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Contei-Porai
MALVINA - 07Dez2011 11:59:00
Por que era sábado, Leôncio não podia ter entrado, mas lá estava ele já com o umbigo e os cotovelos pregados no balcão do bar. Saira cedo de casa para comprar pão, leite, jornal e cigarros. Passara reto pela porta da padaria e foi direto para o bar de onde saira no dia anterior, tarde, completamente bêbado, tocado pelos safanões da sua mulher, Malvina, que esbravejava:
- sujeitinho imprestável, não posso confiar mais neste desgraçado, bebum safado... Leõncio estava completamente a mercê do mal etílico, apenas sorria e cambaleava, seguia, mas parando de poste em poste para tomar fôlego e vomitar. A mulher reclamava, vizinhos faziam chacota na sua passagem, parentes e amigos a incentivavam... - Largue esse desgraçado de vez Malvina. Tu merece coisa melhor... Mas como tinham doze filhos para criar, aguentava, era aquela a sua sina; oito meninos e quatro moças donzelas, uma aos treze, grávida. Típica família segurada, com os beneplácitos do governo, assim constituída para obter com fartura a famigerada Bolsa Preguicite Família. Na rua e na casa onde moravam todos só tinham coragem de atiçar por que sabiam dele ébrio, uma dama, jamais quando sóbrio, Leóncio era um ?carnegão de furúnculo? de se aturar. Se dizia protegido dum deputado por causa duns servicinhos feitos; humm!. Mas naquelas péssimas condições, era um cu sem dono... a mulher jogava-o na cama e o sujeito desmaiava até o dia seguinte, mas acordando cedo por que era sábado. Volto onde comecei... Depois desse dia nunca mais levou pão e leite pra casa, o jornal virou cama e coberta, e cigarro somente em guimbas, pedidas ou catadas... Daí em diante; bêbado, mais bêbado do que nunca, quando não, caído na sarjeta, faziam dois dias; o que chamou a atenção dos frequentadores assíduos do bar. Viam-no naquele estado; - E aí Leôncio, queres uma ajuda até a sua casa. Ele só balbuciava: - amando, Malvina, amando, Malvina, amando, Malvina... Nisto passa a mulher, uma morena ainda gostosa apesar daquele rosário de filhos, e pára; - A que ponto tu chegou heim Leôncio... um trapo... Se ao menos tu ainda desse no couro, te salvava... Um que observava a cena há algum tempo mas sem querer interfirir, mas já interferindo diz: - Quando a paixão leva o cara pra bebida, é uma merda... - Olha senhora; ele diz estar ?amando Malvina?... - Que amando que nada, eu sou a Malvina, ex-mulher deste aí. Ele está assim a meu mando. Mandei-o pra fora de casa... Deu de costas e se foi sem olhar para traz. Leôncio viveu mais vinte anos, dizem que morreu de cirrose hepática, acho...ou foi dengue. Porra, o que interessa isso; mais vinte anos enchendo a cara... deve ter morrido feliz. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2011/12/malvina.html DÈMODÉ - 15Abr2011 20:29:00
desde os primórdios o instinto animal do homo, já sapiens, no convívio com os carnívoros irracionais aprendeu a matar para defender-se e alimentar-se.
pensemos; não houve mudanças desta prática, é certo, mas não justifica nesta contemporaneidade; amar e depois matar... comer, fartar-se e depois descartar... há até quem já fez uso de animais para apagar vestígios da carcaça. mas não me venham falar de suicídio para livrar o culpado da pena pelo crime cometido. a vida de mais uma menina foi ceifada. quer-se, o mínimo; que haja rigor nas investigações. são injustificáveis diligências e conclusões periciais superficiais, quando que hoje para estes casos se tem meios tecnológicos modernos para detectar com precisão a ?causa mortis? de Jeniffer, não cabe mais o prevalecimento gerador mor das injustiças, para o favorecimento de quem quer que seja, prevalência de classe social e ou importância política do criminoso. isto hoje é totalmente démodé, e vergonhoso numa sociedade globalizada! " o suicídio(?) da modelo Jeniffer Venturini, em Portugal" Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2011/04/demode.html HOMENS, PRETEXTOS VAZIOS - 14Out2010 20:33:00
De todas as manias que eu tenho, tenho uma mania que eu não sei de quem herdei, que é de frequentar bares de quinta categoria; e como gosto. ?Pé sujo? é assim que chamamos carinhosamente esses redutos Cariocas cheios de energias verdadeiras, de gentes verdadeiramente despretensiosas de orgulhos, nunca metidos a bestas. Aliás; gentes finas no sentido refinado da palavra são insuportáveis, chegam na ?roda? se autopromovendo demais, com uma retórica ?chata? e repetitiva demais e quando discursam, enlameiam qualquer conversa livre boa; aí haja ouvidos. Revertem, desmancham, vilipendiam as coisas simples, as gentes simples e as palavras simples donde nascem às grandes ideias, as quais se costumam abraçar para o passo a frente no cotidiano; o próprio ou do próximo, sem mania de altruísmo. E não há como se conter a presença nefasta desses indivíduos, seja em qualquer lugar; num site, por exemplo, e o que ajuda bastante, é quando o recinto é restrito, sem platéia, sem refletores e purpurinas, menos ainda num bar pé sujo, onde que; as cabeças pensantes dos frequentadores habituais são muito abertas e não entram no jogo sujo das palavras, nem das ideias retrógradas, são gentes grandes desprovidas de altivez barata, e que rebuscados; bastam os ladrilhos do chão e os azulejos importados a mais cem anos, o rococó da base do balcão com tampo de mármore trincado, as sancas de gesso e estuque do teto e o ventilador de parede com um terço da velocidade, desgastado pelo uso intermitente ao longo dos anos, e que já não espantam nem mais as moscas. Coisas das antigas e necessárias, aceitas, mas as únicas que inspiram confiança, por isso suportável. Assim como; recompensa e me alegra sobremaneira a presença de algumas modernidades, o que é inevitável. E contrastando com tudo isso, e que me faz desviar desses detalhes costumeiros, é a presença estática porém festiva para os meus olhos do freezer vertical marcando no termômetro 0º suprido de ampolas nevadas, e, uma asseada e iluminada vitrine elétrica, suada e abarrotadas de tira-gostos de aparência honesta e identidade duvidosa, mas que a galera saboreia lambendo os beiços, e eu também, claro, depois de uns goles de cachaça, da pura, e das cervejas geladas servidas no copo americano. Pureza é imprescindível para o bom nome de um lugar, mas só ela mesmo, a cachaça, confere a ele esse status. E como em todo lugar honesto e puro, há a presença de coadjuvantes e que se fazem notar; como o gato angorá a rosrosnar debaixo da mesa, e a procedência do portuga, visto a bandeira lusa pregada na parede, do proprietário do estabelecimento, que apesar de poucas falas e não aceitar brincadeiras nem gozações é amabilíssimo, uma raridade, por isso cativa-me ter uma frequência assídua, eu e os meus amigos, gentes enormes, enormes corações, porque que são tão somente aqueles homens mais ou menos inteligentes, mais ou menos intelectuais, mais ou menos de esquerda, mais ou menos anarquista, mais ou menos poetas. O menor sou eu, mais ou menos autodidata, mas todos autênticos Cariocas queiram ou não. Está enraizado em cada um; isenção de superioridade é o que lapida dia após dia essa coisa que anda se perdendo por aí, o sentido, a qualidade da amizade. Compreensivo em termos, no âmago das pessoas, no individualismo, na competitividade desvairada, movido por causa das fragilidades comportamentais dos novos tempos. Felizmente entre nós grandes amigos ninguém é mais que o outro, não se precisa ser, a hipocrisia é zero, o maldizer é zero, isso incomoda. Não a nós, que entre uns goles e outros acompanhados de salsichão assado na brasa, acebolado, fatiado, com farofa e pimenta, e com muita conversa boa, é que a gente se entende. E assim, no meio desse bom astral põem-se as palavras de pé, enquanto possível. E pra inveja daqueles, fadados aquela vidinha solitária, por própria culpa, sedentária e repetitiva por situação, vai se levando aqui uma ?insuportável? boa vida carioca, ora falando de literatura, ora regurgitando um poema, batucando na mesa de lata ou na caixinha com fósforo, fazendo a vida virar samba. Tudo isso sem precisar espezinhar ninguém. Perfeitamente possível, pois tudo está provado e aprovado aqui, debaixo desse céu azul, que é perda de tempo, perder tempo explicando o prazer que dá o sol, o mar e as gentes daqui. Muitos que se acham entendidos, mas não fazem deles capazes de beber dessas simplicidades, tentam infiltrarem-se, mas amarguram-se, pois sabem que são a pior espécie de gente pra frequentar esses locais, não cabem nessa filosofia, se acham inteiros demais, completos demais, laureados demais, celebridades demais, autointitulando-se os donos da ?cocada preta?; todos ?quebram a cara?, são doces que dão travo na boca, no olhar e no sentir. É a empáfia que os identificam longe, mesmo na obscuridade; e como é repugnante vê-los atuar nos entendimentos interpessoais mais simples, valendo-se das metáforas para agredir e as entrelinhas como armadilhas para satisfazerem assim o ego de ar superior e magnânimo. Pior de tudo, é que atraem os pseudos cults, fãs clube, e os baba saco para aplaudi-los, e mais, juntos; vem àqueles considerados mais ou menos amigos deles, considerados amigos dos mais ou menos inteiros, que são piores que os mais ou menos inimigos, ou falsos amigos. Pois os inimigos a gente aplaude, se conhece pessoalmente. Já os inimigos distantes, até há alguns que arriscam por a capa de amigo, mas esses são sem importância ao convívio, não dou crédito. Só depois de eu encarar, de olhar olho no olho. Fora isto; não dá nem pra tentar saber virtualmente. É descartável. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2010/10/de-todas-as-manias-que-eu-tenho-tenho.html COVARDIA DÁ NOJO... (mini conto) - 06Out2010 20:34:00
Éramos quatro, um em cada cela, nus, num frio de julho potenciado pelo vento frio que entrava pela fresta, fazia doer os ossos. As mãos agulhavam congeladas, como os pés, pisando o chão de pedra úmido. Três já haviam passado pelas mãos dos torturadores. O último, aterrorizado por ser o próximo à ser arguido, (arguição era senha para a tortura), vomitava e chorava copiosamente dizendo que não ia aguentar, que era um covarde. Então disse-lhe que; o que fizesse ou dissesse sob tortura nunca seria visto como covardia. Covardia era outra coisa, dava nojo. Um exemplo; COVARDIA - é quando o homem não respeita a palavra do outro; e quando para se esconder das verdades que ela traz, manipula-a ou rasura-a, oculta-a, torna-a ilegível ou a faz desaparecer totalmente levando todas as verdades. Isto é tão verdade, que hoje mesmo vomitei por causa de um covarde... E sei que não será a última. Os covardes procriam-se no lodo e viram uns merdas. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2010/10/covardia-da-nojo-mini-conto.html DEUS NUNCA PRECISOU DE MARKETING - 10Set2010 20:45:00
Nesses tempos contemporâneos, ?Ele? deve assombrar-se sobremaneira com os que ainda seguem clamando exageradamente: ?Senhor!? ?Senhor!?, pretendendo alcançar a ?Graça?. Mateus diria hoje sem nenhum escrúpulo: ?- Menos minha gente, menos! Nem mais construir grandes templos prova o tamanho da fé, muito pelo contrário; tem causado até muita desconfiança de quais outros meios as organizações e os organizadores conseguem para apresentarem tanta ostentação ao mundo, além do que é tirado dos pobres e até alguns miseráveis fiéis. Quereis provar aos homens que crê ?Nele?; basta ser caridoso com o teu mais próximo; ter amor no coração e orar contrito. Não imponha a tua fé, você não é superior perante a ?Ele? por isso; não jogue um irmão contra o outro; não engane teu próximo com promessas vãs, de que ?Ele? salvará, induzindo-o nesse engodo em troca de uma paga do céu, permuta, ou do que quer que seja ao penhor da paz, da tranquilidade e da estabilidade do homem entre as coisas da vida terrena. Ao menos seja um homem digno, basta, pois as salvaguardas da vida celeste eram para os seres puros, esses, que hoje não há mais?? Findo o sermão, montou na sua motocicleta de 1.100 cc e foi orar no deserto. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2010/09/deus-nunca-precisou-de-marketing.html BOLA CINCO; NA CAÇAPA DO MEIO... - 07Ago2010 02:34:00
Em pé na calçada, e espremido numa multidão de marmanjos engravatados e de discretos tailleurs e uniformes das secretárias e funcionárias; moças lindas, perfumadas, esguias e alongadas pelos saltos scarpin verniz. Naquele momento quase todos tinham a mesma intenção; à volta ao lar, menos eu, mas isso não vem ao caso, o que importava é que aguardávamos pacientemente o sinal verde do semáforo. Inda mais agora, que os técnicos da engenharia de tráfego instalaram em caráter experimental os tais counters junto às sinalizações verticais, se tem o tempo cronometrado apenas de sessenta segundos para se atravessar pela faixa de pedestres as quatro pistas largas da avenida, ela que é a principal via que rasga o centro comercial da cidade ligando as zonas norte, oeste e sul, terminando no lado mais leste, na litorânea; a outra que serpenteia o lado norte da baía percorrendo-a desde o cais na zona portuária até as praias ao sul e oeste da cidade, e depois permitindo a interligação com todos os municípios.
Diariamente neste horário de rush as vias centrais são mesmo movimentadíssimas, normalmente o trânsito fica apressado, nervoso, e o excesso de sinalização acaba por embaralhar mais ainda. Já não sei se; se ganha ou se perde com tanta modernidade posta nesses monitoramentos, sinto que tecnologia está cada vez mais a serviço da cidade, com os gráficos estatísticos de fluxo de trânsito do que com o bem estar dos citadinos. A cidade é esse organismo vivo que não pode parar, e por isso tratado tudo e todos linearmente num gráfico. Acredito até que a preocupação com os indivíduos seja insignificante, no entanto; somos as células, o principal organismo vivo, que faz a cidade viva. Noutra ocasião, no mesmo local, estive reparando que o tempo de travessia para uma pessoa andando a passos de normais a ligeiros, é ínfimo para se fazer todo o trajeto num só golpe, impossível de ser completado no tempo estipulado, por isso; inábil a idosos, cadeirantes, gessados, e deficientes visuais. Vi que os obrigavam a ficar esperando um novo tempo na faixa central entre as pistas para poderem completar a travessia sem o risco de serem atropelados pelos afoitos motoristas. A educação do trânsito aqui é péssima, e as autoridades não tomam medidas coercivas sérias para coibir os abusos praticados pelos condutores, ?os maustoristas(sic)? de toda a sorte de veículos, cujas imprudências aleijam e ou ceifam vidas inocentes. Infratores contumazes pela falta de uma lei severa sabem que ficam impunes de condenação, ou quando muito; punidos com multas de valores tão ridículos que praticamente incentiva-os a outro delito grave, ao invés de respeitarem. Faltavam quinze segundos, quando meu olhar advertido pelo sentido de percepção flash das coisas do cotidiano, me chamou à atenção para o outro lado da calçada. Um homem saltara do taxi, e caminhava, quando de repente cambaleou, caindo entre uma grande lata de lixo, sacos com restos de comida postos fora pelos restaurantes, e o poste de iluminação na esquina duma pequena ruela com quiosque de flores no meio e que bifurcava na via principal cuja iluminação já era precária, devido uma lâmpada apagada. Alguém mal intencionado havia quebrado-a tornando o lugar por natureza deserto, mais ermo ainda do que de costume. Foi quando vi dois vultos aproximarem-se, e revirava os bolsos do homem que parecia não mais agonizar. Sorte que apareceu repentinamente uma viatura policial, flagrando-os e prendendo-os. Simultaneamente, chega outro socorro, a ambulância com paramédicos. Mais não deu para ver, pois o fluxo de veículo aumentara a frente por causa do congestionamento. Como sempre, o centro da cidade esvazia-se rapidamente poucas horas após o término do expediente comercial; bancos, lojas e escritórios. Rapidamente as filas de passageiros nos terminais dos ônibus vão diminuindo, e outras no plano horizontal vão se formando nas calçadas, de gentes de rua, fétidas, e seus panos velhos sujos enrolados pelo corpo, roupas surradas, trapos de cobertores baratos. De destinos ignorados uma grande população de rua aparece como saídos de tocas, como ratos. Chegam parecendo formigas gigantes carregando folhas nas costas, eles, pedaços de caixas de papelão e outras tralhas, êxodo de um amontoado de velhos e jovens; homens, mulheres e crianças que vão se espalhando pelo chão, território demarcado, perigoso, quase sagrado, e que é disputado às vezes com a morte de um invasor. Estão em toda a parte, nas praças, debaixo das passarelas de pedestres, viadutos, preferencialmente no centro, mas já começam tomar de assalto os bairros circunvizinhos ao centro da cidade, e é caso sabido das autoridades que fazem ?vistas grossas?. É um processo de descaso e permissividade irritante e nojenta, nada fazem os agentes do serviço social, no mínimo recolhê-los, encaminhá-los a instituições de apoio e reabilitação e desintoxicação de álcool e drogas, mas não; deixam proliferarem nesses guetos de asfalto, mendigos, drogados e prostitutas decadentes que optaram viver em grupos para se protegerem do frio, da noite e de uma infinidade de maus tratos que sofrem dos vândalos noturnos. Por isso é que cada vez mais se instalam em lugares mais movimentados, debaixo das marquises, nos bancos de espera; lugares que fazem de camas, alcovas e lares, os cantos das paredes dos prédios e canteiros; fazem de banheiros. São locais que fedem a urina e fezes, o cheiro é nauseabundo até para quem passa ao largo ou do outro lado da rua. Voltei o olhar o homem caído. Ao sinal verde, caminhei ligeiro para o local onde ele estava, e mesmo impedido ante a fita de isolamento, deu para eu notar que ainda estava lá, e apesar de estar debruço, talvez do mesmo jeito que havia caído, dava para ver que era um idoso, aparência de bem cuidado, cor parda, cerca de setenta anos, vestindo terno e paletó cinza claro, sapatos pretos, meias brancas, ao seu lado uma pasta de couro cru que o policial abrira e olhava alguns documentos. Pegou-os e caminhou na minha direção, onde estava mais iluminado. Aproximando-se, cumprimentei-o e perguntei o que houvera com o homem, pois o vi soltando do taxi, deu alguns passos e caiu, estando assim a mais ou menos um minuto, o tempo do semáforo mudar de cor. Respondeu-me, que de acordo com os paramédicos ele está morto, e que constará no relatório do atendimento médico e do boletim de ocorrência policial como sendo enfarto radical do miocárdio. Conforme o laudo; quando ele bateu no chão, já estava morto. Disse-me que como policial e acostumado com o triste cotidiano, esse o deixou estarrecido por um detalhe; de acordo com os documentos que havia verificado, hoje tinha sido o primeiro dia dele como aposentado. Agradeci as informações, pois agitaram a minha curiosidade desde lá do outro lado da avenida com o semáforo vermelho. Segui o meu caminho, fui para o meu bar preferido, sentei à minha mesa preferida, e bebi minha cachaça preferida com os meus amigos preferidos... Soube depois pelo dono do estabelecimento que o morto também era freqüentador assíduo, mas num horário mais cedo. Bom, foi igual jogo cantado, coisa anunciada; bola cinco, caçapa do meio, e foi pro saco. Ele era a bola da vez. Olhei pra mesa e estavam lá a seis e a sete. Quando a sinistra entra no jogo não adianta mudar de bar nem de mesa, e quando o taco está na mão ?dela?, é sempre uma sinuca de bico. Por via das dúvidas, sugeri que voltassem todas as bolas pra mesa. Pra ganhar tempo. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2010/08/bola-cinco-na-cacapa-do-meio.html PATO DOURADO, BAR E RESTAURANT - 07Mai2010 03:20:00
Eu acabara de sair da agência de automóveis com o último tipo Sport da série de importados de luxo. Parei no recuo do calçamento à frente do restaurante, o porteiro aproximou-se, segurou a porta do carro, chamou-me de doutor. Sorri. Pediu-me a chave. Disse-lhe que naquele modelo não havia chave para alguns procedimentos. Por exemplo; a abertura das portas e ignição era por comando de voz, e que por hora estava codificado provisoriamente em; 1, 2, 3 para abertura das portas, e 4, 5,6 para dar a partida, acender faróis e alternar a suspensão.Pelo rádio transmissor, chamou os manobristas e ouvi-o dando as instruções aos dois. Num gesto com a mão indicando a direção, convidou-me a entrar. Prontamente dois rapazes uniformizados de motorista de madame, bacanas mesmo, aproximaram-se e levaram o carro. Já de costas, vi-os quando saíram numa arrancada acelerada que me arrepiou da nuca ao esfíncter anal. Antes dos três lances de escada, na lateral direita da entrada, dois grandes vasos de bronze plantados no centro com palmeiras Lacca, raras, originárias de Borneo, ornadas em volta do caule com arbustos baixos e exóticos, que iluminados de baixo para cima por pequenos refletores de luz verde, refletiam sombras fantasmagóricas na parede de pedra grená. Entre eles, uma moldura dourada, com a inscrição; ?O cardápio?, ?Especialidade da Casa - Pato?. Achei estranho... Mas segui em frente. Subi os três lances de degraus, e ao aproximar-me, as portas duplas de madeira maciça do salão abriram-se rangendo como num passe de mágica. O ambiente era guardado por dois gigantes afrodecentedentes elegantemente vestidos com ternos e camisas pretas e gravata prateada, que hirtos, apenas acompanharam-me com seus grandes olhos brancos quando passei. Entrei no primeiro ambiente. Era um ?american? bar estiloso, banquetas altas de couro tingido de azul Royal e pés dourados. Um balcão de mármore preto com tampo de vidro. Há poucos centímetros da altura da cabeça de quem estiver sentado; copos e taças de cristal reluzente, dependurados assimetricamente, escondendo parte do rosto de quem estivesse do outro lado do balcão, como no caso; dos olhos para cima do barman enquanto eu passava. Continuei caminhando pelo tapete vermelho até o fim do balcão que dava para ver o outro salão, praticamente vazio, apenas um sommier com um colchão d?água centralizado no ambiente e iluminado apenas por um forte foco de luz xenon, um luxo só. Nisso; abre-se uma porta de vidro espelhado, e, antes o que era um vulto caminhando ligeirinho em minha direção, surge na minha frente uma louraça de corpo escultural. Pensei até que fosse a Kátia Flávia, Belzebu, Godiva do Irajá do Fawcett; blusinha de seda transparente com decote até o umbigo, uns seios ma-ra-vi-lho-sos, coxas grossas; pra lá de uns quilinhos extras, ficavam-lhe bem, nem vou falar da bunda. Ah! Que bunda! Ela cumprimentou-me com um sorrisinho... ?oi?, respondi-lhe... ?olá?, e fui logo falando da minha necessidade, que precisava falar com o proprietário do estabelecimento. Ela puxou uma cadeira e pediu-me que sentasse e aguardasse. Era uma mesa com dois lugares de frente para o bar. O barman inclinou-se e cumprimentou-me com um ?boa tarde? seco e perguntou se eu desejava beber algo. Ofereceu-me; whisky, cerveja, respondi-lhe que água gasosa estava bom, outra bebida, principalmente alcoólica, não, pois estava a serviço. Servido pelo garçom, vestido igualmente como os porteiros e os garagistas. O ?maitre?, que apareceu sem eu notar, vindo da extremidade contrária de onde saiu a loura, vestido tão elegante quanto os guardiões do salão, sem me dirigir uma única palavras, chamou o garçom, entregou-lhe um enorme Cardápio de couro, grená, com inscrições douradas, vieram juntos até mim, o qual o abriu na minha frente. Mais luxo. Não estava entendendo, não era meu propósito comer, nem beber nada, aliás, era um serviço de luxo que eu não podia pagar, e ainda mais; não suporto patos, só aqueles que eu e a minha turma comíamos lá na escola... Mas interrompendo a minha viagem na adolescência, o ?maitre? finalmente abriu a boca, gentilmente disse para eu ficar a vontade que era tudo por conta da casa. E que se eu precisasse de ajuda na escolha ele sugeriria; ?Pato Dourado?. Então comecei a pensar que certos restaurantes de luxo são cheios de frescuras, e que se eu tivesse grana mesmo, ia querer que o estabelecimento me desse o mesmo tratamento luxuoso e cordial pra quem não comia pato. Mas isso são apenas conjecturas que não vão de forma alguma atrapalhar a minha missão. O meu patrão mandou eu entregar o carro ao comprador, faz parte do contrato que a entrega fosse em domicílio.. Fodam-se os patos e marrecos... Pois eu estou mesmo, é doido para passar lá no Mc Donald e atracar um ?sanduba?. Mas a curiosidade fez-me chamar o garçom novamente, e perguntar-lhe se eles serviam outros pratos além dos patos. Respondeu-me tão rápido quanto minha a pergunta. Parece que estava tudo ensaiado. Disse-me, sorrindo, que estava autorizado a servir-me em tudo eu desejasse e com todo o luxo, e mais a mulher dele que me acompanharia, caso eu precisasse de mais alguma coisa. Dependia apenas da minha vontade de aceitar as condições estabelecidas pelo seu amo, e no convívio de servi-lo no sommier. Não é que eu comecei a gostar de pato dourado! Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2010/05/pato-dourado-bar-e-restaurant.html EM NOME DE QUEM? - 27Nov2009 15:07:00
Era véspera de um dia qualquer. O homem acordou cedo como de costume, dessa vez não quis sair de carro, deixou-o na garage. Atravessou o longo corredor, cumprimentou o porteiro, e saiu caminhando pela larga calçada de pedras portuguesas, muito comuns nos bairros de classe média alta. Na mão, uma pequena lista de convidados começada desde a noite da festa do ano passado, e que completara na noite anterior quando ficou acordado até altas horas. Uma prática de muitos anos. Gosta de comemorar festivamente o dia do seu aniversário, e para isso, sempre partilhava um jantar com um grupo seleto de amigos. No bolso da bermuda, outra lista, do cardápio, nada sofisticado; vinho e produtos de época, por serem mais frescos. Seguia sem pressa, o sol ainda morno deixava a caminhada agradável àquela hora da manhã. Tinha todo o dia para os preparativos, desde as compras dos alimentos e bebidas, até a arrumação do ambiente e a decoração das mesas. E por ser um exímio cozinheiro, ia também preparar as comidas, fazer tudo sozinho aumentava o prazer dele servir.Antes de atravessar a primeira pista da alameda que o levaria ao shopping foi surpreendido por uma pequena mão que o puxou por uma das pernas da sua bermuda de linho claro, que ao contato, ficou logo suja na bainha. Além de maltrapilha, as mãozinhas sujas, assim como os pezinhos descalços igualmente muito sujos, eram de uma criança miúda, magérrima, mas com um rostinho angelical. Não conseguiu dar nem mais um passo. Por longos segundos custou até a dizer alguma coisa. Mas o silêncio foi quebrado pela menina, talvez com não mais que meia dúzia de aninhos, olhos vivos, porém tristonhos, disfarçados pelo sorriso sincero saído da sua pequena boca, e que exibia com a graça de toda criança banguela uma falha de dois dentinhos de leite recém caídos. Ainda segurando a bermuda e olhando por cima dos ombrinhos, perguntou ao homem se precisava de ajuda para atravessar a avenida. Aliás, uma das mais movimentadas do bairro, e que por ainda ser muito cedo não havia muito trânsito, mas nem por isso menos perigosa. Também com um sorriso, o homem respondeu que ao contrário, ele é quem deveria atravessá-la se assim quisesse. Afinal uma criança pequenina e indefesa para os perigos de uma cidade, era corre um risco de morte muito grande se exposta aquele trânsito do local, intenso quando no horário comercial até mesmo para os adultos e acostumados. Ficou preocupado. Então, segurou-a pela mão, atravessaram rapidamente as duas pistas, e já seguros do outro lado, no calçadão, antes dos jardins em frente ao shopping, perguntou onde os pais dela poderiam ser encontrados. Ela não respondeu, mas olhou-o nos fundos dos olhos. E naquele momento ele sentiu um mal estar estranho, um vazio na alma. Entendeu logo que não havia ninguém próximo que pudesse se responsabilizar por ela, ou o pior; todos eram ninguéns na vida daquela criança, ela era definitivamente uma criança abandonada. A imagem ficou congelada no coração, e o pensamento cravado na alma daquele homem que sem largá-la da mão seguiu levando-a por entre os jardins. Sem notar, o tempo passara rápido. Faltavam somente alguns minutos para o início do horário comercial e as lojas ainda encontravam-se fechadas, mas funcionários e os primeiros clientes aguardavam aglomerados em frente da entrada principal do grande prédio. Foram se aproximando também, lentamente, ele e aquele símbolo do abandono e do descaso. Chamaram logo a atenção. Sob alguns olhares desdenhados, sentaram-se num dos bancos de granito lavrado espalhados entre os jardins. Esperaram ali, afastados o suficiente dos olhares daquelas gentes. A menina emudecera novamente, parecia estranhamente acuada frente à situação. Perguntou então a ela o que estava havendo, por que estava tremendo, se não havia vento nem estava frio. Muda estava, muda ficou. Quando as portas começaram a abrirem-se, levantou-se rápido e tentou levá-la junto, mas ela estancou no meio do caminho quando viu para onde ele ia levá-la, e antes que ele pedisse uma explicação daquele medo, puxava-o para a direção contrária, pedindo que se afastassem dali. As lágrimas escorrendo pelo rostinho, e a voz misturada com o choro, dizia que não podia entrar lá por que os moços de preto ralham com ela, e que na última vez eles a botaram para fora a segurando pelas orelhas e que doeu muito. Uma indignação tomou conta do velho homem, por causa daquela covardia feita com uma criança. Tranqüilizou-a, dizendo que agora entrariam juntos e que ninguém de lá ia fazer mais nada disso com ela. Ele não deixaria, prometeu. Ela abraçou a perna dele e com um aceno de cabeça concordou. Entrando pelo corredor de mármore polido, seguiram, quando o homem assustou-se com u?a mão lhe tocando o ombro. Era uma grande amiga, aliás, umas das convivas da sua lista para o jantar. Uma mulher de meia idade, linda, além disso, sempre prestativa, de um coração doce. Beijaram-se no rosto e abraçaram-se carinhosamente. A amiga apontou para a menina com um olhar interrogativo. Explicou rapidamente, e logo dizendo que foi providencial aquele encontro, pois havia a boa intenção dele de querer cuidar daquela criança mesmo que nunca tivesse cuidado de uma antes, ainda mais uma menina. Naquela situação, pediu então que o ajudasse. Agradeceria eternamente por tudo que ela pudesse fazer, pois, apesar de ser o filho mais velho de uma família de muitos irmãos e irmãs, na prática , já não se lembrava mais desses cuidados materiais. Prontamente ela disse que sim, pegou-a nos braços, caminharam juntos, adentraram pelas alamedas do shopping. Com o conhecimento e amizades que tinha ali tudo ia correm bem. A amiga confessou que já tinha umas idéias na cabeça, que não tinha filhos, mas um instinto maternal apurado e naquele momento gostaria de dar dignidade aquela criança, capaz até de tentar uma adoção. Andando e relacionando as providências, que; de imediato a criança precisava de um belo de um banho, alimentação, roupas novas, corte e penteado dos cabelos. O homem ficou atônito e ao mesmo tempo feliz com a rapidez da coordenação das primeiras necessidades, e agradeceu por tudo que ela pudesse fazer, pois, apesar de filho mais velho de numa família de muitos irmãos, na prática, já não se lembrava mais desses cuidados materiais, sempre tivera a ajuda de todos. E assim ela fez; primeiro sentaram-se numa lanchonete, depois entraram numa loja infantil fizeram as compras necessárias e seguiram os três para a casa. Lá lhe deram banho, vestiu-a e calçou-a. Enquanto isso conversavam. A menina; surpresa, sorridente, calma e calada. Mas precisavam saber mais um pouco da vida de rua daquele pequeno ser. Não inquiriram logo, antes, ligaram para um juiz amigo para um aconselhamento. Assim foi feito. Enquanto a mulher ouvia as recomendações, reparou que a menina não largava uma pequena sacolinha de feltro com um cordão para fechamento, servia de alça para pendurar no braço, tinha a estampa de uma marca de bebida forte, provavelmente pega no lixo. Pediu para ver o que tinha dentro, ela não facilitou, mas com muito tato conseguiu pegar. Verificaram que dentro tinha apenas um gargalo quebrado de garrafa. Acharam estranho e perguntaram para quê ela guardava aquilo, por ser muito perigoso, podia corta-se, deveria jogar fora. Então veio a assombrosa explicação. Disse que ganhou da outra menina que morreu. Os meninos que moravam com a menina na praça, na briga, bateram nela com uma pedra por causa da droga. Tinha medo de eles fazerem o mesmo com ela. Tinha que ficar com caco de vidro para quando os meninos da praça quisessem pegá-la. ?Era pra se defender?, para cortar eles. Seguiu falando; que cortou um garoto grande quando ele rasgou a roupa dela e queria fazer maldade com ela. Ele só não fez por que o moço cabeludo e a moça bonita o assustaram. Do moço não se lembrava muito, estava escuro, mas a moça era bonita, engraçada. Ela andava, mas não tinha os pés, era uma fumacinha no lugar deles. Os amigos com os rostos apoiados nas mãos, atentos ao relato, que segue: disse que antes deles irem embora, puseram a mão na cabeça dela e prometeram que nunca mais ninguém ia machucá-la. Que eles iam protegê-la para sempre. Depois disso a luz sumiu e eles também. Os amigos se entreolharam, estavam chorando. O homem ficou curioso e insistiu mais um pouco; queria saber como era essa gente, se eram parecidos com alguém que ela conhecia ou tinha visto. Como estavam vestidos. E a menina respondeu que não os conhecia, mas eles estavam vestidos com uma luz. Sorrindo e apontando para a mulher, disse que achava que a moça era muito parecida com a amiga dele. A mulher tomou a menina pelas mãos e prometeu que ia tomar conta dela até saber o que poderia ser feito definitivamente para adotá-la. Nisso o celular toca. Era o amigo juiz, tranqüilizando-a, tratando-se quem era, dava a guarda temporária da menina até que fossem completadas as investigações. Os amigos decidiram assim; que a menina fosse ajudada pelos dois, e fazia questão das duas estarem também presentes na festa logo mais a noite. A mulher prometeu levá-la, e aproveitou para perguntar se ele precisava de alguma ajuda, pois, perdera muito tempo com toda aquela situação. Respondeu que não, que tudo estava sob controle, e sorriu. Apenas quis confirmar o sobrenome dela para gravar na plaqueta da mesa, tantos anos, e só sabia que se chamava Rita. Ela então completou; de Cássia. Repetiu; Rita de Cássia é o meu nome. E você; dirigindo o olhar para o amigo, só conheço-o pelo apelido, duas simples consoantes. Sorrindo para ela, respondeu que um dia saberia. E sumiu na luz. (texto aprovado que concorreu em Literatura, no 11° Concurso Talentos da Maturidade 2009, promovido pelo Grupo Santander Brasil) Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2009/11/em-nome-de-quem.html CRACK - 11Jul2009 02:04:00
Sábado, 03h15min da madrugada, inverno Carioca 12°. Chuviscos finos bailam nos focos das lâmpadas alógena dos postes da avenida, como uma cortina de voil ao vento, num efeito de colorido da madrepérola. Não havia previsão de uma mudança meteorológica, mas entrara uma frente fria repentinamente, pegando o pessoal da turma boêmia desprevenida. Sendo um deles, e o mais velho, tratei de partir mais cedo, e me pus a caminhar apressado antes que o tempo piorasse, pois há poucos dias acabara de me curar de uma influenza. E do que eu bem sei; cachaça nunca preveniu, muito menos afastou infecção. Madrugada fria e chuvosa, os taxis sumiram das ruas, e àquelas horas, os poucos que circulam, só fazem ponto, próximos aos locais com maior concentração de bares por causa da ?Lei seca?, baixada pelo governo para reduzir os alarmantes índices de acidentes de trânsito cujos resultados têm consequências graves, muitas delas irreparáveis, quando vidas são ceifadas, na maioria jovens alcoolizados. Por esse lado, concordo, mas ela se tornou famigerada. Para que seja cumprida, há ?blitz? policiais, verdadeiras manobras de guerra são montadas nas ruas e avenidas, e os condutores dos veículos são abordados e submetidos ao teste do bafômetro. Se constatado alcoolismo, é delito grave: sujeito a multa, perda de pontos na carta de habilitação, e até apreensão do veículo e prisão no caso de embriaguês total. Morando perto e com tempo bom, sempre volto a pé, aproveito para curar um pouco o porre. Já os outros frequentadores não têm essa vantagem, são de outros bairros e até mesmo de outras cidades, são obrigados a voltarem de carro ou moto, mas não se arriscam mais, pois a multa é pesada. Não segui pela avenida, que é mais ampla e iluminada, e também mais policiada, mas por lá, parece que o vento sopra mais frio, e a distância parece com mais compridez. Optei por desviar a minha caminhada pelas ruas transversais, mais estreitas e sombrias, mas com uma vantagem; as marquises dos prédios comerciais protegiam-me da chuva que parecia ter aumentado. Quando bêbados, perdemos um pouco a noção de distância, mas faltava pouco, acho, para chegar ao meu destino, me sentar na espreguiçadeira e encerrar a noite, ou começar o dia, com um drink. Se é que mais uma vez iam me deixar entrar. Mas um fato veio transfigurar completamente o meu cenário. Um gemido, lento e fraco, vindo de um beco. Na verdade um pequeno interstício entre dois prédios, próximo de um amontoado de caixas de papelão desmontadas, postas ali para serem recolhidas pelo catador de reciclados. Tentei aguçar os meus sentidos, novamente ouvi, e vi um corpo caído no chão frio, um menino, nascido não mais que há oito anos. Tinha o rosto coberto por uma camiseta de marca, ensanguentada. Aproximei-me cautelosamente; podia ser uma cilada de trombadinhas, não felizmente. Era grave, ele exalava um fedor horrível, além da falta de asseio de vários dias, havia defecado e urinado nas próprias roupas, é o que normalmente acontece nos espasmos e convulsões dos drogados. Matei logo a charada. Dava pena de ver. Com cuidado, descobri-lhe o rosto. Espantado com a minha presença, não conseguindo se mover começou a gritar, com os olhos esbugalhados de terror, como se tido uma visão demoníaca: (filho-da-puta... não me foda mais... não me bata mais... não quero mais... não vou ?fumá? mais essa porra) Havia um nó na minha garganta, mas tentei acalmá-lo, dizendo que não ia lhe fazer mal, que ia ajudá-lo. Perguntei então o que ele queria que eu fizesse. ?vai lá e traz a minha mãe? Disse-lhe que sim, que traria a mãe dele, mas ele tinha que me contar o que tinha acontecido. (o cara me falou que se eu desse pra ele ele me dava uma grana eu disse que não pediu pra eu tomar conta dos bagulhos dele ai ele foi embora deixou umas pedras eu ?tava? ?cherado? de cola aí fumei o crack ele voltou e me encheu de porrada ele me comeu ele me arrombou moço) Além de fezes, urina, o short estava encharcado também por causa do sangue. Naquele momento só as palavras me incomodavam. Sem que ele percebesse, acionara a Emergência Corpo de Bombeiro, ele precisava de urgentes cuidados médicos. Continuei. E depois? Ele chorando. (fumei outra pedra. o fogaréu acendeu dentro dos meus olhos era o inferno ?nimim?. o céu rasgou o sangue escorria na minha cabeça quando a lua rolou esmagou as estrelinhas que caiam ?quinem? areia) ... (moço... me ajuda estou sem pernas quero ?vumitar?) Nesse instante; uma luz vermelha intermitente invadiu o espaço, eu estava anestesiado, nem notara a chegada do socorro. Nos segundos seguintes, enquanto relatava aos paramédicos o que tinha conseguido na conversa com o menino, do estupro, e da minha desconfiança de overdose de crack, os enfermeiros auxiliares já haviam descartado as roupas fétidas do corpo dele, e faziam um asseio preliminar com soro e vaselina líquida. Envolveram-no com um material aluminizado. Passaram com a maca por mim, mas ele estava inconsciente, nem pude perguntar-lhe o nome. Nem sei se era importante fazê-lo. Não me lembro quanto tempos mais, fiquei ali depois que o som da sirene sumiu dos meus ouvidos. Amanhecera e a chuva havia cessado, e não tomara o último drink onde planejara. Mas o primeiro do dia sabia onde ia ser. Comprei o matutino, pus debaixo do braço e voltei pro bar. Há duas semanas a minha mulher não me dirige a palavra. Ela acha que eu estava com as putas. Foda-se. É muita história pra uma madrugada só. Ela não vai acreditar mesmo. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2009/07/crack.html TÃO FRIO QUANTO A BRISA - 17Jun2009 04:19:00
![]() Farto dos dias nefastos isentos de poesia, o velho homem sentou-se na cadeira espreguiçadeira no quintal, ao ar livre, num atalho disfarçado de sossego, a fim de enganar o corpo cansado, do calor que ainda fazia até àquelas horas da noite, e cochilou. Ao lado dele sobre a mesinha auxiliar de jardim, seus vícios proibidos; uma garrafa de bebida forte consumida até a metade, com o copo emborcado no gargalo. Metade de uma cigarrilha apagada no cinzeiro, a última, das três adquiridas diariamente, e nessa quantidade, para evitar o abuso do fumo. Dos lícitos; o rosto do seu amor, sua amada, retratada na fotografia sépia, posta no velho portarretratos de metal zinabrado, com o mesmo sorriso maroto e olhar seguidor congelado, direcionado para dentro da saudade. Aquela mesma saudade desenhada desde que o deixou. Juntos; sua caneta dormitava próxima ao fiel caderno de anotações, sonolento, de folhas embeiçadas, capa desbotada, lombada e seixas carcomidas pelo tempo de manuseio diuturno. A madrugada engoliu a noite, e a brisa folheava-o aleatoriamente, descortinando os segredos ali apostos, incitando os sonhos que rondavam o sono que lhe chegara muito profundamente. Seguia a vida a mercê das forças da natureza, do momento, indivisível, toda a sua trajetória sendo desvendada e espalhada pelo chão desordenadamente, naquele instante único e derradeiro. Relíquias guardadas em cada página, tesouros que seus dedos cristalizaram em versos, poesias. Como se pedras preciosas fossem, assim como; seus poemas de amor, que não vai precisar mais guardar. Seu corpo jaz tão frio quanto à brisa. O poeta está morto, mas deixa imaculada a sua poesia. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2009/06/tao-frio-quanto-brisa.html A ENTREVISTA - 14Jan2009 17:55:00
![]() Falava ao telefone, dava para ouvi-lo além da porta de vidro. Vociferava como se discordando de alguém do outro lado da linha. A campainha da porta principal soou duas vezes antes dele desligar, o que fez apondo abruptamente o fone na base. A demora não levou mais que um minuto para que o homem fosse atender.Quando ele abriu a porta, à sua frente estava uma jovem mulher. Melhor dizendo; uma menina maquiada de mulher. Vestia um tailleur marinho, sapatos de verniz com salto Luiz XV que a fazia mais alta e mais velha. Ela achava que precisava parecer assim para impressionar na questão da altura, talvez por pensar que ser alta era sinônimo de adulta. Da blusa de voil bege decotada, uma leve abertura, provocada por uma nesga, dobra natural do modelo, que permitia ver frações dos pequenos seios, firmes, com aquele frescor normal da tenra idade, pousados num colo perfumado de pele alva e aveludada.Antes que dissessem alguma coisa um ao outro; o que seria normal entre desconhecidos, por exemplo: um simples cumprimento de recepção; um ?bom dia? ou, ?como vai?, ou ?que deseja?. Mas não, os dois ficaram ali, em pé na porta, olhando-se profundamente, absortos por alguns segundos antes de quaisquer outras palavras.O telefone tocou novamente. Assustaram-se como se despertados de uma viagem em outra dimensão.Ele correu até a escrivaninha, mas deixando a porta aberta. Também com ela plantada na soleira, não poderia fechá-la mesmo, a não ser que a deixasse lá fora com a porta no nariz. Isso não faria mesmo.Atendeu a ligação, mas atento aos movimentos dela. Olhando em direção da moça através da porta de vidro refratário que separava o seu gabinete da ante-sala, e a sala de recepção, acenou, gesticulou com a mão, e pediu para que ela entrasse e sentasse. O que ela fez sem cerimônia. Sentou-se numa Recamier Capitonê estofada de veludo grená, cruzou as pernas elegantemente, torneadas e sensuais, valorizadas por meias finas preta suavemente rendadas.Ele a olhou sobre os ombros tampou o fone com uma das mãos, baixou o tom da voz, e pediu para que ela o aguardasse uns minutos mais até que concluísse o atendimento. Ela concordou sacudindo a cabeça afirmativamente.Enquanto o esperava percorria com o olhar tudo a sua volta, fazendo uma expedição aos detalhes do local. Apesar das instalações serem modernas, o mobiliário de estilo clássico, impressionava o brilho pelo excelente estado de conservação; mesas com pés torneados, cadeiras estofadas de veludo, relógio carrilhão, abajures com bases sendo de imagens de querubins em mármore de Carrara, tudo demonstrando muito bom gosto, mesmo que conflitantes com os acessórios modernos como; computadores com monitores de LCD, telão para vídeo conferências, frigobar de aço inox, e mais outros petrechos para conforto dos usuários no âmbito comercial. Ela estava extasiada com que vira, fazia planos, caso tudo desse certo. Afinal não dependia de ela ser aceita para o serviço. Aliás, mesmo sabendo estar habilitada para qualquer função, não fazia preferência de cargo. Apesar de nova na idade, parecia ter bastante experiência ou treinamento qualificado. Ali, naquele átimo da espera ela arrumava os pensamentos preparando-se para as ações a fim de agradar o seu entrevistador.Ele olhava-a com encantamento. Ela já havia percebido, demonstrando ser também experiente em sedução. Mulher do tipo independente, disposta de querer predeterminado.Para ele, só um estranho sentir, pois era um homem maduro, vivido, descompromissado e acostumado a entrevistar muitas mulheres; profissionais ou não, novas, velhas, e de várias classes sociais. Mas, nesta havia algo que lhe chamava a atenção, uma atração quase que sobrenatural.Terminada a ligação, dirigiu-se à moça. Ela levantou-se. Num gesto rápido, pediu que ela permanecesse sentada e que ficasse a vontade. Puxou uma cadeira, sentou-se frente a ela. Tomou posse de uma pequena prancheta, presa nela, uma pequena ficha e duas folhas de papel pautado. Sem olhá-la, perguntou-lhe o nome, quem havia feito a indicação do escritório dele... Isto é; o profissionalismo havia tomado conta da situação depois do espasmo emocional acontecido com os dois naquele encontro inesperado. Com a mesma seriedade ela atendeu-o. Abriu a bolsa, pegou o cartão da pessoa que a tinha indicado. Era um amigo dele.Com respostas precisas, foi respondendo as perguntas formuladas. Enquanto transcorria a entrevista, notava-se um semblante de satisfação em ambos. Arguida sobre sua qualificação profissional, ela fez demorar alguns segundos, e mesmo assim não o satisfez com a resposta. Ao invés, ela esticou o braço e entregou-lhe um envelope branco grande. Detalhe; suavemente perfumado. Era o Currículo. Ele pegou-o e disse para surpresa dela, que guardaria para análise posterior, o que queria mesmo de imediato era passar logo para as informações sobre as tarefas pertinentes as atividades do seu escritório.Adiantar-se assim antes dela ser dada como aprovada da entrevista, era um procedimento totalmente equivocado. Mas procedeu dessa forma. Afinal era o dono do negócio. E isso como se sabe, é fundamental para o fim de qualquer entrevista.Antes da resposta, torceu o tronco para o lado esquerdo e pôs a prancheta em cima da mesa, mas ficou com uma das duas folhas na mão, e em silêncio, leu atentamente suas anotações.Antes do final da leitura, ainda com a cabeça baixa, olhou-a por baixo das sobrancelhas, deu um ligeiro sorriso, pegou a segunda folha, e após um suspiro, sacou do bolso único da camisa branca de linho, sua caneta tinteiro de madrepérola com pena de ouro, e rubricou-as. Fez uma leve pausa e informou-a da aprovação para o cargo. Deu-lhes os parabéns, e agradeceu por ela ter vindo. Continuaram sentados, e já numa conversa informal, confessou que tinha entrevistado mais de dez candidatas naquele dia, algumas até com mais experiência de trabalho, mas não com os conhecimentos gerais e a desenvoltura dela, isso era preponderantemente importante para o sucesso da escolha. Precisava de alguém com liderança, e boa aparência sim, mas que ela tinha ultrapassado as suas expectativas. Porque afinal, no convívio diário, para lidar com ele eram necessários alguns predicados acima dos normais.Mas uma vez ela surpreendeu-o. Perguntou por onde ele queria que ela começasse.Ele sorriu. Repousou a mão no queixo, olhou-a, e sorriu novamente, e perguntou onde ela gostaria de almoçar. Com a experiência abrangente dela, respondeu-lhe que; para ela, para não quebrar-lhe a rotina, seria importante ser onde ele estava acostumado a sentir-se bem. Nada mais falou, nem ele. Que ligou para o manobrista, pedindo que trouxesse o carro urgente. Um sedam preto de luxo, do ano. Saíram do elevador de mãos dadas, entraram no carro, e rumaram para a casa dele. Duas semanas depois, voltaram de um cruzeiro pelo litoral, presente de lua-de-mel, e recomeçaram logo as atividades do; ?ELE&ELA Escritório Matrimonial?.Depois do casamento a empresa prosperou por força da propaganda mais que convincente feita com personagens verdadeiros, e com um novo slogan: ?Nossa empresa não contrata dublês. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2009/01/entrevista.html ...SEGUNDOS NOVOS - 04Jan2009 23:29:00
![]() ...SEGUNDOS NOVOS Num átimo, o primeiro passo da madrugada do novo ano, e lá estava o homem sentado à beira mar, só, absorto, remoendo os últimos maus acontecimentos do ano findo. Os dele, comum a todos, foram consumados. Pendente apenas um, do corpo. Por ora, a fé e a figa à prova desde já. Dos seus entes a sua volta, dos poucos amigos onde o abraço alcança, e com os outros não tão, mas sentidos próximos como se, passaram sem pendências. Assim soube, motivo suficiente para sobressaírem às tênues rugas de expressão provocadas pelo modesto sorriso.No olhar, uma espécie de beijo muxoxo, alegria distraída, camuflada na brancura da espuma misturada a areia que lhe beijava os pés. Num vai e vem, vinham juntos certa nostalgia de esperança, e os restos das oferendas devolvidas pelo mar trazidas pelas ondas cálidas e calmas de verão. Certo de que estava só, chorou, e o sal das suas lágrimas misturou-se ao mar, e assim, escondeu os vestígios daquele seu momento de emoção.E ali permaneceu ele, sentado à beira mar assistindo de longe toda essa coisa grandiosa que é o adeus do ano velho e a chegada do feliz ano novo. Manifestação contagiante, explosão do povo, euforia, festa que ele não conseguia naquele momento nem absorver, nem dividir plenamente... Os olhos ainda mareados, mas o pensar aguçado. Fulgia no seu rosto o colorido dos fogos de artifícios vindos do céu, saídos do mar, e as perguntas começavam a brotar com o mesmo fulgor:Tantas luzes assim... Será que realmente é para iluminar o ser, como propagam por aí? Ou a abundância de clarão é para cegar-nos das verdades que desfilam frente aos nossos olhos? Estrondos, ecos, estampidos, inimagináveis ruídos... Será para acordar-nos para uma realidade que teimamos não aceitar, ou é para que não escutemos os lamentos daqueles sem voz, ou para abafar os nossos clamores, nossos próprios ais? Será que há outro interesse além do cumprimento ao evento cultural de festejar? Ou há interesses outros com o intuito de propaganda pra si; governos, igrejas, instituições?...No chão, toneladas de garrafas vazias, vestígio incontestável do uso indiscriminado da droga lícita, cujos conteúdos foram consumidos para adormecer a razão, em prol da emoção da contagem regressiva até a transição atingindo milhões de memórias. E dependendo da resistência de cada indivíduo; efeito duradouro em alguns segundos, minutos, horas ou para sempre nos excessos.Os olhos, esses sim, mesmo sonolentos, fixos, testemunhando os fatos, fotografando qual uma lente grande angular todo aquele povo, lá, extasiados, hipnotizados, boquiaberto engolindo ar, esquecendo pelo menos por alguns minutos; das suas doenças, da fome, da guerra, das prisões injustas, do abandono das crianças e idosos... O ano começou, são segundos novos, e nem tudo há de começar cinza como esse pensamento enraizado, havia naquele homem ao menos uma coisa bem vista e colorida para começar... Vestia uma bela camisa de chita, estampada de flores tropicais.Há previsões dos especialistas em clima mundial que 2009 será um ano quentíssimo.Bom!... O tecido é de puro algodão. Portanto; conveniente. Os fogos cessaram. Então o homem levantou-se, destampou sua garrafa, e pelo gargalo mesmo, sorveu de uma vez só mais da metade da sua droga, e com ela, afogou a pouca alegria que tinha, e junto, a tristeza instalada que não resistiu, dormiu com ele na areia. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2009/01/num-timo-o-primeiro-passo-da-madrugada.html ALMA DECADENTE - 07Nov2008 01:23:00
![]() Casada e dois filhos: uma moça e um rapaz. Bonita, uma beleza comum de mulher, mas que chamava à atenção. Atração essa que eu não saberia explicar em detalhes, pois envolve sentimentos conhecidos por mim, creio no mais comum; tesão mesmo. Talvez para outro olhar masculino ou feminino, que fosse não viesse significar nada de especial como foi para mim.Mulher altiva, que antes dessa profissão qual exerce com dignidade e sabedoria desde que se casou, a de Mãe. Formara-se noutra, mas preferiu dedicar-se totalmente ao lar. Uma condição que para certas mulheres é indiscutivelmente desgastante, intencionalmente impossível e fora qualquer cogitação, cuidar do lar. Parece piada, mas não é. É pura realidade. Em alguns casos chegam ao suicídio. Por favor, sem risos, não é piada. (risos)No caso dessa mulher não as duas atividades. Por que só do lar? Era qualificada profissionalmente em assuntos administrativos e organizacionais para empresas de grande porte. Mulher de visão, além de prendada, aplicava o seu saber com o olhar investido numa grande família, por isso fazia tudo com muito gosto a fim de agradar e progredir no seu intento. Era o que ela queria; uma família. E assim ela fez até bem pouco tempo. Até quando soube das traições do marido, do envolvimento do filho caçula com as drogas, e sua filha; prostituiu-se aos l7 anos, mentia sobre seus relacionamentos, frutos advindos dos seus amigos de classe média alta.Seu castelo ruiu, o pomar cresceu espinhos, as flores secaram, ouvia grunhidos ao invés dos cantares dos pássaros, tudo beirava a loucura. O modo de vestir-se, de ver a vida e de interação, mudou, e radicalmente. Não havia mais uma preocupação demasiada com a filha, já que ela havia se amasiado com um homem de alta posição social desde os seus dezessete anos. Sabe-se dele apenas que é rico, mais velho, e que tem outra mulher, a dúvida, é se é casado.Do estrupício e safado do marido, o que ela sabia era coisa antiga, ficara mal acostumada com suas péssimas atitudes desde quando namorados. Aquela coisa de paixão cega... Só depois de muito tempo é que viu que a vida pregou-lhe uma péssima peça, hoje com arrependimentos incalculáveis.Os filhos debandaram-se, afastaram-se, sem comparecerem até mesmo nos finais de semana. A esta altura já adultos, formados, mas, deformados no caráter, nunca se importaram com o prazer de ser família.Enquanto isso, sem que se notasse de pronto, nem ela mesma, começara a perder todo aquele viço de mulher vibrante e sensual. Vivendo naquela casa quase que solitariamente, e não havendo muito que fazer e para quem fazer, já que o canalha do marido praticamente se ausentara da convivência convencional do dia a dia de um casal, ele chegava todos os dias às altas horas da madrugada.A partir desses episódios danosos para sua alta estima, ela passou a beber voluptuosamente. Um detalhe; ele não bebia, e se fazia superior por essa diferença, o bastante para que passasse a agredi-la verbal e fisicamente. A gota d?água foi quando chegou ao estágio de espancamento. Amigos e parentes tentaram salvá-la várias vezes das garras daquele que se dizia o homem dela. E a paixão dela por esse homem era tão forte que a fazia suportar tudo calada, e não tolerava interferência, e nem o conselho de ninguém.Mas havia alguma coisa no ar. Algo de mais grave estava em curso para acontecer. Sua atitude calada denunciava isso. Pronto, como retaliação ela passou a beber compulsivamente, e convidava seus amigos de copo para festas todos os finais de semana. Era o ambiente que ela sempre desejou casa cheia e festiva. Estava a partir daquele momento se formando uma nova família, esta constituída agora de vagabundas, mendigos, alcoólatras, drogados, e ás altas horas, também por policiais que vinham apenas para achacarem, favorecendo ao local, antes um lar, o status de bordel.Agora era tarde para o ex-marido tomar uma atitude, sim, ex, posso distingui-lo assim, pois não tinha mais voz ativa, em nenhum lugar da casa, sequer no próprio quarto, agora tomado para práticas libidinosas. A multidão alojara-se definitivamente se espalhando pelo chão da sala, dos corredores, e até dentro da banheira. Aliás, eles, os convidados, estavam ficando incomodados com a presença dele, pois reclamava demais. Inconformado com a situação, ameaçou, proclamou em alto e bom som que daria um fim em tudo, poria a casa à venda.Um silêncio sepulcral instalou-se. Olhares espios e nervosos começaram a rodeá-lo. A mulher surge do corredor, travestida ou incorporada... Garrafa de marafo na mão, charuto na boca, baforadas grandes... (gargalhada estridente). Um maltrapilho ajoelhou-se aos pés dela, ela mando levanta-se, ele cochichou alguma coisa. Ainda o silêncio.Ela começa a se aproximar. A gentalha vai abrindo o caminho, ela passa por cima de uns, em outros os pisa até ficar há meio metro, cara a cara, e dá a sentença:- Vai morrer hoje. Aqui você destruiu a primeira família do meu cavalo, e agora está querendo o mesmo com essa nova que ela arranjou... Mas eu não vou deixar (gargalhada debochada). Ordenou que o derrubassem no chão e o imobilizassem. Quebrou a garrafa cravando-lhe o gargalo na garganta e bebeu-lhe todo o sangue.A casa está abandonada há cinqüenta anos. Nada permanece vivo dentro dela. Dizem que é mal assombrada. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/11/casada-e-dois-filhos-uma-moa-e-um-rapaz.html OS SIAMESES - 08Out2008 03:32:00
Moravam numa pequena vila localizada numa região que outrora tinha sido zona rural. O bairro ficara populoso demais, pois se rendeu ao progresso devido à expansão industrial. Um plebiscito permitiu a instalação de várias fábricas de capital multinacional, mas o lugar não perdera aquele jeitinho de interior; ainda. Crescia rápido.Estabeleceu-se um cabedal bom para a população, menos para os moradores mais idosos que desejavam sossego. Ao contrário dos jovens, estes contratados, por salário mínimo, uma fortuna para quem ganhava um décimo na lavoura ou como pedinte nas feiras. Com tanta euforia, tanto os velhos quanto os novos nem sentiram que praticamente o sítio geográfico onde moravam se modificara. O que antes área limítrofe era região inóspita, agora não mais, já havia praticamente se unido à da outra cidade, esta considerada subúrbio emergente, com diversão, bares, comércio farto, grandes avenidas, trânsito caótico e outras mazelas corriqueiras e aceitáveis. Era lá que Dona Rosália e Sr. Astolfo faziam suas compras todo final de mês. Agora pela facilidade de acesso; todos os sábados. Para subsistência de um casal sem filhos não era muita coisa que precisavam comprar. Suas atenções eram focadas essencialmente para os tecidos, linhas, botões, debruns e passamanarias em geral. Materiais que precisavam estocar para manter o negócio do qual eram artífices. Para o sustento, tinham na própria residência um atelier, uma pequena confecção de roupas, etiqueta Geéle?S. O Sr.Astolfo costurava para os homens e os gays e Dona. Rosália para as mulheres e as lésbicas. A relação deles com a clientela era uma coisa impressionante. Queridos pelos vizinhos, clientes e fornecedores, que mesmo depois de muitos anos de convivência, e pelo amor que demonstravam ter um pelo outro, não haviam chamado a atenção até mesmo dos amigos mais chegados. Não repararam que Dona Rosália... O seu corpo... Chamava mesmo a atenção era o seu aspecto corporal forte, vamos dizer assim; era possuidora de uma musculatura mais viril, muito mais que o próprio companheiro. Fora dos padrões para uma bela mulher daquela região, rural. Se talvez vivesse numa grande cidade, urbana, não seria notada, as academias de musculação dariam esse trato nela como dá há muitas mulheres e tão bonitas quanto ela. Realmente, fora todos aqueles músculos, seus traços femininos são surpreendentes. Analisando bem hoje, o Sr. Astolfo era um homem de aparência também forte, porém com traços mais suaves. Intrigava. Porque não tiveram filhos? Os siameses eram criados pelos dois, mas o gosto pelos felinos não era da Dona Rosália. O luto ainda não terminou e Celina já dorme com Rosália na cama do casal. Os dois gatos siameses o casal cria-os até hoje em homenagem ao Sr. Astolfo. Afinal, os dois foram homens muito felizes. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/10/os-siameses.html PONTO FIXO - 08Out2008 00:00:00
Desde muitos anos vou e volto pela mesma avenida, trajeto obrigatório; de casa para o trabalho, do trabalho para casa.O comércio que freqüento fica do lado oposto, depois da praça. Diariamente antes de eu dobrar a rua transversal, na esquina em frente à praça; estática como se fosse uma pintura em tela viva, lá estava ela, sentadinha numa pequena caixa de pinus, destas que acondicionam e transportam frutas. Ela era só uma menina, uma criança, com cerca de seis, sete anos, não mais. Nas mãos, outra caixa, esta de papelão cheia de balas, guloseima exposta à venda que ela oferecia a quem passasse por ali. Fazia isto somente com um olhar. Olhar cabisbaixo, lacrimoso, eu nem precisava fitar muito para sentir que ela era infeliz. As cores das guloseimas eram muito mais coloridas que de seu velho vestido, de manequim maior do que o seu corpinho, talvez ganho em doação de outra criança maior em tamanho e posses. Eu parava ali todos os dias, nossos olhares cruzavam, ela nada dizia, eu nada perguntava, pensávamos que éramos mudos. Pegava algumas balas e pagava com moedas em valor muito superior que o custo, e seguia o meu caminho. Não era esmola, pensava estar fazendo o meu papel, ajudar, isto é: comprando o que ela vendia, sem me preocupar quem era. O meu olhar acostumou-se àquele quadro. O tempo passou. Passou tão rapidamente como passa a areia entre os dedos, e na mesma velocidade, deve ter exaurido a vontade dela em vender balas. Um pouco mais, um véu criou-se entre a imagem e meus olhos. Também não era mais obrigatório eu passar por aquela avenida, mas por contumácia ou força do hábito que tivesse, mas persistia. Numa determinada tarde, meu olhar envelhecido ou viciado, nem percebeu que aquela menina, passara de casulo para libélula, ela já era uma mulher e eu nem notei. Desperto por essa metamorfose... Cumprimentei-a. Estática na mesma esquina ela permanecia. Sua resposta surpreendeu-me: - Está a fim de um programa tio. Lamentei não ter feito mais por ela antes. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/10/ponto-fixo.html O POETA NUNCA ESTÁ SÓ... - 05Out2008 01:13:00
A sinfonia, a escultura, a pintura e a poesia. Arte, arte, arte e arte. O homem pensador, mediador das maravilhas, qual o compositor que ao dedilhar o poema eterniza-o na partitura. Nela o maestro lê, e a batuta diz o que fazer, e a melodia evolui na orquestra através das bocas, dos dedos, das mãos, dos pés. Do couro, das cordas, dos metais e das teclas, é o som, é o som.O poeta não, ele é só, sem fanfarra, e mesmo assim consegue compor, bastando ele estar em sintonia com a sua musa, e ela nele. Isto é abstrato e real ao mesmo tempo. Absorto e só no seu canto. Ele canta, cala, chora e ri. Tem a sinfonia na vitrola, a escultura no pensamento e a pintura no olhar. O poeta nunca está só, mas ninguém o vê. Para criação... Em suas mãos; apenas uma pena, um lápis, uma caneta ou o teclado. Processo é quase idêntico ao do escultor e do pintor que; quando com a sua modelo retratam o nu, despem-se da rudeza, e vestem-se do que vêem e ou do que sentem. Mas o poeta, sim, este é um artista, não tem a musa em suas mãos, usa o seu pensamento como uma força centrípeta, e captura para junto de si a imagem dela, aí esculpi e pinta em versos, ela, a musa inspiradora, e não mais cessarão as poesias. Até na sua lápide deixará gravada a sua mensagem de amor. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/10/o-poeta-nunca-est-s.html O MAR ESTÁ PRA PEIXE, FELIZ ANO NOVO - 25Set2008 18:12:00
Zero hora, três minutos, quinze segundos. Acabara de consultar o meu relógio de pulso no primeiro dia do ano de uma madrugada quente e céu estrelado. Ainda ouviam-se os estrondos dos fogos de artifícios vindo do outro lado da baía, em Copacabana, sons bem próximos a tiros distantes de uma artilharia de obuses. E bem ouvidos daqui, das praias de Niterói, de onde se tem a melhor vista do litoral sul da cidade do Rio de Janeiro.Talvez os únicos contrariados a todo o evidente burburinho fossem somente os ancestrais dos indígenas nos sítios arqueológicos, existentes nesse perímetro da praia, catalogados e já estudados, mas desprotegidos pelo governo. Tive o sentimento que suas almas pairavam sobre suas covas, cavadas nos sambaquis de areia, assistindo a sua última morada sendo profanada.Mas voltando à festa; pois o espetáculo era... Espetacular!Logo me ambientei, não podia ser diferente, afinal era réveillon, a primeira grande festa do ano. Desci as escadas do deck, atravessei com dificuldade a areia entre as pessoas, em grupos adorando os orixás, abraçados, casais de lábios colados em longos beijos, até que consegui aproximar-me da água, morna e mansa, deixei que as leves ondas molhassem meus pés, dizem que é bom no primeiro dia do ano. Ali parado, fiquei observando o mar enfeitado por muitas flores brancas entremeadas com amarelas, vermelhas e rosas. Cada cor representando uma direção, agradecimento, um pedido, um desejo. Flores jogadas em oferenda a Grande Mãe D?Água que também agradecida mantinha-as no marulhar das ondas, num efeito misterioso e bonito de se ver. Subitamente, trazidos por uma onda um pouco mais forte, fui surpreendido saltitando aos meus pés, um enorme cardume. Pequenos peixes prateados davam a ilusão de que a areia estava em movimento. Ajudado pela criançada que fizeram a maior farra, consegui devolve-los todos para o mar, vivos.Instintivamente olhei novamente para o meu relógio, eram cinco e tal. Os minutos e os segundos ficaram fora do meu foco de visão, turvo pelo gás, matéria volátil desprendida do líquido dourado que havia na minha garrafa, e que pendente, jazia clara, translúcida e vazia juntamente com meu braço adormecido.Só ficou a certeza de uma coisa. Dizem que peixe é sinal de fartura, e eles vieram a mim no primeiro dia. Devolvi-os ao habitat porque quero sim, fartura. Mas uma fartura viva, para mim e para todos. ANTOLOGIA DE CONTOS FANTÁSTICOS -14° Vol.Poema: ?O mar está pra peixe, feliz Ano Novo?07/2008 - CBJE Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/o-mar-est-pra-peixe-feliz-ano-novo.html (SOB A) LUZ DA LANTERNA - 24Set2008 03:28:00
Solitário, tendo como extensão do seu corpo apenas a sua velha motocicleta Honda Custon ano noventa e cinco. Com ela deslizava no trecho do vão central da ponte, há setenta metros de altura, e na velocidade máxima permitida de oitenta quilômetros por hora, assim dava para observar lá embaixo a água do mar; mexida, suja e fétida, devido à putrefação dos manguezais próximos, fedor trazido pelo vento tépido e constante do mar. No mesmo instante no meio da baía, navegando vagarosamente, visualizara um velho barco rebocador, que, no esforço de aprumar um cargueiro em direção a barra aspergia pelos retornos dos motores mal regulados; vapor e uma fumaça negra obtida da queima do combustível, provavelmente adulterado, quase o envolvendo a cada aceleração, o que o fazia desaparecer alguns instantes. Mas lá ia ele, seguindo imponente singrando na água amarronzada e deixando um rastro de espuma espessa, derivada de um misto de óleos, algas mortas, gigogas e lixo.No começo da subida da serra, de súbito, uma impaciência, uma angústia, o frescor no rosto, e o cheiro dos eucaliptos plantados na beira da estrada, disfarçava um pouco aqueles sentimentos, pois se fazia encher os pulmões de ar, qualidade ?made in? país tropical. O sol foi esfriando-se vagarosamente também, e escondendo-se rápido no poente. E assim o dia passou despercebido. Tinha nascido com uma manhã clara e com céu limpo até o meio dia, mas repentinamente acinzentou depois se cobriu de nuvens negras que misturadas aos resquícios de vermelho do sol transformava-se numa coloração sombria, meio suja, tons sobre tons, num dégradé fúnebre. O tempo fechou em trevas combinando com a solidão da viagem. A escuridão se fez mais cedo, abraçou a noite sem que se notasse e um começo de chuva fria começara cair molhando a rua, que revestida de paralelepípedos. Pedras que umedecidas tornam-se muito escorregadias, causando um desconforto na pilotagem. O desconforto também era grande para o corpo, pois o frio e a chuva enfraqueciam o poder de aquecimento da roupa interna, a externa, de couro estava encharcada. Mesmo assim seguiu um pouco mais à frente, parando debaixo de uma frondosa amendoeira, estacionou a velha máquina, seu bem de estimação, uma guerreira. Apeou. O frio tinha se estabelecido por completo na serra, uma sensação perto do abaixo de zero grau, dava para sentir na alma, doía até os ossos. Então, caminhou lentamente sem direção específica, procurava e esperava encontrar uma pousada, que fosse simples, mas aquecida e o mais rápido possível para o repouso do corpo, em frangalhos. Quando de repente, sentiu estar sendo seguido, ouviu passos não muito claramente, parecia vindo de baixo dos pés, isso mesmo do chão. Olhando a volta, também não viu ninguém, aliás, nada denunciava um espreitar de quem quer que fosse. Sozinho, com a imaginação flutuando, pensou; não há porque um descontrole emocional, mas o suor fluía a cada passo, e a cada outro que dava aumentava a sensação de estar sendo seguido, e o fez caminhar mais rápido. Afastou-se da calçada, passou a caminhar pela sarjeta, logo a seguir o medo o levou para o meio da rua, afastava-se cada vez mais da parte habitada. A iluminação da rua por ter lâmpadas de baixo lux não se propagava, e também por causa do nevoeiro e da chuva fina que não parava, dificultando a visibilidade, e por isso, não notara que já pisava na lama. O trecho de rua calçada terminara lá atrás, o que a tornava mais escura, mais feia e lúgubre. Tinha as pernas desobedientes, empacaram num cruzamento, próximo de uma obra abandonada, parecia o fim do trajeto, cavaletes atravessados avisavam a proibição de passar. Diante do impasse, olhou para esquina, tentando encontrar um abrigo. E sob aquela iluminação fraca de cidade de interior notou que uma tampa de bueiro abria-se lentamente, estático, viu aquelas mãos pálidas, magras e envelhecidas empurrando a pesada tampa de ferro fundido, e de lá surgiu um vulto, vestido de uma roupagem negra e em desalinho, como se tivesse nascendo do chão, parecia levitar. De congelar. De paralisar mesmo. Mas num passe de mágica, quebrou-se toda essa imagem aterrorizante, um foco de luz de lanterna entrou pela retina quebrando o terror instalado na escuridão da noite. Foi quase uma tapa na cara. Em seguida, uma voz arrastada ofereceu ajuda. - Está perdido? Precisa de ajuda? (tosse)O vulto se fez gente, era um velho funcionário municipal do departamento de águas e esgotos, e também vigia da cidade, que depois de uma inspeção noturna das galerias, saiu para fazer a sua ronda pela periferia. O motoqueiro fez o sinal da cruz e agradeceu por ser ele aquela aparição. Uma boa companhia, um amigo que fez-lo voltar à realidade. Respirou fundo, foi sendo possuído lentamente por um calor no corpo e um rubor nas faces. E da garganta ressequida pelo frio, e pela respiração antes ofegante, ouviu-se uma estridente gargalhada. em: ANTOLOGIAS DE CONTOS FANTÁSTICOS - Vol. 17 - Câmara Brasileira de Jovens Escritores 10/2008 Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/sob-luz-da-lanterna.html PAPOS E COISAS DE BOTEQUIM - VII ? FIM INUSITADO - 24Set2008 03:16:00
![]() - Comigo é foda... quando eu ganho uma parada eu pago a rodada. - Chope pra todo mundo. ? E uma cachaça e um conhaque pra aqueles dois ali, amigos do Vininho. (aplausos) Tantos e ensurdecedores, mas que foram logo cortados pelos gritos e pelas tapas que o Cadinho dava nos dois rapazes. - Vocês são uns ingratos, eu tiro os dois lá da roça, dou casa comida, escola, mulheres gostosas, e vocês me apunhalam pelas costas. ? Que porra de cheque é esse daquele pé de chinelo babaca morto lá na esquina. ? Seus bundas moles! ? Vocês dois estão querendo me passar pra trás é? - Nada disso padrinho! Foi sua mulher que pediu pra gente tentar cobrar dele, pra ela. ? Ela disse que o senhor meu padrinho... Deu o cheque pra ela. - Vaca! Ela ta me roubando! Vou ter que fazer um churrasco dessa vaca safada! - Faz isso não padrinho! - Faz isso não por quê? ? Estão comendo ela? - Deus nos livre padrinho! - Mas vão comer a partir de hoje - Vão lá fora e tragam essa vaca até aqui. ? Hoje eu acabo com tudo isso! E lá foram os dois capachos. No demoraram nem cinco minutos, trouxeram-na quase que arrastada. O Cadinho ali no centro do salão, com a mão na cintura, prostrado, os olhos esbugalhados de ódio, foi logo ordenando: - Tirem toda a roupa dela. ? Tudo. - A calcinha também. - Mas padrinho... Isso não! - Calem essas bocas e façam o que eu estou mandando. Quando iam começar a despi-la, ela afastou-os com as duas mãos, e começou a despir-se lentamente, tirou primeiro o curto vestido de malha branca, peça que jogou sobre uma das cadeiras. O que se viu não era um corpo, e sim um lindo monumento cor de bronze com um metro e oitenta de altura mais ou menos. Estávamos diante de uma bela escultura seminua, de coxas torneadas, quadris volumosos, mas não exagerados, nádegas lustrosas, firmes e sem marcas de biquíni denunciando ali a prática do banho de sol de corpo inteiro, sem acessórios. Daquele rosto com um ar debochado que exibiu quando entrou a primeira vez no bar, somente traços. O semblante agora era de desolação e talvez um pouco de vergonha, o que não acredito, já que outrora, antes de ser prostituta e dançarina erótica, fez filmes pornôs e apresentações de sexo explícito em boates prive. Semi ou nua, para ela devia ser mera formalidade ou não. Mesmo assim, com uma das mãos, ela tentava tapar a boceta e com a outra, tentava desvencilha-se do soutien, aliás, pequeníssimo em proporção ao volume dos seios; fartos, duros e aparentemente sem estrias. Continuou calçada com a sandália de salto plataforma, e isso deu uma nuance sexy na situação. Ficou ali de pé, de frente pra todos, que de mudos, mudos ficaram. Quem conhecia a fama do Cadinho, nem se atrevia a babar, engolia a saliva, e com aquela visão extraordinária iam acabar se afogando. Ela quebrou o silencia. - O que é que eu faço agora seu filho da puta. A tapa foi tão covarde e tão bruta, que ouve um esboço de reação de alguns. Mas aí... O Cadinho já estava perto do balcão e das duas 9 mm, Com o impacto a mulher caiu há uns três metros de distância e descomposta, pondo à mostra a sua mais íntima parte corpórea, carnuda e depilada em forma de coração. Os sobrinhos correram para ajudá-la a levantar-se. Enquanto isso, o Cadinho vociferava: - Alguém aqui já bateu em mulher? (acendeu um charuto) [silencio]? Já vi que ninguém. ? E apanhar, alguém já apanhou? [silêncio] ? Sei... Ninguém apanhou. - Pois então eu vou confessar uma coisa aqui; estamos bebendo juntos, somos um bando de amigos e entre amigos a gente pode falar o que bem quiser porra. Eu amei essa desgraçada desde guando ela não era nada até minutos atrás... Pensam o quê; ela era uma trombadinha viciada, eu tinha vinte e cinco anos, meus negócios; prósperos, tirei-a da rua, mandei-a pra escola e dei-lhe educação. Aprendeu o suficiente pra se virar sozinha, mas sabem o que ela fez: merda outra vez, se meteu com quem não prestava, prostituiu-se. Aí larguei pra lá. - Quando um belo dia aparece meu segurança o Marcão caveira, segurando pelo braço uma morenaça dizendo que ela tinha dito que era minha afilhada... Eu não quis saber desse negócio de afilhada não meus irmãos... Quando eu saquei aquele mulherão; foi paixão a primeira vista... E ela disse que foi assim também. Aí... foi sopa com mel. - Mas já viram né, durou pouco, porque essa safada me sacaneou legal. E não precisava, ela nunca pedia nada, mas eu sempre dava, porque esse negócio de dar jóias, roupas, carro, academia e cirurgia plástica... Isso não é nada pra mim. De uns tempos pra cá eu estava desconfiado, pois começou a me pedir muito. Ela pensava que eu não sabia. Aquele babaca tombou por causa dela. Vocês lembram que ela fez até uma cena aqui dentro entre os dois, tudo pra disfarçar. Mas essa cadela safada era amante daquele pé de chinelo, e por cima teve a petulância de me roubar pra dar pra ele. Eu criei uma cobra dentro da minha casa... E cobra criada é perigosa, dá muito bote. A gente corta a cabeça pra ela não morder. - O quê você vai fazer comigo Cadinho. - Vem cá! Deite-se aqui na mesa. Ela levantou-se. E já sem pudor nenhum, mostrou-se toda. Deitou-se na mesa como ele tinha pedido. Ele alisou-lhe os cabelos, a face ferida, ela afastou a mão dele como se tivesse a incomodando por causa do dolorido. Olharam-se. Ele pediu a um garçom que estava próximo a porta, que a fechasse. Ninguém mais podia entrar. O que foi atendido. Abriu a braguilha da calça, e sem despir-se a possuiu ali em cima da mesa. Ela fez bem o papel, entregou-se totalmente, gemeu, gritou, fez carinho, pediu mais... Mas não teve. Ele afastou-se, foi até o balcão, pegou uma pistola e aproximou-se da mesa. Ela, do jeito que ele a deixou quando se afastou, ficou. Exposta, e feliz, virou a cabeça em direção a ele e balbuciou: - Cadinho pra quê essa arma... ? Não faça nenhuma besteira. - Eu jurei que seria o último, que filho da puta nenhum levaria minha mulher pra cama antes da minha morte. Eu fiz melhor; comi-a na mesa. Com essa declaração, bebeu o último gole, caminhou em direção a porta, saiu, parou na beira da calçada, recostou-se num tronco de amendoeira. Meteu o cano da pistola na boca e atirou. Os blocos passavam ao lado do corpo cantando ao som da batucada. Poucos paravam, ninguém chorava. Era Carnaval. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-e-coisas-de-botequim-vii-fim.html PAPOS E COISA DE BOTEQUIM ? VI - O ARRENEGO - 24Set2008 02:54:00
![]() - O que é que ta pegando ô chefia? Respondeu o tal truculento das condecorações. - O caso é o seguinte Doutor, nós abordamos esses dois indivíduos, e ao conferirmos as suas identificações, projetou-se ao chão esse cheque vencido e esse cartão de visitas. O cheque nós já constatamos que o mesmo foi emitido pelo camelô que foi baleado há pouco na esquina, o cartão nós ainda não averiguamos. - Me dê aqui esse cartão. (guardou no bolso). ? E tira essas algemas dos garotos. O juiz adiantou-se, pediu ao garçom mais próximo que arranjasse uns guardanapos limpos e um pouco de água morna, isso na tentativa de ajudar os rapazes, já que as algemas por terem ficado apertadas demais, feriram-lhes os pulsos. Mas essa boa ação não foi muito bem vista pelos policias que retrucaram aos gritos. - Mas que palhaçada é essa ô velhote. Ta querendo ficar no lugar deles. - Cadinho... (lamentou o juiz) e aí vai ficar assim? - Vai não! - Ô chefia. Pega leve seja mais macio ta sabendo. Peça desculpas ao velhote, pois ele tem idade pra ser seu pai. - Tem, mas não é. E eu já tinha o mandado sumir daqui um tempão. Não sei por que voltou! - Então eu vou lhe dizer ô safado! (isso já com uma pistola 9 mm em cada mão) - Esse velhote aqui é o meu progenitor, sacou. Hei! Não olha pro outro lado não ? Quando eu falar com você seu merda, você tem que me olhar na cara ? E tem mais! ? Afinal! O que vieram fazer aqui, se essas paradas não são da jurisdição de vocês, heim! - Olha aqui Dr. - Doutor é o caralho! - Ta bom... Ta bom, Seu Cadinho... minhas desculpas! - Tudo isso não passa de um mal entendido. - Nós estamos aqui no cumprimento do dever. - Recebemos ordens superiores. - Tai! Seu bando de merdas! - Não quero saber de mais nada! - Meu pai foi sacaneado! - Meu lugar foi sacaneado! - To me sentindo sacaneado! (aos gritos) - E já to ficando puto com vocês! ? Não quero escutar nenhuma explicação. ? Vocês não estão nem merecendo mais sair daqui como chegaram. - Com esses peitos de pombos inchados de arrogância... ? Ta no ponto é de ir pro ?micro ondas?. - Mas eu vou quebrar o galho de vocês. ? Prometo que terão vida longa... se nunca mais voltarem aqui. Aquele bando de policiais parrudos não deu nem mais um pio. Entraram no camburão que partiu acelerado, sumindo na primeira esquina. Cadinho ajeitou novamente a camisa, caminhou até o balcão e anunciou: Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-e-coisa-de-botequim-v-o-arrenego.html PAPOS COISA DE BOTEQUIM ? V ? A TRUCULÊNCIA - 24Set2008 02:39:00
De posse dos documentos, o policial que conferia as identificações deixou cair uma folha de cheque e um cartão de visita que estava junto aos documentos, e curiosamente, um dos revistados tentou escondê-lo, pôs o pé em cima e tentou arrastá-lo para si. Uma tentativa de evitar algum tipo de flagrante. Foi quando o segundo policial entrou em ação.Sacou a pistola do coldre, e de arma em punho apontada para baixo, aproximou-se e ordenou que os dois pusessem as mãos na cabeça e ficasse de frente para o balcão e com as pernas afastadas. O rapaz que tinha tentado esconder o cheque com o pé, bem que ensaiou argumentar alguma coisa. Isso fez com que o policial aproximasse, encostando-se de propósito no traseiro dele, e por trás do seu pescoço, murmurou alguma coisa. O cara ficou incomodado e respondeu qualquer coisa contrariando sobremaneira o carrancudo homem da lei. Algo muito grave. Acho que foi um erro; pois em represália tomou uma estocada na costela com a coronha da pistola. Chegou a ajoelhar-se. Deve ter doído. Durante, e até mesmo antes da cena grotesca se desenrolar, ouviu-se no salão um zum zum zum de reprovação daquela barbaridade. O da farda olhou para trás e com o canto da boca espumando avisou: - Ninguém queira bancar o ?salvador da pátria?. ? Preguem esses rabos na cadeira se não sobra pra vocês! E continuou ordenando para que ninguém saísse, pois todos seriam revistados. Os dois amigos se entreolharam, sacudiram os ombros, mas, fazer o quê, mesmo inconformados com aquela situação, ficaram, afinal estavam em igualdade de condições com todos os outros freqüentadores. Menos com os caras da lei. Claro, estavam armados e desalmados. Nisso os outros dois outros policiais que estavam lá fora guardando a porta, entraram. Um era ainda mais carrancudo do que o que estava com a arma em punho, aquele que tinha cutucado o rapaz. Tinha três divisas de sargento cuspidas na ombreira, era um policial condecorado, uns botons coloridos presos no lado do bolso de peito da jaqueta denunciavam sua superioridade de mando. Uma daquelas honrarias devia ser de ?excelência em arrogância a civis? isso pra não dizer ?truculência generalizada?. Logo na primeira intervenção dele sentimos que ele era de truculência mesmo. E foi logo dando provas disso. - Tem algum repórter, advogado ou jornalista aqui presente. Alguns segundos, e levantou-se um homem de certa idade, cabelos grisalhos, (mais para branco total), dizendo que era Juiz. O que se ouviu a seguir deu para todos ficarem boquiabertos, com a empáfia do sujeito de farda. - Alguém por acaso me ouviu falar; de Juiz não sei de onde? ? Não! ? Então pra que essa palhaçada vovô. - Pode sair pra não mijar nas calças! ? Saí, saí debandar! E nisso, o amigo do Silveira já estava ficando impaciente. Soube-se que o homem é aparentemente pacato, aparentemente, mas na verdade é uma bomba pronta pra detonar, e ele como jornalista não se conformava com aquela situação. Infelizmente vivia-se numa época em que a maldade e a arrogância andavam fardadas, independente da cor delas, e se com ou sem divisas ou condecorações, então nem se fala. Mas o Silveira adiantou-se. - Saraiva fica na sua, você é turista... Quando te pedirem o documento, dê uma identificação que não seja a profissional, diga que é aposentado em viagem, mostre a passagem da Vasp e pronto. ? Sei lá o que esses filhos da puta estão querendo! - É você tem razão. ? Já entendi... Eles não querem nenhuma notícia caso haja por parte deles um ato mais desastroso. - É isso aí querido amigo. ? Tu sabes melhor do que eu como a coisa está aqui. - És jorna... turista (risos). ? Continuemos com nossa birita. - Se a policia está em cima é porque esses dois estão devendo. Os dois rapazes já algemados estavam sendo levados para a viatura. Policiais e seus dois presos quase já saindo do estabelecimento; são cercados por uns oito indivíduos, todos, uns armários, os policiais não se intimidaram, sacaram as armas. Foi aí a grande surpresa. Surge do nada para apartar, quem?, o Juiz , ordenando todos baixarem as armas. Pedindo um momento que o filho dele queria dar uma palavrinha com as ?autoridades?. Pasmem. Dobrando a esquina surge aquela Ferrari vermelha, acelera até em frente ao bar. Pilotando está aquela mulata gostosa, e de lado do carona o Cadinho, ele mesmo, ele e sua loja de ouro pendurada pelo corpo. Sai e bate a porta do possante com raiva. Na mulata notava-se algo estranho naquele rosto cor de chocolate. Prestando bem atenção, percebia-se o enorme hematoma no lado direito do rosto dela, e que ela tentava disfarçar jogando para frente o aplique de cabelos rastafári. O Cadinho em pé na calçada ajeitava a sua camisa maneira, estampada, colorida. Enquanto isso olhava para o grupo que o esperava na porta, ainda dentro do bar. Deu uma olhadela pra mulata e esbravejou: - Vai sua puta! Tira a porra desse carro daqui. Espere-me ali mais à frente. Não quero que tu fiques aqui de bobeira e ganhes uma bala perdida nesta bunda mole. ? Que é! Não fique me olhando. Vai logo porra! Deu até pena... Mas do carro. Ela arrancou com ele arrastando de propósito as rodas no meio fio. No mínimo por isso, outro olho roxo. Bobagem! Ela está acostumada, gosta. Se for boa a mesada; o que são algumas porradas. O cadinho caminhou até a porta, e antes de subir os dois degraus fez a sua habitual saudação: Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-coisa-de-botequim-iv-truculncia.html PAPOS E COISAS DE BOTEQUI -IV - O PARAIBINHA - 09Set2008 01:57:00
![]() No ir e vir de início de noite, vários transeuntes paravam no local, engrossavam a multidão de curiosos que se acotovelavam, queriam por que queriam chegar mais perto do morto. Ele, coberto com folhas de jornal, jornal do dia, exemplar cedido pelo jornaleiro, um velhinho italiano muito querido no bairro, era sobra de venda da sua banca, esta que ele mantém aberta dia e noite. Sua boa ação teve dupla serventia, ocultou respeitosamente o morto, e proporcionou para quem não havia adquirido o periódico, fazer a leitura das manchetes do dia, pois as desse crime, quem ali estava, presenciava e já se inteirava dos fatos, antes mesmo da notícia no dia seguinte, e sem os detalhes oficiais. Bastava-lhes um disse me disse qualquer para poder transmitir a notícia. Geralmente quando repassada, aumentada um ponto. Rodeado já por uma densa multidão, o corpo na calçada, agora frio, sobre ele, ainda as mesmas folhas de jornal só que ligeiramente úmidas; não sei se molhadas pelos finos pingos de chuva vindos de nuvens passageiras, comuns nessa época, ou se pelos perdigotos especuladores, mestres em conjecturas do cotidiano. Se o assunto for morte então... São os piores tipos de curiosos, ficam ali em cima, não arredam pés, e cada um com sua versão: eu vi, mas estava de longe; acho que foi queima de arquivo, foi passional, dívida de jogo; vingança de corno; não, foi o tráfico; foi vagabunda. Estas; são apenas algumas das especulações, que até a chegada da polícia, essas versões triplicam. Imagine se o cara que ali jazia estivesse meio morto... Sairia correndo. Tem gente que chegara há trinta segundos atrás e já tinha uma história. Não saiu correndo porque estava mortinho da silva. Ele e o que restou da cabeça do infeliz, que pousada numa poça, que revelava quando o vento levantava parte do jornal que a cobria, um filete escuro de sangue escorrido, ainda meio líquido, um coágulo denso serpenteando, da calçada à sarjeta, e projetando-se ao breu, entre as frestas do ralo de um bueiro próximo. A vida indo pro ralo, e de lá não sei pra onde. Como o sistema de esgotamento de águas pluviais é antigo e em muitos bairros ainda mistura-se ao de esgoto, triste fim. Isto é: no fim a vida mistura-se à merda. Talvez não seja tão ruim assim, afinal; aqui se faz samba, poesia ou filosofia nem que se esteja com o pé na bosta. A poeira estava quase assentada. Afastados do local, ouvia-se somente os lamentos dos amigos, que foram abafados pelas sirenes das viaturas das policias, civil, militar, resgate dos bombeiros. Logo atrás as dos profissionais da notícia; jornal, televisão, e de carros particulares juntando-se a turba de curiosos. Provocando na estreita rua um grande congestionamento. Incomum num bairro residencial. Lá no bar, passadas as primeiras horas, e a nostalgia e a tristeza já haviam se dissipado, principalmente naqueles freqüentadores que não foram tomar conta do fato in loco, decerto, tomaram conhecimento por alto e continuaram bebendo e se divertindo, para eles era como se nada tivesse acontecido, segredo etílico mágico. Para os que eram do local; coisas corriqueiras, como os papos que rolam nos botequins. Mas, nem todos estão prontos para uma tarde tão agitada. Havia um visitante visivelmente preocupado com os últimos acontecimentos, ele carioca, mas morando longe daqui muitos anos, sentiu a transformação da cidade. Acha-a agora violenta demais, aniquiladora das inspirações. Belezas retratadas com furos de bala, olhos marejados d?água e sangue. Maravilhosa mas com poesias moribundas. Coisas que estava fazendo ele não ter mais muita vontade de ficar. - Já está ficando tarde Silveira, vamos indo! ? A coisa aqui está esquentando! - Calma meu amigo! ? A noite ainda é uma criança! ? Nosso papo está bom! Não se preocupe isso é coisa de botequim mesmo! - Vou pedir a última rodada e depois sim; a saideira. Vamos juntos e sem pressa porque não vai haver mais saraivada de nada por aqui. Riu gozando o amigo. E emendou logo com um pedido. - Ô garçom...! Mais dois chopes e uma porção de azeitonas aqui pra mesa vinte e três e meio. - (rindo) Que número doido é esse Silveira? - Fica na tua Saraiva! - Você não reparou que o paraibinha não grita o número da nossa mesa como fazem os outros garçons com as deles? - É... Já havia reparado! - Aqui estão quase todos bêbados. Mas imagine o garçom gritando pra cozinha... ?Sai uma porção de lingüiça pra vinte e quatro. ? Vinte e quatro não é ?viado?, então; aqui só tem gozador, e se alguém fizer alguma piada, ele vai ficar é muito puto da vida. Pra dar uma porrada no cara não custa nada. ? Na semana, passada um grupo de rapazes da faculdade vieram aqui, lotaram duas mesas, e um deles já com a cara cheia de caipirinha, reclamou ao Nicolau que o garçom estava dando preferência especial para a mesa vinte e quatro. ? Quem era o garçom? - Vininho! - Isto; o paraibinha, aí deu merda, pois ele foi até a mesa e disse para que eles pegassem leve (uma gíria), pois se eles ficassem bêbados, ele não poderia continuar a servi-los, é a Lei. E mais, que não havia necessidade de terem reclamado com o patrão, pois que manda nas minhas mesas sou eu. - Aí, um deles teve a infelicidade de fazer uma gracinha: ?olha aqui ô baixinho... reclamei sim, você só está servindo aquelas bichas?. - Sabe qual era a mesa? - Esta! - Isso mesmo. E o garoto continuou: ?porque essa preferência toda, tu é gay também ou só simpatizante?. - Nada mais pode falar; levou um murro nos dentes Só de ver, deu-me um frio na espinha. (risos) Dos três arrancados, dois foram recuperados debaixo da mesa. O terceiro tinha sumido. - Mais tarde descobriu-se. O Vininho apareceu com a mão enfaixada e saiu para ser socorrido; o dente perdido ficara cravado entre os ossos dos dedos dele, um caso para emergência. - Até hilário se não fosse trágico: ir pra emergência para extrair um dente da mão, (risos) já soube de cabelos na mão. (risos) Agora dente... primeira vez! (risos). Novamente; os três tapinhas no microfone. Um dos integrantes do grupo, o com o cabelo descolorado, diz-se; oxigenado, anuncia que, para dar continuidade aos trabalhos da noite, iam apresentar ao público as passistas e também integrantes do coral. Foi chamando uma a uma. Eram três mulatas de fecharem o trânsito. Dignas de pupilas do Sargentelli. Se vivo certamente ele ia rebocá-las. Na movimentação de palco, os músicos faziam um fundo musical para o desfile das beldades, quando elas pararam de se requebrar, cada uma delas o fez em frente há um microfone, foi quando o grupo imprimiu uma batucada mais alta, reiniciando com um samba; e aí todos cantaram, com o contracanto feito pelas vozes maviosas das mulatas, enchendo o lugar de alegria: Meu amor! Quis plantar o meu amor Dentro do coração dela Ela então zombou de mim Me esnobou disse já era Esperei desse jardim O surgir da flor mais bela Que surpresa foi pra mim Só nasceu capim canela Só capim canela! Só capim canela! Que surpresa foi pra mim Só nasceu capim canela Não chorei quando senti Meu amor rolar por terra Tive então a decisão De esquecer-me agora dela E o jardim que era florido Com as cores da aquarela Destruído e sem amor E cheio de capim canela Só capim canela! Só capim canela! Destruído e sem amor Encheu de capim canela Não há dúvida que a letra da música era capciosa, pra divertir mesmo, não pretendiam incluí-la no CD. Especialmente, eles cantam-na apenas em suas apresentações em casas noturnas e bares, ambientes adultos. Enquanto isso: em frente à porta de saída; param duas viaturas da polícia. Quatro policiais ficam lá fora, dois entram tirando o sossego de dois sujeitos que estavam sentados nas cadeiras do balcão. Um dos policiais se aproximou e pediu que eles apresentassem os documentos. O outro permaneceu afastado, mas com a mão no coldre. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-e-coisas-de-botequi-iv-o.html PAPOS E COISAS DE BOTEQUIM - III - O PÉ DE CHINELO - 09Set2008 01:49:00
Ela não conversou...Jogou o porta-chaves na cara dele, acertou na testa. Simultaneamente correu um filete de sangue que ele estancou comprimindo o local. Era um desses chaveiros tipo de motel, uma placa retangular de acrílico transparente com uma correntinha para prender a chave, e que tinha internamente visível o retrato dela. Sorridente, ela pegou a bolsa de mão e saiu do mesmo jeito que entrou. Imponente. Chegando à porta de saída, botou a mão na cintura, olhou na direção dele e lançou-lhe um gesto obsceno com o dedo médio em riste. E saiu rapidamente. Parecia que tudo se resumiria naquilo. Mas repentinamente, ele levantou-se chutando a cadeira à sua frente, e em passos largos, foi atrás dela. Na sua passagem pelo corredor, o chão tremeu, o bar emudeceu, parecia que não havia uma alma viva. Previa-se sim, que algo ruim estava preste a acontecer. Ninguém teve a curiosidade de ir para rua para ver o desfecho daquela briga. E olha que normalmente o carioca adora assistir uma porrada na zona (briga na rua) que igual, estava para ser essa. De homem e mulher então; é mel na sopa. E dessa vez, parecia que ia ser diferente, talvez por causa dos protagonistas, briga de cachorros grandes, gente da pesada. Não querem escândalo para não chamar a atenção, principalmente da polícia. O ideal mesmo seria se a confusão acabasse longe, pois se ali fosse, próximo ao bar, ia acabar com a alegria da rapaziada. Com a confusão ninguém viu que o malandro pé de chinelo tinha saído pela lateral, isto porque, o bar fica situado numa esquina. E mais uma vez ele saiu sem pagar o que havia consumido, deu outro calote. Alheios aos acontecimentos, o quinteto continuava no pagode. Alguns freqüentadores tinham afastado algumas mesas e cadeiras para o canto, isto com o consentimento do gerente, O Nicolau. Um misto de segurança, leão de chácara, agenciador de garotas e não sei mais lá o que. Um puto. Gordo e alto aparência conhecida como armário, forte. Mais um puto. Ele, por causa da sua corpulência, caminha com dificuldade entre mesas cumprimentando os mais assíduos. Detalhe; copo de chope sempre cheio na mão. Numa parada aqui outra ali, pega um palitinho vai filando tira gostos nas mesas visitadas. O pessoal gosta, sentem-se prestigiados. E não deixa de ser. Afinal, ele é uma personalidade no bairro. O bar é um point, recebe visita de atores, artistas, turistas, juízes afamados, políticos importantes. Até o governador já tinha passado por aqui, mas lá nos tempos de campanha eleitoral. E nessas oportunidades, Nicolau, sempre na fita. Aparecendo nas fotos abraçados, e abraçando. Está tudo documentado. Ele pede as cópias, manda moldurar e sai pendurando pelas paredes do estabelecimento. Todos já tinham se esquecido da mulata, do fanchone dela, e até da Ferrari... Parecia vir de uns cem metros de distância, estampidos, foram dois tiros, que ecoaram. Todos saem do bar e olham na direção prevista, não vêem nada. Uns dois ou três freqüentadores antigos deixam suas mesas, vão também até a rua, inquietos, caminham até a esquina, dobram-na, e no mesmo pé, voltam pálidos. - Olhe minha gente, vocês não vão acreditar. O malandro pé de chinelo... - Levou dois tiros na cara! Silencio tumular. Foi um abaixar de cabeça coletivo. Uma engolida de saliva só. Apesar de o morto ser um cara chato, mentiroso, meio metido a esperto, ufanava-se que bebia tudo e comia todas. No entanto tinha algumas coisas a seu favor; não mexia com droga, não roubava, era prestativo. Em quaisquer coisas, para qualquer um, e a qualquer hora. Com gente conhecida do bairro ou não, mantinha o maior respeito, principalmente com as mulheres e filhas dos amigos de bar. Sim, mas não havia quem arriscasse por a mão no fogo quanto a esse grau de respeitabilidade. Safado foi, safado é, safado será. Agora não é mais, está morto. Ele era uma figura, nos dias de hoje, diria que irreal, ou talvez excêntrica. Um tipo de pessoa que merecia uma crônica, pois, mesmo sendo de pouca idade, tem história. Homem, branco, estatura mediana, cerca de 30 anos, filho único de mãe viva, ela aposentada, moravam juntos, ele trabalhava, era camelô. Por isso o apelido de malandro pé de chinelo. ?Malandro não trabalha, malandro é vagabundo?. Mas ele gostava de se parecer assim. O pai dele, morto num assalto ainda novo, era da boemia. Malandro daqueles tradicionais, da Praça Mauá, da Lapa, Praça Tiradentes. Um personagem disputado nas rodas tinha toda a essência de vagabundo, desde as vestimentas de linho branco, sapatos bicolor de couro, cabelos alourados bem cuidados, físico atlético, daquele que nos anos cinqüenta faziam suspirar, as virgens e as putas. Essas últimas tinham toda a sua atenção, elas o sustentavam. Agora o filho morto, e também à bala. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-e-coisas-de-botequim-iii-o-p-de.html PAPOS E COISAS DE BOTEQUI - II - A SAFADA - 09Set2008 01:29:00
![]() Mas toda sexta feira é assim, é de praxe. A tarde, a noite, e até a madrugada é longa. Ouvem-se os primeiros acordes desconexos, afinavam os cavaquinhos, o violão, um tan..tan.. aqui e outro ali, o vocal dá duas porradinhas no microfone, solta o famoso; ?alô... alô..., um, dois, três, testando?, pigarreia e começa a cantarolar, afinando a voz, acompanhado pelo quarteto. O ritmo era inconfundível. Pagode partido alto. A batucada foi esquentando, fazendo fundo musical, o cantor empolgado, cumprimentou a platéia: - Boa tarde para todos. Sejam bem-vindos ao Amigos da Vilas. - O Grupo Pinima, agradece a oportunidade de poder apresentar algumas músicas que estamos preparando para o nosso próximo CD. - Agora, um pagodinho só pra divertir vocês, segura aí! E soltou a voz. Mas a letra... Meu Deus! A coisa das mais esdrúxula, porém, sem deixar de ser hilariante para qualquer um, ou para alguém que pudesse ouvir naquela tarde, batucada, depois de algumas tantas biritas. ziriguidum paraquitum ta ta (introdução) Se eu ser-se Uma barbuleta doirada Das zarza azulDa cor dos zargodão Eu vivia dando vortas nas lâmpidas Só pra dize, não sei cende Um pau de fósfiro Ardevolve amor Ardevolve peste Ardevolve o estandarte Que eu ti déste (estribilho) Barbuleta não sou! Se eu ser-se? Barbuleta não sou! Se eu ser-se? Barbuleta não sou! Se eu ser-se? Encerrando a "música?" neste refrão os batuqueiros quase que incendiavam seus instrumentos; batendo os pandeiros, repenicando o tan tan, o bumbo, acompanhados pelas batidas das palmas das mãos dos presentes. Aliás, era a parte mais vibrante da apresentação. O andamento do ritmo era mesmo contagiante. Numa mesa isolada, protegida por uma peça tipo biombo, estava sentado um indivíduo pesando cento e dez quilos aproximadamente, alto, cabelos avermelhado, vestindo calça de linho branco, sapato mocassin da mesma cor sem meias, e uma camisa aberta, vermelha, de algodão com estampas de orquídeas brancas. Mas o que chamava a atenção mesmo era que ele usava; uma pulseira de duas voltas e um cordão de metro. As jóias, com no mínimo, um dedo de espessura, e um Rolex. Todas possivelmente de ouro. Um tremendo figuraça. Se não fosse, mas certamente era, bicheiro, ou presidente de escola de samba, chefe de milícia, as três coisas, e mais algumas outras. Poder ele tinha. Só com um bom lastro, garante-se andar aqui com todas aquelas ostentações douradas. Sereno como um tanque de guerra, mirou o Rolex, conferiu as horas, levantou-se, olhou sobre o biombo, e permaneceu de pé olhando fixo para além da porta de entrada. Simultaneamente todos também olharam para o outro lado da rua.Estava acontecendo uma metamorfose coletiva. Após ter estacionado com dificuldade a sua Ferrari vermelha em frente ao bar, mas lá do outro lado da rua, a mulata veio chegando, sestrosa, como diz na roda; um tremendo avião. Cabelo rastafári, vestidinho de malha branca quase transparente, sandalhão plataforma prata. Um mulherão.Um malandro pé de chinelo prostrou-se no balcão, no corredor principal, onde ela passaria obrigatoriamente, ali ficaria para tirar uma onda com ela, dar-lhe uma cantada. E para chamar a atenção gritou com o garçom e pediu:- Bota um limão aí, parceiro! - Mas não me venha servir refresco não! - Eu quero limão fruta espremido na hora, cachaça, num copo de 200 ml e sem gelo. Para os entendidos, é uma bebida de macho. Bom, sei lá! Já vi gay tomar essa ?porra?, mas enfim; dizem que para uma coisa ou a outra tem que ser muito macho mesmo. Bom deixa pra lá. Aquele monumento de mulher entrou no estabelecimento, de nariz arrebitado, comum do tipo, quando quer chamar atenção, e de se mostrar gostosa. Sem olhar para o lado foi passando quase que por cima das pernas dos seus admiradores. O malandro, mais audacioso, tentou impedi-la de passar, e ela com um simples olhar de desdém, vociferou: - Sai da frente seu merda! ? Cretino! ? Babaca! Não deu tempo nem do sujeito abrir a boca. Desmoralização total, noventa e nove por cento dos ?biriteiros? presentes ficaram às gargalhadas. Só quem não riu foi o mudinho vendedor ambulante sentado na soleira da porta, e o cafetão, espumando pela boca. Ela continuou o seu desfile até o meio do recinto, aproximou-se do biombo e cumprimentou o indivíduo abraçando-o. Sentaram-se. Ela cruzando as pernas e deixando em exposição e sem cerimônia suas maravilhosas coxas. Poucos minutos depois, notava-se que pela rudeza dos gestos, que a conversa dos dois não estava lá sendo muito amistosa. Ela levantou-se abruptamente, e com o dedo em riste abriu o verbo em alto e bom som: - Qual é a tua Cadinho? - Ta ficando sovina agora é? Em tom mais alto ele respondeu, mas sem se levantar: - Cala essa tua boca de vagabunda! ? Ta pensando que tu é o quê? - Olha aqui Cadinho... - Tu não pode me tratar assim não, ta! - Não tratar assim o quê... - Tu agora é uma piscina doméstica, pouco uso e manutenção cara!- Não me encha mais o saco mulher! ? Quer dinheiro? - Vai se virar! - E tem mais, pare de ficar na minha cola! ? Vou acabar te dando uma coça pra aprender. - Mas Cadinho meu amor... Você está nervoso! - Nervoso é o cacete... - Sai fora, e deixe aqui a chave do carro! ? Não vou dormir em casa! - Mas como é que eu vou voltar para casa? - A pé!- É... - Vai a pé... ? Sua piranha safada! Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-e-coisas-de-botequi-ii-safada.html PAPOS E COISAS DE BOTEQUIM - I - PRIMEIRO GOLE - 09Set2008 01:21:00
![]() - É aqui mano Saraiva, chegamos! - Avenida 28 de setembro, hoje batizada de Boullevar 28 de Setembro, Vila Izabel, o lar doce lar de Noel Rosa, de muitos outros nomes que já se foram. - Mas hoje temos Martinho, sua filha Mart?nália... ? Olha, não vou listar! - É muita gente boa! - A Vila é quase um santuário do Samba - Um celeiro para muitos outros poetas e compositores que ainda hão de vir. - Neste local nascem sambas por segundo, bebem-se litros de chope, e cachaça. - Por fim, bebe-se mesmo é de tudo, e muito. - Os entendidos no assunto, dizem que o goró daqui é um combustível inspirador, necessário na criação de uma nova bossa, acabar uma letra, compor mais uma melodia, e também para varar a madrugada só pelo prazer da boemia. - É o oásis dos amantes da boa música, da bebedeira, e dos contempladores das mulheres. - Todas lindas, e bem dotadas, principalmente de bundas. - Essa coisa das mulheres daqui terem as bundas grandes... - Será que é de tanto rebolar amigo Silveira? - Talvez seja mano Saraiva... - Talvez seja! - Mas, vamos adentrar! - Há uma mesinha livre ali no canto. Entraram e sentaram-se. Estranhamente era a única mesa vazia. Talvez por ela ficar numa quina de parede, próxima ao início do corredor que segue para os mictórios. Não era ali um dos melhores lugares para se ficar. O vai e vem da porta de molas, impregnava o corredor com forte fedor de mijos. Também, com tanto chope servido... Ficar ali era um pecado mortal para o olfato diante dos aromas emanados dos petiscos deliciosos, tira-gostos, que ainda bem quentes, passavam flutuando sobre as cabeças dos convivas, que eram levados pelos garçãos num vai e vem alucinante, driblando as mesas e cadeiras numa apresentação de equilibrismo fenomenal. Empunhavam numa das mãos duas, três e até quatro bandejas com os referidos petiscos. Iguarias pra nenhum bom degustador botar defeito. Na outra mão, sustentada pelos cinco dedos, uma única peça, uma bandeja de bom diâmetro, feita de aço polido com dúzias de copos tulipa, suados, cheios de chope dourado, enfeitados cada um com uma espessa camada de espuma cremosa e alva. Pode ser muita pretensão, mas esta descrição da bebida, diriam que seria de Drummond. Se ele aqui freqüentasse é claro, mas não, ele era muito conservador. Passou-se uns poucos minutos, e sem combinarem, acenaram e chamaram um atendente para a mesa, em alta voz e uníssona. - Um garçom aqui, por favor!- Se não gritar não vem. Disse o anfitrião.No meio da multidão sob aquele burburinho, um garçom, acenou de volta: - Já estou indo! Em passos curtos e ligeiros, condição mínima para dar atendimento a todos os seus clientes, aproxima-se um paraibinha atarracado, cabelo grisalho, vestindo o habitual na sua função; jaqueta branca, calça preta e uma gravatinha borboleta pequena, bem de acordo com a sua estatura. Destacava-se dos demais exatamente por ser baixinho. Era o Severino. Já perto da mesa, apontou o dedo em direção dos recém chegados e sapecou: - Já pediram? Simultaneamente, jogou sobre o ombro o pano de limpeza, sacou do bolso o talonário, arrancou a tampa da esferográfica com os dentes. E... - Ainda não! ? respondeu a dupla. - Vão querer o que? - Peça Silveira! ? Você já é conhecido da casa. - Virino (apelido dele) eu e o meu amigo chegamos aqui mais sedentos do que esfomeados. ? Então pra começar, descole dois brancos, zero grau e na pressão. Uma porção de provolone, outra de azeitonas gregas e duas caipirinhas com pouco açúcar... - Traga as caipirinhas primeiro! - Só se for agora patrão! ? Vou pedir a cozinha pra caprichar, numa deferência toda especial por vocês terem prestigiado, em particular esta minha mesinha. Passou ligeiramente um pano na mesa, e saiu ele, rodopiando entre os móveis, equilibrando a bandeja. E aproveitando o caminho de volta para recolher das mesas os restos, os cinzeiros cheios de guimbas, copos e pratos usados, sumindo por trás do balcão em direção à cozinha. Não se passaram dez minutos, e o Virino voltou. Pouco antes ele já tinha trazido as caipirinhas, deixou na mesa o que eles haviam pedido. E num breve cumprimento desejou: - Bons apetites senhores... ? Qualquer coisa, é só me chamar. - Divirtam-se! Não tinha ele se afastado, e os copos de caipirinha já estavam abaixo da metade da dose. Eta sede. Virino não estava errado quando desejou que eles se divertissem. Ao lado do balcão, uma movimentação chamava a atenção. Já havia uma mesa redonda arrumada com toalha branca, cinzeiros e copos emborcados. Os esperados iam chegando e sentando-se em volta da mesa. Eram cinco homens, cada um trazia na mão ou no ombro, bolsas; umas pequenas, duas bem grandes e outras nem tanto, agacharam-se, e abrindo-as rapidamente, foram aparecendo; cavaquinhos, violão, pandeiro, e outros instrumentos de percussão para uma perfeita batucada. O mistério foi desvendado. Chegara o Grupo de Pagode. A tarde ia ser longa. Fonte: http://contei-porai.blogspot.com/2008/09/papos-e-coisas-de-botequim-i-primeiro.html Faça o seu registo
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