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Júlio Saraiva

3 POEMAS SOBRE O MESMO TEMA - 25Mar2019 15:36:35
1.

eu fabricava sonhos
desde pequeno eu fabricava sonhos
cresci e continuei a fabricar sonhos
um dia - por não saber nadar - morri
afogado nos meus sonhos
desde então nunca fabriquei sonhos
tornei-me um pesadelo à deriva

2.

a noiva que habitava os meus sonhos
hoje é uma sombra condenada a mofar
na solidão de um porto estrangeiro

3.

teu beijo de areia
ficou arquivado
na memória do porto

____________
júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=205814

DESTA COISA - 25Mar2019 15:36:35
Para Antónia Ruivo, minha amiga. Poeta do Alentejo- consagro.

este meu hábito de beber vem de longe
talvez herança do meu avô português
que vi - eu tinha só doze anos - morrer
debaixo das rodas de um caminhão
diziam na infância que eu era menino calado
e tinha manias de morte
meu pai não dizia nada
era professor de matemática
minha mãe me levou ao psiquiatra
ele achou que eu não era louco como a família pensava
aí deu no gosto de eu ser poeta
e sempre achei na puta da minha vida que mulher é tudo
por isso me casei cinco vezes
por isso nunca tive juízo
porque meu pai não dizia nada
tentei me matar duas vezes
nenhuma vingou deu certo
mamãe morreu num janeiro achando que eu era louco
papai que já havia morrido nunca disse nada
mas eu nunca aprendi matemática

______________

júlio


e

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204834

tarde da noite o médico mandou me chamar
- ela só respira por aparelhos, ele disse
- desliga esta merda então - eu repliquei
- eu não posso. fere à ética - ele argumentou
eu disse que era apenas um cadáver que respirava. beijei o rosto sem vida de minha mãe. e desci ao bar.
meia hora depois, já em casa, minha mulher teve paciência pra me dizer:
- ela morreu. ligaram agora do hospital.
eu disse que morta ela já estava.
no velório, não permiti que abrissem o caixão. a cena de horror eu já havia visto na agonia. morto não deve ser visto em estado de morto. mamãe era vaidosa e linda.
quando o caixão baixou à sepultura, beijei a boca da minha mulher. acharam um gesto de horror e deboche. não bastasse que eu estava de chinelos com a calça jeans rasgada nos joelhos.
é que ninguém entendeu: a partir daquela hora minha mulher passava a ser também minha mãe.


_________________

júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204665

DOS POEMAS DE AMOR - 25Mar2019 15:36:35
para conceição bernardino, minha irmãzinha portuguesa


os poemas de amor são feitos de azia
os poemas de amor dão má digestão
os poemas de amor são feitos de nada

os poemas de amor não respeitam quem ama
os poemas de amor são eternos doentes
os poemas de amor contrariando à poesia
não dizem absolutamente nada
os poemas de amor pedem camisa-de-força
pior ainda quando inventam estrelas
em lugar de palavras que podiam ser úteis

os poemas de amor são chatos - cacetes
como retratos antigos de avós na memória
casamentos felizes filhos família
pranto missa velório
navalha nos pulsos relógios sem tempo
anjos de rilke se masturbando nas nuvens
adeus sem memória e sem gozo - os poemas de amor
___________

júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204550

AUTO-ESTIMA - 25Mar2019 15:36:35
"Minha filosofia traz o pensamento vitorioso com o qual toda outra maneira de pensar acabará por sucumbir."
- Nietzsche, O Eterno Retorno -

o poeta só fabrica o céu porque
conhece o inferno mais do que
a palma da própria mão

o poema é pomba mas pode
tornar-se bomba e explodir de
repente isso só depende da
maneira como a flor for tratada

transformar ouro em merda
é arte que exige engenho
assim como imaginar o arcanjo gabriel
trepando com a virgem maria no
momento da anunciação

felizmente não tenho ninguém a rezar por mim
esqueci meu credo em velhos confessionários
mas nem por isto sou pecador
:não comete pecado quem peca contra si mesmo

a poesia absolve o poeta da mesma
forma que o condena e mata para
torná-lo à vida no colo de uma mulher
puta ou santa pouco importa

o poeta dorme acordado para a morte
e quando pensar que escreveu o seu último
poema terá concluído apenas o rascunho
do que foi sua vida sem saber que
o poema em doses lentas de palavras
já o havia destruído no exato
dia em que pensou compor
o seu primeiro verso

se assim não falou zaratustra
não falou porque não quis mas
assim falei eu e está falado com
o enxofre das minhas palavras

____________
júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204517

uma pilha de poemas impressos
outra dos que foram perdidos
e mais outra dos que ficaram por escrever
uma prateleira com sonhos queimados
quarenta e cinco amores passados
um relógio sem ponteiros
um gato que não existe miando em silêncio
um pássaro empalhado com a asa esquerda partida
uma mala de couro pronta para a viagem sem volta

___________
júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204383

POEMA PORTUGUÊS - 25Mar2019 15:36:35
Ao Xavier Zarco, poeta e meu amigo

vejo-te num café qualquer de coimbra
a conversar com pascoaes e o'neill
mas só as águas do mondego
as paredes do mosteiro de santa clara
e inês de castro envolta em seu xaile
podem escutar o que conversam
eu cá tão longe tento apenas adivinhar
falam do amor e da morte
das viúvas e dos órfãos
falam também de um relógio imaginário
que ao tempo nunca obedeceu

penso que o mundo parou de girar de repente
e as notícias que os jornais tinham prontas
ficaram dois séculos mais velhas
a verdade pá é que estamos todos mortos
e distraídos não percebemos e continuamos aqui
à mercê do vinho e da poesia
objectos de palavras inúteis que mendigamos
como côdeas de pão amanhecido

à tua frente o'neill está a rir-se
como que a debochar do silêncio que cruza
o arco da almedina
à semelhança de uma pomba atordoada
que parece voar sem rumo
uma mulher que não fazia parte do poema surge
aproxima-se de pascoaes e o beija
"Com os lábios que a terra já desfez." (*)


(*)Verso do poema Idílio, de Teixeira Pascoaes

_________
júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204292

SACRAMENTO - 25Mar2019 15:36:35
atualizar os dias
sem temer a carne

recontar os ossos
dos que já se foram

espalhar as cinzas
pelos jardins das casas
que não existem mais

beber a água benta
das pias de batismo

saciar toda sede
das horas inquietas

ser sóbrio como o pássaro
que desistiu do voo

enfim dormir sereno
no colo de um navio
e não pensar na volta

comungar a morte
livre e sem remorso

___________
júlio


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=204162

SONETO DE CRISTIANE - 25Mar2019 15:36:35
teus olhos falam todas as luzes
e teus passos guiam os meus caminhos
afastas o peso das minhas cruzes
com o leve roçar dos teus carinhos

e assim se eu me perco tu me conduzes
não vou no rastro dos sempre-sozinhos
enfrento as balas de mil arcabuzes
se tenho teu beijo me esqueço dos vinhos

se no meu olhar havia neblina
vai-se num átimo toda a cegueira
o velho que sou se curva à menina

o mundo meu bem de vez que se dane
que sejas minha pela vida inteira
o resto se ajeita cris... cristiane

________________
júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=203941

O ATO SEM O FATO - 25Mar2019 15:36:35
não tenho tempo
nem meias medidas
assim - só - contemplo
minhas mortes
e mil e tantas vidas

tenho soluços
sou rasteiro - homem do povo
e filho da puta
sou um estorvo

mas amo-te tanto cristiane
que o resto enfim e em mim
que se foda e dane

__________

júlio

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=203724