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Carpinteiro Tinhela

- 13Jan2013 15:30:00
Texto de Valter Hugo Mãe

Os professores

Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tivemuma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade. A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito
... Ver mais de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe. Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara
muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os
professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do
que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um
condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto. As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar
vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é
um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2013/01/texto-de-valter-hugo-mae-os-professores.html

- 11Out2012 21:11:00
          O doutor Da Barca estaba a escribir unha carta de amor. Por iso tachaba moito. Pensou que para ese mester a linguaxe era dunha pobreza extrema e sentiu non ter a desvergoña dun poeta. El tiñaa cando se trataba dos outros presos. Parte de súa terapia consistía en animarlos a lembrar as querencias e a poñerem unhas letras no correo . E prestaba a súa man para escribir con bo humor algunhas daquelas 
cartas. Chámase Isolina , doutor, Isolina? Isolina...Olor verde limón y naranja mandarina. Que che parece?
         Vaille gustar doutor. Ela é moi natural.
         Pero cando se trataba del, sentía que, en efecto, todas as cartas de amor eram ridículas. Ás veces ficaba abraiado co que un enfermo podía dicir sin artificio. Doutor, póñalle que que non se preocupe por min . Que mentras ela viva, eu non morrerei nunca. Que cando me falta o aire, respiro pola súa boca.
        E aqueloutro: Poña aí que volverei. Que volverei para tapar todas as pingueiras do tellado.
        Tachou de novo o encabezamento. A de hoxe tña que ser unha carta especial. Escrebiu, por fin: Muller. Foi entón cando oíu petar na porta do cuarto. Era xa tarde para os costumes do sanatorio penal, pasadas as once da noite. Quizais se tratase dunha urxencia. Abrui, disposto a disimular a contrariedade. A madre Izarme. Noutras ocasíons bromearía por mor do seu hábito branco de mercedaria, ah, pensei que era usted unha frangulla ecloplasmada!, pero desta vez notou unha sensacíon de irrealidade que o perturbo pola parte do pudor. A monxa sorría cinha picardía de muller. De repente, sen outro saúdo, sacou debaixo da saia unha botella de coñac.
       Para vosted, doutor. Para a noite de vodas!
       E foise apurada polo corredor, coma quen foxe da alegre ousadía, deixando unha aura de ollos acesos.
       Azul gris verde. 


       Ollos algo esgazados, cun pregamento da pel en semilúa nas pálpebras.
       Como os de Mariza. 


       Deus no existía, pensou Da Barca, pero si a providencia.

Manuel Rivas
O lapis do carpinteiro
Edicións xerais de Galicia


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2012/10/o-doutor-da-barca-estaba-escribir-unha.html

- 14Mar2012 11:35:00
RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

ARY DOS SANTOS


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2012/03/retrato-de-catarina-eufemia-da-medonha.html

- 14Mar2012 11:29:00

SONETO ESCRITO NA MORTE DE TODOS
OS ANTIFASCISTAS ASSASSINADOS PELA PIDE

Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.


José Carlos Ary dos Santos


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2012/03/soneto-escrito-na-morte-de-todos-os.html

NATAL EM 3 DIMENSÕES - 16Dez2011 21:46:00
meu Natal de doce infância
de muitos longes daqui
onde o palmar tem fragrância
de aromas de abacaxi

onde o sol rei e senhor
nos fustiga impunemente
e nos tinge de outra cor?
escárnio de muita gente

meu outro Natal de pinho
bem diferente do primeiro
onde quem vive sozinho
esquenta a alma num braseiro

casas de pedra e de fumo
lareiras de sonhos vãos
outros cheiros que presumo
serem cheiros de outros chãos

meu este Natal de neve
tão diferente dos demais
onde o sonho (mesmo breve)
ainda sonha outros Natais!



OLINDA BEJA


Lausanne, Dezembro de 2011

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2011/12/natal-em-3-dimensoes.html

Cores de parto - 21Ago2011 09:16:00

O que eu vi,
À nascença, foi o céu.

No rasgão da retina,
A desatada luz: o meu segundo oceano.

Aprendi a ser cego
Antes de, em linha e em cor,
O mundo se revelar.

O que depois vi,
Ainda sem saber que via,
Foram as mãos.

Parteiros gestos
Me ensinaram quanto,
Das mãos,
A vida inteira vamos nascendo.

As mãos foram,
Assim, o meu segundo ventre.

Luz e mãos
Moldaram a impossível fronteira
Entre oceano e o ventre.

Luz e mãos
Me consolaram
Da incurável solidão de ter nascido.

Mia couto
In ?Tradutor de chuvas?


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2011/08/cores-de-parto.html

Aventuras - 09Mai2011 14:21:00



http://www.salondulivrealencon.fr/

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2011/05/aventuras.html

PIED-DE-NEZ - 12Mar2011 12:41:00

PIED-DE-NEZ

Lá anda a minha Dor as cambalhotas
No salão de vermelho atapetado ?
Meu cetim de ternura engordurado,
Rendas da minha ânsia todas rotas...

0 Erro sempre a rir-me em destrambelho ?
Falso mistério, mas que não se abrange...
De antigo armário que agoirento range,
Minha alma actual o esverdinhado espelho...

Chora em mim um palhaço às piruetas;
0 meu castelo em Espanha, ei-lo vendido ?
E, entretanto, foram de violetas,

Deram-me beijos sem os ter pedido...
Mas como sempre, ao fim ? bandeiras pretas,
Tômbolas falsas, carrossel partido...

Mário de Sá-Carneiro
Paris, Novembro de 1915


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2011/03/pied-de-nez.html

AL Berto - 07Out2010 13:36:00
"Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber. Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos. Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui. Pertencia a outra paixão, e já a esqueci. Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo,,,, ( AL Berto)"

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/10/al-berto.html

Poema de amor - 30Set2010 17:51:00
Poema de amor

Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-á verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.

Graça Pires

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/09/poema-de-amor.html

VIA-LÁCTEA - 25Set2010 22:31:00
VIA-LÁCTEA

I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada,
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a...Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa dourada,
Ressoante de súplicas, feria...Tu, mãe sagrada!

Vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando...

Olavo Bilac

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/09/via-lactea.html

O LAPIS DO CARPINTEIRO - 19Ago2010 14:21:00
...
Os máis deles eran anarquistas e gustaban dos boleros románticos, coa melancolía do lóstrego luminoso. Non había instrumentos pero tocaban co vento e coas mans. 0 trombón, o saxo, a trompeta. Cadaquén reconstruía no aire o seu instrumento. Percusión habíaa auténtica. Aquel a quen chamaban Barbarito era quen de facer jazz cun penico. Discutiran se chamarlle Orquestra Ritz ou Orquestra Palace, pero ao final impúxose o nome de Cinco Estrelas. Cantaba Pepe Sánchez. Detivérano, con outras ducias de fùxidos, nas adegas dun pesqueiro, a piques de sair rumbo a Francia. Sánchez tiña o don da voz e, cando cantaba no patio, os presos miraban cara á lina sobranceira da cidade, porque a cadea estaba nun devalo entre o faro e a urbe, como dicindo non sabedes o que perdedes. Nese momento, calquera deles pagaría por estar alí. Na garita, Herbal pousaba o fusil, debruzábase na almofada de pedra e pechaba os ollos como o bedel dun teatro da ópera.
Habia unha lenda en torno a Pepe Sánchez. Nas vésperas das eleccións de 1936, cando xa se albiscaba a victoria das esquerdas, prodigáronse en Galicia as chamadas Misións. Eran predicacións ao aire libre, dirixidas sobre todo ás mulleres campesiñas, onde os reaccinarios colleitaban máis votos. Os ser­móns eran apocalípticos. Agoirábanse terribles plagas. Homes e mulleres fornicarían coma bestas. Os revolucionarios separarían aos fillos das nais nada máis saíren do ventre para educalos no ateísmo. Levarían as vacas sen pagar un peso. E sacarian a Lenin ou a Bakunin de procesión na vez da Virxe Maria ou do Santo Cristo. No lugar de Celas convocouse unha destas misións e un grupo de anarquistas decidiu rebentala. Fíxose un sorteo e tocoulle a Pepe Sánchez. 0 plan era o seguinte: Debía ir en burro, co hábito de dominico, e irromper coma un posuído no medio da prédica. Ao Pepe unhas lle ían e outras lle viñan e o dia do suceso almorzou cun cuartillo de augardente. Cando se presentou na campa, montado no burro, e berrando «¡Viva Cristo Rey, abaixo Manuel Azana!» e cousas polo estilo, os frades predicadores aínda non apareceran, retrasados por non se sabe que. Así que a multitude tomouno por verdadeiro e foino conducindo, sen el querer, cara ao púlpito improvisado. E entón a Pepe Sànchez non lle quedou máis remedio que tomar a palabra. E dixo o que lle saíu de dentro. Que non había no mundo ninguén sufîcientemente bo como para mandar sobre outro sen o seu consentimento. Que a unión entre home e muller tiña que ser libre, sen máis anel nin argola que o amor e a responsabilidade. Que. Que. Que quen rouba a un ladrón ten cen anos de perdón e que parva é a ovella que se confesa co lobo. Era un tipo guapo. E o vendaval abaneándolle o habîto e as románticas guedellas dáballe un magnifîco aire de profeta. Despois duns primeiros murmurios, fixose o silencio e parte dos congregados, sobre todo as mozas, asentían e mirábano con devociôn. E daquela Pepe, xa desenfreado, coma se estivese no palco da festa, cantou aquel boléro que tanto lle gustaba.

En el tronco de un árbol una niña
grabó su nombre henchida de placer,
y el árbol conmovido allá en su seno
a la niña una flor dejó caer.

Foi un éxito aquela misión.
A Pepe Sánchez fusilárono un amencer chuvioso de outono do 38.

...

Manuel Rivas
Edicións Xerais de Galicia

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/08/o-lapis-do-carpinteiro.html

?OS VELLOS NON DEBEN NAMORARSE? - 17Ago2010 11:14:00
Em tempos de ?acordo ortográfico? que apenas deturpa a língua portuguesa, porque assim falavam os meus avós, e nunca devemos esquecer de onde viemos, aconselho a leitura desta farsa, escrita em galego, por Castelao de Rianxo:

?Miñas doñas e meus señores:
Axiña ides ver unha farsa en três lances, na que se demonstra que los vellos non deben de namorar-se; pero no pensedes que a miña obra é de tesis. Non é de tesis non. Trátase a penas dunha síntesis artística ou, mais ben, artimaña escenográfica onde xogan o amor e a morte de três vellos imprudentes: o boticário don Saturio, que non aturou a falcatruada de Lela e mátase con solimán da súa própria botica; o fidalgo don Ramón, que por un bico de Micaela morre deitado no esterco; o vinculeiro señor Fuco, que por casar con Pimpinela mórrese de felicidade. Son três faces diferentes dun mesmo drama, contado á maneira galega e para regalia dos que poidan comprender o noso linguaxe. Pero este coñecidícimo drama, que agora ides ver nunha farsa nova, é, así mesmo, un aviso de três estalos que lle damos aos vellos namoradeiros. Cómpre decir que as vellas non están no caso dos vellos, anque os amores serodios andan sempre emparellados coa morte, pois neste caso soio perden a vida os mozos que se dixan Chuchar por velas indecentes. Non, o drama é de homes que se namoran a destempo, porque non souperan aproveitarse do amor quando eran mozos ou porque pretenden burlarse da morte quando xa a levan ao lombo. Os homes deben buscar tesouros amorosos na mocedade, e gardalos ben gardadiños para quando chegue a Vellez, si é que arelan o respeto do mundo e non gostan de vérense retratados nesta casta de comédias. Ninguén se bulra dun vello e unha vella que siguen amándose tolamente. ¡ E que émoción dá ver a un vello vedreiro que chora por un amor que perdeu cando era mozo! Os vellos deben gardar amores antigos, porque axúdanlles a vivir; pero morren cos amores novos, e a sua morte fai rir ás xentes.?
Boas leituras!


Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/08/os-vellos-non-deben-namorarse.html

CRONICA DE ANTIGOS REIS - 16Ago2010 22:13:00
CRONICA DE ANTIGOS REIS
...
Que rio te conmove, segrel, que chúvia antiga
Cae no teu corazón para cantares, que árvore florida?
Lenes viñan as ondas e tamén na ribeira
Cantaban os barqueiros, os cegos
Transcrevian o seu desígnio, e temperaban
Os capitáns o tempo
Dando-lle á moa de afiar espadas: Era
O fluir do cântico e as pedras relocian
Para ser catedrais pórtico aberto
-tímpano foi a rocha mais lañada-
E soergueu a voz de entre as maquias, nas vendimas
Andou, cantou no berce, sob os piñeiros en flor
Imos bailar belida e entón o rei dispuxo
A sua voz no âmbito e as harpas
Retumbaran como quando no corazón estoura
Un amor ou unha fonte abre o seu chafarís
E corre sangre a mares, ese viño docíssimo
Nos corpos que se aman. El rei manda lavrar
Sobre lo mar as barcas e entra primavera
Nos reinos de ocidente, como se manda á flor
Esparexer perfume. Veñen logo os laúdes,
A flor de avelaneira, ai amor como viñan
Os rios na crecida todos de rosas fulxir:
Trovador ou segrel, señor da poesia,
Que ouros fixo da língua por honrar Maria.
E o rei, a treboada da sua voz, andaba
Nas eiras, nos beizos o seu canto quando chegou Abril
E ve-se a sombra ainda no horizonte,
Ouvide os rios...

In ?Última fuxida a harar?
Antón Avilés de Taramancos

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/08/cronica-de-antigos-reis.html

Graça Pires - 07Jul2010 22:28:00
Foi em Jullho, que bandos e bandos de gaivotas,
planaram sobre o olhar de tua mãe,
para que ao nascer, herdasses a secreta
violência das marés.
Agora, é sempre em Julho que, dos teus olhos,
se avista o oceano inteiro,
enquanto um navio te cresce, perfeito,
sobre os lábios, soletrando íntimas paragens.

in "Quando as estevas entraram no poema"

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/07/graca-pires.html

Força camarada... - 24Jun2010 06:58:00
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago
In Os Poemas Possíveis

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/06/forca-camarada.html

Ouvir Estrelas - 23Jun2010 07:43:00
"Ora (direis) ouvir estrelas!
...Certo
Perdeste o senso!"
E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas?
Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/06/ouvir-estrelas.html

POEMA DE AMOR - 13Mai2010 15:33:00
Enquanto os meus passos procuram
nos teus a ressonância da alegria
e ambos reconhecemos a luz fascinada
do olhar, dá-me a tua mão.
O nosso caminho não é a tristeza,
nem a raiva, nem o medo.
O rio conhece-nos a voz
porque transportamos no coração
pássaros em chamas e vagueamos lado
a lado, sem tempo, sem idade.
Um desvio de malícia denuncia
a suspeita cumplicidade da brisa
que nos brinca no rosto.
Uma densa névoa lambe,
tumultuada, a pele da noite,
Ao amanhecer, quase inesperadamente,
far-se-à verão em nossas bocas.
O teu nome e o meu nome serão frutos
de esperma e saliva presos à língua.
Os teus olhos : inquietos,
deslumbrados, transparentes.

Graça Pires
In Conjugar afectos, 1997

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/05/poema-de-amor.html

Mário Césariny - 18Abr2010 21:35:00
Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte

violar-nos

tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas

portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/04/mario-cesariny.html

Miguel Sousa Tavares - 10Abr2010 15:37:00
De novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.



Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/04/miguel-sousa-tavares.html

Miguel Torga - 10Abr2010 08:47:00
Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
"Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.."

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/04/miguel-torga.html

Professora Olinda Beja - 08Mar2010 20:10:00

Convite



ACOSP ? Associação da Comunidade de S. Tomé e Príncipe em Portugal, em parceria com ICID ? Instituto para Cooperação e Desenvolvimento Internacional tem o ensejo de convidar V. Excelência a participar no dia 28 de Março na apresentação do livro da escritora são-tomense Olinda Beja ?Aromas de Cajamanga?, no auditório do Instituto da Juventude, sito no Parque as Nações.
A apresentação contará com um recital, com o acompanhamento musical de Filipe Santo.


Contamos desde já com a sua prestimosa presença.

PROGRAMA
17h00 ? Abertura e apresentação do livro Aromas de Cajamanga, Prof. Carlos
Fontes.
17h30 ? Declamação de poemas de Olinda Beja
? Liberato Moniz
? Natália Umbilina
? Carlos Menezes
? Ângelo Torres
18h30 ? Recital de Olinda Beja, com acompanhamento musical de Filipe Santo.
19h00 ? Fim do evento.
Com os melhores cumprimentos,
António Cádio Paraíso

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/03/professora-olinda-beja.html

Maya Angelou - 27Fev2010 13:03:00
AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO

Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.

Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.

Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minha alma enfraquecida pela solidão?

Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.

Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?

Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.

Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/02/maya-angelou.html

Jorge de Sena - 24Fev2010 18:23:00
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos se voltassem.

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/02/jorge-de-sena.html

Carpe Diem - 24Fev2010 18:14:00
Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Judice

Fonte: http://carpinteirotinhela.blogspot.com/2010/02/carpen-die.html