Menu

Antologia

No cais

Blogosfera

Mundo Cão

Recomenda-se

Mundo Novo

Blogues

Diversidades

Crítica

Consagrados

Especial

Especial África

Últimos Feeds






Sant´Ana

Encapuzado - 25Mar2019 15:38:10
Quem é?
É? Pode ser, mas também a sombra leva a melhor sobre o que se espera ver depois de desenhado e até mesmo os riscos que se rasgam no ar fazem esboço do que se espera os outros compreendam tanto ou tão melhor de quem agitou o braço, tapou a boca, abafou o sussurro.
Pode ser, deve ser... Ou talvez não, que julgo terá rosto crestado e da base do queixo notam-se as cicatrizes de caminhar erguido e da falta de medo do escuro.
Então... Será ela?
Quem sabe? Se desliza na ponta dos dedos e marcha no branco do papel pode ser qualquer um ou uma qualquer, digo, mais outra que se perdeu nessa vida de poema e pede a dor como tinta de letras.
Cobre-se
Desnuda-se.
Extravaza-se no canto alargado de uma elipse, não procura o fácil, entorta-se no género, na capa que gosta de arrastar pelas linhas de um caderno.
A todos os que comigo estiveram, um beijo.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=76387

Vai o tempo devagar e num repente a esquina das horas bate-me no rosto, nos olhos marejados de ter deixado passar o desassossego de dizer.
Da última vez vim triste. Irada até. Violentada nas mãos que uso como ferramentas. As duas mãos. Alguns de mim são canhotos, vêem as cousas como eu as não vejo, dão-lhe nomes incorrigíveis às palavras que sei desde sempre e afinal é tudo novo...
Hoje chego de coração descompassado, um subterrâneo que escavo para ir guardando todas as emoções que me aconchegam os ombros, o peito, as dores do que é bom que doer também é de tanto. Sentir. Sentir-vos, tocar-vos. Simples, simples. Como o nome que damos às cousas. Obrigado.


Com um abraço especial que hei-de apertar à Cleo

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=75693

Plágio outra vez?! NÃO! - 25Mar2019 15:38:10
É lamentável que hoje aqui venha, mais uma vez expressar - e avisar - a minha tristeza e revolta por mais um plágio.

E pasme-se!

Plagiaram o meu texto sobre plágios intitulado "CLONES" (Julho/2008)

Ironia?
Não. Sem carácter. Sem vergonha. Sem espinha dorsal.

Eis o link:

http://valdenesilva.blogspot.com/2008/08/gostar-bom.html#links




Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=70612

O cabeça de burro - 25Mar2019 15:38:10
Lá fora a chuva.
Cá dentro um ambiente morno e uma manta de viagem pelos joelhos.
Lá fora nem noite nem dia.
Cá dentro um copo de vinho tinto "Cabeça de Burro".
Lá fora só xi da água a caír a direito sem incómodo do vento.
Cá dentro nem tempo de moscas é.
A folha impiedosamente silenciosa ergue-se penetrante na máquina de escrever.
O autor está sentado erecto, braços traçados sobre o peito, os olhos fitos nas teclas redondas escuras mas já nem sequer consegue distinguir as letras, os numeros, os pontos, as virgulas e os outros sinais.
À força de tanto olhar já nada vê e uma mancha parda enloda os contornos da realidade.
Fecham-se as pápebras num bater rápido do sono e num estremeção agita-se, despertando-se desta coisa menor.
Respira fundo, buscando no âmago as palavras que se atrasam.
E de tanto esperar, distrai o espirito com o pó da mesa, nas cutículas secas dos dedos da mão esquerda, nas duas narinas avidamente vazadas do seu muco, no treino de rolar impurezas do seu organismo entre a pinça do polegar e o indicador.
Pronto! Acabou o recreio.
O autor bate enérgico nas pernas, palmas abertas acordando o sangue que se lhe toldou.
E assim fica: paralisado na acção, no pensar, na saída do caudal imenso daquele romance já tantas vezes escrito e aperfeiçoado nas noites de insónia. Recorda-se perfeitamente dos tempos dos verbos, inscritos a bafo quente na fronha de algodão, no virar das páginas pintadas a letrinhas negras, e na sublimação do dever cumprido ao partilhar tal genialidade com toda a população.
Mas agora não sai nada.
Bebe gentil a golinhos finos o "Cabeça de Burro". Talvez o vapor etílico lhe faça subir o texto calcado em tal fundo que não o descobre.
Sente uma dormência maravilhosa, uma leveza nos membros e na cabeça que lhe dão um aconchego de colo.
Um suave calor embrulha-o consolando a ausência da veia artistica.
Recorda-se agora, como numa explosão, das contas de telefone e da electricidade que devem vencer por estes dias. Factos mesquinhos que nunca deveríam ocupar espaço algum no intelecto do autor, do artista.
Sim! Porque o artista não é um homem comum: alimenta-se porque necessita que o corpo se mantenha vivo para os seus leitores; paga contas para que passe despercebido entre os mortais.
Leva assim, esta vida dupla, duplamente árdua da vulgaridade e do espirito.
E nesta dicotomia sente-se perdido, como se fosse um apátrida, sem céu nem inferno, apenas aliviado quando a pressão da arte se escapa pelos seus dedos para o papel branco.
Aí tudo lhe é familiar: as letras, as palavras, as frases, as personagens que criou e a quem deu vida, rumo e tantas vezes a morte como destino final.
É que o autor é como um deus.
Tem em si o poder de parir e matar.
E o autor é também um anjo: sem sexo, tanto pode aparecer aos leitores como macho fecundante como mulher fatal que liquida as suas presas após a leitura da sua obra.
Perdido nestas cogitações, o autor apercebe-se da presença do seu cão, estiraçado de lado sobre o tapete gasto de tanto pisar.
Dorme o cão, calmo, indiferente ao turbilhão de ideias que enchem o autor.
Que pensará este cão que está fechado ao mundo?
O autor afaga-o, sentindo as orelhas compridas macias, veludentas, agora com uma sensibilidade extra na ponta dos dedos...o tinto néctar continua a percorrer o seu corpo lenta, vagarosamente como um veneno serôdio que invade o interior das suas veias, substituíndo o sangue.
Senta-se perto do cão continuando a acariciá-lo. Sorri quando a ponta da cauda se agita demonstrando o agrado pela atenção dispensada.
Enrola-se o cão como uma fartura de feira e volta ao seu sono, ignorando a angústia do seu dono.
O autor fecha os olhos e agora não consegue pensar em nada: há um vazio a ocupar um espaço na sua cabeça, que sendo vazio ocupa lugar.
Tenta abrir os olhos mas não lhe apetece. Nem tão pouco consegue: as pálpebras pesadas parecem estar cosidas para todo o sempre e agora já nada mais vislumbra.
So lhe resta apelar à imaginação e às recordações.
Mas tudo é um cansaço e só de tentar recuperar o assento frente à máquina de escrever deixa-o estafado.
Exausto, pesado e agrilhoado ao "Cabeça de Burro" desiste de lhe tentar escapar e num abandono profundo e saboroso deixa-se ir.
Recostado no sofá, o cão aquecendo os seus pés, dorme.
A chuva aumentou lá fora e agora acompanhada de vento, atira-se às vidraças violenta.
Mas para o autor só há silêncio.
Entreabriu a boca, o queixo pendeu um pouco, solta sons guturais de dentro de si e quase nada o diferencia do cão, ambos fechados à vida.



"Cabeça de Burro" é um vinho da zona do Douro

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=61083

O salto - 25Mar2019 15:38:10
Foi naquele dia mas bem podería ter sido num outro qualquer.
Não teve contratempos ou noticia feliz que o fizessem sobressaltar para que o mecanismo se activasse e como uma mola oleada, disparasse o projéctil ou iniciasse a contagem decrescente da bomba-relógio.
Não sentiu nada em especial que o movesse ou alterasse no seu intimo, tão pouco visões de alucinado ou a revelação de um santo desconhecido.
Quando se abeirou da janela, um pardal voou lesto.
Seguiu-o com o olhar até o perder no verde da cabeleira frondosa da árvore defronte ao edificio onde morava: examinou com muita atenção as ramadas tentando descobrir onde a ave se escondera, mas ao fim de algum tempo a pesquisa deu em nada e desistiu.
Olhou para o passeio lá em baixo e notou uma perna de uma mulher a saír de dentro do carro qua acabara de estacionar; depois o braço esquerdo a desvendar-se a compasso da perna e por fim o topo da cabeça, amarela, quase brilhando de tanto louro.
Pensou para si que estranho era, saber assim e desta forma, quase incompleta, que se tratava de uma mulher...
Depois viu-a entrar no prédio contiguo ao seu. Imaginou-a a aparecer pelas suas costas, dentro do seu quarto, poisar a mão e o braço que vira, no seu ombro; Talvez ele cheirasse e beijasse até aquele cocoruto louro brilhante se ela encostasse a cabeça ao peito dele.
Ficou um pouco à espera. Chegou mesmo a pensar que ouvira o som metálico das chaves a abrirem a porta, o tacão alto enfeitando a perna de gémeo redondo martelando a sua chegada. Fechou os olhos ao de leve na expectativa da presença próxima mas ao fim de algum tempo a espera deu em nada e desistiu.
Passou as pernas para o lado de fora e ficou sentado no parapeito, as mãos ladeando o corpo como duas colunas. Debruçou-se um pouco à frente e avistou a biqueira castanha dos seus sapatos. Achou que não estava certo ter assim a liberdade sem chão e calçado.
Tirou os sapatos e as meias e sentiu-se bem quando o ar se entrelaçou nos dedos dos pés, rodeou os tornozelos, volteou até ao torso e o surpreendeu num afago junto ao pescoço e orelhas e ainda na nuca.
Sorriu.
E deixou-se deslizar para fora daquele parapeito, daquele edificio, daquela vida de calçado apertado à procura de pardais livres e de metades de mulheres como adivinhas.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=53490

Manhã sem tempo - 25Mar2019 15:38:10
Acordou com os joelhos frios, os pés quentes, a mão agarrada à coberta que teimosamente presa não aconchegava o pescoço.
Uma leve luz filtrada pelos cortinados e às bolinhas pelos furos da persiana semi-corrida, piscou-lhe nos olhos. Fechou-os de novo, suave, aquela sensação boa do lençol macio de anos de uso, a almofada feita ao jeito da face, tudo silencioso, o gato aninhado entre ela e o homem que dorme a seu lado.
Olhou para o relógio: 6,30 da manhã.
E fica-lhe aquele numero a martelar, como se de alguma coisa importante se tratasse, que 6,30 da manhã é tão só uma hora como outra qualquer e agora e aqui deitada está-se tão bem, tudo tão sereno, em paz consigo.
Já passam mais de 40 minutos desde que o despertador cumpriu a sua função, mas só nos outros dias, que hoje ela amordaçou-o ou deu-lhe ela o tempo para ser somente um marcador de numeros, não um avisador de levantar os outros da cama, onde se está tão bem, tão bem.
O homem solta um suspiro, quase um silvo, os dedos vêm para fora da dobra do lençol macio a coçarem a barba que cresce desde véspera. A mão forte puxa a coberta de esticão e ela ficou agora mais destapada, os joelhos mais descobertos, o gato cravou as unhas para manter o seu território fofo e quente entre o homem e a mulher.
Ela quer voltar a adormecer mas o corpo não deixa, demasiado viciado na preocupação do levantar ao toque do zunido do despertador, anos demais a erguer-se porque tem de ser, é a vida...Ficar assim, a saborear este pequeno fruto, verde pela novidade e cobiçado porque só desejado, faz da simplicidade o gosto pela descoberta do tesouro.
A mão toca o ombro do homem, de costas para si: ela quer saber o que ele está a sentir, se igual a ela, tocá-lo e achar que o calor do corpo dele provém desta serenidade, talvez quem sabe, enroscar-se nele, deixar-se beijar, de novo adormecer, de novo acordar, repetidamente achar-se unica no mundo confinado àquele quarto de luz filtrada.
O homem dorme.
Ela recolhe a mão e abraça os joelhos frios junto ao peito.
Pensa que a felicidade é momento solitário.
O hábito obriga-a a olhar o relógio: se se tivesse levantado, onde estaría agora? Ouve no silêncio do quarto a buzina dos carros, a conversa dos anónimos. Abre os olhos. Não ouve nada, talvez um som fundo, difuso, o ronronar do gato, o ressono marulhado do homem.
Hoje a mulher não se levanta nem corre.
Ficou ali a ouvir-se, a sentir a claridade às bolinhas no recorte do ombro do homem que tem a barba a crescer, agarrada às pernas presas para que estas não lhe fujam ao comando e num impulso, agarrar o telefone e ofegante dizer "estou atrasada, já vou a caminho".


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=49872

Se um dia... - 25Mar2019 15:38:10
Diz-me que te lembrarás de mim depois de eu ir, mesmo que seja só na partida da separação de nós dois, diz-me que pensarás em mim de vez em quando mesmo que o faças só porque a melodia que toca no rádio era a que eu cantarolava, diz-me que te lembrarás de mim quando escutares alguém chamar um nome igual ao meu e até procurarás saber se serei mesmo eu, diz-me que te lembrarás de mim no cheiro da hortelã-pimenta, era esse o meu hálito lembras? Ou então não digas nada, não lembres nada, fiquemos os dois como somos agora, a segregar todos os pormenores um do outro como se algum dia precisássemos de dizer, anda diz-me que te lembras de mim se um dia eu partir.
Este foi o texto do meu descontentamento, um dos que me "levaram".

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=48182

Páginas de mim - 25Mar2019 15:38:10
Hoje não quero comer.
Não preciso, não sinto a fome. Só a alma esfomeada, bulímica deste corpo que já o foi, se perde na magreza destes dias vãos, soltos mas contados a risco de soldado na linha da frente perante uma ausência do bem, do belo.
Arranquei folhas do meu livro, mal tiradas de pedaços ainda pegados à lombada, uma cola teimosa que não me deixa esquecer de vez passagens de páginas com marca e sublinhado de coisa importante. Pensei enganando-me que se puxasse de uma só vez estas folhas eliminaría um capitulo para sempre, tão desnecessário se veio a revelar, seguiría a história sem este sobressalto sujo e sórdido de uma protagonista que parece não ter vivido, apenas desenhada a linhas de letra minúscula.
Preciso esquecer este enredo no meio do meu livro, eliminar de todo os figurantes, colar o capitulo anterior ao que vem, destruír essa linha que coseu páginas cheias, mas mentirosas.
Hoje quero jejuar.
De tudo.
Fazer tábua rasa dos venenos que injectei, sangrar e ferrar a bomba do coração, purificar-me e abrir um novo caderno, limpo, branco, pronto para me receber como mereço.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47675

Hera - 25Mar2019 15:38:10
Antes de ir encho-me de todas as coisas que me fazem vida.
O teu cheiro, a tua voz, os teus passos no corredor quando chegas tarde na noite e eu finjo dormir só para te dar o prazer de me despertares como uma princesa. Preguiçosa, que só ao segundo beijo o teu hálito morno parece ser a dose certa para me fazer abrir os olhos e ver-te, ver-te sempre de forma renovada nas rugas que marcam os nossos caminhos.
Antes de ir saboreio-te nas gargalhadas, soltas, ecoadas, coladas a estas paredes que de nelas me encostar sinto o teu abraço à volta da minha cintura, os segredos na orelha desta casa.
Por isso pintei uma hera.
Envolvi-me nela e abraçei esta coluna como se dela me fizesse estátua.
Antes de ir vou estar: seja estátua de olhar, coluna de suster ou hera de agarrar.
E se me tentares colher saberás que na hera há o poder de te envolver, apertar, germinar rápido e trepar, atando-me a ti para todo o sempre. Como o fazes quando me beijas tarde da noite.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=47494

Clones - 25Mar2019 15:38:10
Gostar é bom. É natural, humano e também racional e denúncia de carácter.
Copiar é preguiçoso, ambíguo, mal-amado, bastardo.
Roubar é feio, vil e purulento.
Por isso roubar o que é de outros é o mesmo que tentar levar no sono dos justos o pedaço de cérebro que fabrica os sonhos. O que dá bónus de vidas à vida corriqueira e alinhada, é fazer do comezinho a vida de outros e tentar decalcar na própria vida a que não se tem arte para ter.
Quero eu com isto dizer que plágio de letras é o mesmo que amputar-me. Que até podem clonar-se de mim, mas nunca terão aquilo que só eu vejo e tenho capacidade de revelar.

*Desabafo de quem voltou a ser plagiada.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=45784