Essas prisões arbitrárias desencadeadas pela PIDE (polícia política portuguesa) contra os integrantes do "processo 50", os massacres da Baixa de Cassanje, Icolo e Bengo e detenção e assassinato de várias pessoas indefesas, levou alguns nacionalistas a organizarem-se para a luta de libertação.
Os preparativos da acção tiveram início em 1958, em Luanda, com a criação de dois grupos clandestinos, um abrangendo os subúrbios e outro a zona urbana, comandados por Paiva Domingos da Silva e Raúl Agostinho Deão.

O 4 de Fevereiro de 1961 pode ser ainda considerado como um marco importante da luta africana contra o colonialismo, numa tradição de resistência contra a ocupação que vinha desde os povos de Kassanje, do Ndongo e do Planalto Central.


Fonte: http://poesiangolana.blogspot.com/2015/02/dipanda-1975-2015-40-anos-o-4-de.html