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Xavier Zarco

há dias assim, dolce fare niente,
mas ela liga e diz que vem aí,
sento-me no café nacional, em
vila do conde, por entre uma cerveja
e outra, julgo escutar uma conversa
tida entre o belo e o guerra carneiro, eu,
como o ruy belo, espero pela minha
teresa, ora que, mesmo sem domingo,
e não havendo já telefonia,
há bola na tv, como o carneiro
não sintonizo para essa conversa,
melhor, o tal monólogo que ali
houve nos idos anos sessenta, e
enquanto ela não chega, outra cerveja
pousa na minha mesa, atento à bola
procuro por aí a poesia.

Xavier Zarco

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=337495

1640 - 25Mar2019 15:38:39
mil seiscentos quarenta portugal
voltou a ter por dono do destino
os seus mal ou bem tal coisa é-me igual
cumpre-nos cumprir sermos o menino

que sabe dar valor ao seu nariz
já sei vão me dizer não é poesia
pouco importa também o que se diz
cuido do meu nariz dia após dia

é meu bom ou mau belo ou feio é meu
até quando a mamã beija o dói-dói
e sabe bem confesso mas o seu
a seu dono assim tal como se sói

dizer e digo ó ruy belo tratei da unha
da tal também o faça a catalunha

Xavier Zarco
29/09/2017

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=328538

como rosa não choro pela pátria
sequer tenho por esta a visão
de língua do bernardo

mas o exílio sophia
esse que nos diz temos e no entanto
as mãos vazias
por vezes nos tolda o olhar

da pátria
meu poema o que direi

talvez como régio
recorde
o mesmo sem vontade
com que rasguei o ventre à minha mãe

mas não porque mesmo longe
sei
o como em seu rosto
fui desenhando sorrisos
mesmo quando a dor
a cobria com seu véu

sabes poema a pátria
para a ideia de pátria
sou mais como o oliveira e vou plantando
e cuidando o meu canteiro

e talvez um dia
a minha pátria seja eu
e sejas tu
e sejamos nós

e talvez aí
a pátria seja pátria
e assim minha



Xavier Zarco


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=305904

um poema no instante em que é escrito (mero impulso, nada mais do que isso):


gira no gira-discos manuel de falla
e digo onde o erudito onde o povo
onde

não há fronteira aqui

a arte não nasce para elites
mas para todos

todos

como se diz nem só de pão
vive o homem

que haja então pão para haver vida
não mera existência

enquanto isso escuto falla
canção do fogo fátuo



Xavier Zarco

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=305694

[sei] - 25Mar2019 15:38:39
sei
devia aprender
mais
sobre o outono

por exemplo
desenhar folhas de árvore
em pleno voo
ou beber
o vento na palma da mão

sei
devia aprender

mas dizem que o outono é signo
da morte
e essa anda comigo
de mão dada
a toda a hora e todo o instante

minha bela e leal companheira

todos os dias
mesmo que não o diga
diz

mesmo que a vida cesse irá comigo


Xavier Zarco


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=305314

SOB EPÍGRAFE DE AGOSTINHO GOMES

Só para vestir a Primavera
E imitar o canto dos pássaros.

Agostinho Gomes

1.

trago palavras na algibeira
palavras
que buscam um sentido outro ao que as veste

quando a noite cai
embalado nos braços da insónia
deito-as sobre a mesa

e sonho a primavera do poema

2.

lá fora o vento acorda as árvores
enquanto as palavras
essas
alinhadas em verso em si descobrem
o próprio cântico dos pássaros


Xavier Zarco


1.º Lugar no XVI Concurso de Poesia Agostinho Gomes (C.M. Oliveira de Azeméis) - 2015


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=301827

SOB EPÍGRAFE DE FERNANDO NAMORA


?Tanto ou mais que as pessoas, os lugares vivem e morrem. Com uma diferença: mesmo se já mortos, os lugares retêm a vida que os animou.?

Fernando Namora


1.

aqui todo o silêncio é habitado
como se fosse cinza
que ciosa
guarda a memória da madeira

2.

ainda escuto a linguagem
do fogo

as pedras enegrecidas
acordam-a

rente ao olhar do poema

3.

todo o poema nasce
e sabe
do silêncio

quando em silêncio
dorme
nas páginas de um livro

4.

poema
esse lugar onde a vida
permanece

como álbum de família
sempre pronto

para ser
a janela da memória



Xavier Zarco

1.º lugar no V Concurso ?Poesia na Biblioteca? (Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova) - 2015


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=301773

Vendo ?Paisagem com a queda de Ícaro?, de Pieter Brueghel




william carlos williams já disse
o que havia a dizer
dos trabalhos que o dia a dia pede
até da primavera

o ofício do pão não pede o belo
não se rende à paisagem
cuida-se da terra em busca do sustento
assim como do mar

o destino que coube a ícaro cabe
na íntegra a cada um de nós
seremos queda resumida
ao ponto na distância

Xavier Zarco

2.º Lugar no I Concurso de Poesia Albano Martins (2014)


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=301737

EPÍSTOLA A AFONSO LOPES VIEIRA - 25Mar2019 15:38:39
EPÍSTOLA A AFONSO LOPES VIEIRA



escrevo-te
afonso lopes vieira
à beira deste mar que como poucos
soubeste cantar

e sinto que o mar chora
tal como o disseste
ao ritmo do meu sangue

não sei afonso se deva
perguntar ao mar quantas lágrimas
como pessoa o fez
de portugal são o seu sal

não sei

sequer sei se pergunta alguma cabe
num verso onde a palavra mar resista
com a palavra português

confesso a minha ignorância

mas afonso se te escrevo
à beira deste mar que nos pertence
por que não dizer da alma que o habita

por que não
pergunto a ti afonso que o cantaste
e a mim que o escuto agora aqui no verso
desta epístola

será preciso um olhar estrangeiro
para nos dizer
tal como o do mello mourão
que o mar foi por nós inventado

bem sei
vê-se melhor de fora do que dentro
sei-o bem
bem demais ou não fosse o poeta
um eterno exilado

e agora afonso o que nos resta
esta europa
desenhada a catorze estações
sem esperança
sem uma décima-quinta
que nos diga
da ressurreição
ou seja somente isto há amanhã

não afonso e tu sabes como o sabes
do canto do verde pinho
que dom dinis cantou

e como o sabes

desse canto candeia de futuro
do batel caravela nau que existe
dentro do canto

porque há um caminho uma índia
outra
a demandar

tu sabes
e por isso tu cantas este mar
nosso
de cada dia

porque sabes afonso que nós somos
como o poveiro dito por brandão
só não vamos ao mar quando a morte
é certa

e mesmo assim nós vamos sempre vamos



Xavier Zarco


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=300149

BUENOS AIRES - 25Mar2019 15:38:39
BUENOS AIRES



no bar plaza dorrego sob os ecos
de sábato e de borges desfiamos
a conversa o café de outrora serve-nos
quiçá de inspiração sente-se o aroma
nos tampos de madeira que preservam
a memória de amores mesmo sendo
somente nomes nomes e promessas
sob o olhar casual de quem os lê
talvez rendido ao jogo que o mosaico
branco e negro sugere ou talvez não

mas lá fora no entanto escuta-se o
bater do coração próprio do bairro
de san telmo e saímos para a praça
por onde o bar bebeu seu nome e a música
mantém-se desenhada na conversa
ao ritmo de diástoles e sístoles
como se piazzolla aqui estivesse
oblivion libertango adios nonino
nos gestos de cada um que nos sorri
vuelvo al sur e a fragrância do mar beija-nos

assim vejo buenos aires mesmo
que não cresça a cabeça como os pés (1)
como canta alfonsina storni mesmo
assim buenos aires é poema
salão de dança pássaro que mesmo
pousado num beiral sabe que o seu
fado é voo esse golpe de asa e canto
cidade em que rendemo-nos ao sonho
de tudo ser possível como se o
tempo aqui fosse só este momento

e compreendo então o que escreveu
roldán também me queimo como um ícaro (2)
blasfemo de arrogância inocente e
sei que a felicidade é um parêntesis
na narrativa oculta que nos legam
talvez por isso colha a cera as penas
e ruma ao sol e escreva a sangue o verso
como se regressasse ao bar e sábato
e borges me dissessem da conversa
da busca da palavra intemporal


Xavier Zarco

Notas:
(1) STORNI, Alfonsina ? Buenos Aires. In ?Soy una y soy mil?. http://soyunaysoymil.wordpress.com/ 2011/10/23/buenos-aires-de-alfonsina-storni-recitado-por-gloria-ale (último acesso a 06.09.2014).
(2) ROLDÁN, Carlos Alberto ? Poesíada, Editorial El Escriba, Buenos Aires, Argentina, 2007, p. 12.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=300111