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Henrique Cachetas

demora - 25Mar2019 15:35:20
falar de mim, falar de ti, falar do que há em nós do mundo.
tão pouco em tanta coisa.
ler-te, leres-me, ouvir-te em mim, ouvires-te no que digo.
tanto a atravessar-nos,
a viajar entre os destinos que ambos somos.
sentires cruzados por sombras memórias,
lembrares cortados por seres sensações,
sonos cansados de ouvires acordados.
zumbe das palavras qualquer coisa que se agita,
que devolve ao espaço do silêncio haver sentidos,
e o que escapa nunca vai embora,
e o que leio, e o que digo, e o que é sempre comigo.
é sempre imcompleto, por ser demais ou demenos
por demorar entre o chegar e o esquecer.
só o vazio é completo em si,
em ser por nada lhe faltar para existir.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=143937

ilegível - 25Mar2019 15:35:20
estou de uma forma ilegível, como a marca na folha debaixo de onde se escreve, que só um lápis pode desvendar.
saberei eu distinguir um gesto das minhas mãos dum movimento da minha vontade? será a pele o limite extremo dum toque ou o meio contínuo que liga as vibrações moleculares das sensações? saberão elas que me esquecem o porquê de querer tocar-te extinguindo-me o conteúdo, acendendo-te a forma na noite desta terra de emoções?
eram afirmações interrogativas, escavadoras de interiores desordenados, que na volta me descobrem a fonte de bem estar, também interior, a querer escorrer em rio até ao mar, que sem uma destas fontes nenhum rio poderá afogar o mal que nele está, apenas cobrir enquanto corre.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=136022

Mosaico - 25Mar2019 15:35:20
O impulso da liberdade
Tropeça no que é a vida.
Ressalta, na Realidade,
Sem chegar a ser sentida.

Uma acção ao espelho inverte
A imagem que vai causando.
Decido o que me liberte
E falho mesmo acertando.

Perante o que é escolher:
O mosaico que me monta.
E antes sequer de o querer,
Finjo que faço de conta.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=122157

vice-versa - 25Mar2019 15:35:20

quem acredita é como se soubesse
porque sabe uma verdade.
acreditar é saber a verdade de outros.
quem sabe é como se acreditasse
porque acredita na sua verdade.
saber é acreditar que não somos loucos.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=122082

SANDMAN - 25Mar2019 15:35:20
são tantos os caminhos que me têm
agora como ponto de partida,
mas só um eu percorri, mal ou bem,
no Destino que só é desta vida.

de tantas vidas por que caminhei
em nenhuma delas encontrei sorte
pois morri. e nesta, triste, já sei,
que a última a morrer será a Morte.

de tanto Sonho que por mim passou
guardo aquele que me faz querer sonhar.
à areia que em meus olhos se deixou
quero tê-la enquanto a vida durar.

com tanta Destruição me deparo,
abrindo os olhos ao mundo em que vivo,
que sem querer também destruo e reparo
que se não destruir não sobrevivo.

a tanta coisa quero segurá-la
que me escapa até o que mais Desejo.
mas quando consigo só quero dá-la
para não ser só cá dentro que a vejo.

a tanto que se quer e não se alcança
se deve tudo o que é em exagero.
quando se acaba toda a esperança
o que há a seguir é o Desespero.

com tanta confusão nem tenho medo
da alucinação que vive por mim.
deste mundo já lhe sei o segredo:
vai viver em Delírio até ao fim.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=117570

Há quem fale - 25Mar2019 15:35:20
Há quem fale dos outros ou de si.
Há quem fale de coisas ou do mundo.
Eu cá falo do nada e mesmo mudo
Digo qual a razão porque escrevi.
Escrevi porque senti e me iludo
Nestas palavras que antes escolhi.
São pós-sentidas se não as vivi
Mas vivem-me se lendo a mim me mudo.
De qualquer forma entendo no que leio
Que a partida é um infundado anseio.
Que em todo o caso fico aquém do fim.
De qualquer modo é sem medo que escrevo
Que sinto estas palavras que te levo.
Que há no que entendes um pouco de mim.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=116517

duas linhas - 25Mar2019 15:35:20
Duas linhas quase cruzam na ignição da sensação, e nas ideias que as usam desliza o som da razão. Chega a mim p'ra que me sinta mais perto do que está longe, p'ra que a mim mesmo me minta sentindo o que à vida foge. Aproxima de mansinho todo o mal que me faz bem porque ao longo do caminho me vou sentindo também. Que dizer da sensação quando é só p?ra ser sentida? Na palavra ela é razão; no coração é a vida.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=116218

Visto daqui - 25Mar2019 15:35:20
(Por trás de olhar estou noutro lado, a caminhar de olhos fechados.)


Não sinto, não escrevo, não me encontro.

Mas os fios negros que saem da caneta vão ocupando espaços brancos com ideias, atravessados entre a memória e o papel, entre a rua em que estou e a minha presença. A temperatura treme-me o traço, por ser inverno até aos ossos de tudo o que é vivo, das pessoas estranhas até às entranhas que se escondem por baixo do frio que me envolve os movimentos.

Não penso, não espero, não me iludo.

Mas desenha-se esta rua nos meus olhos. Passam nela pés frenéticos, amontoam-se montras estéticas lado a lado; passeios paralelos como os passos desta gente, que não se cruzam a não ser no alinhamento de onde as vejo, transeuntes pelas chuvosas horas passageiras.
Entram luzes pela abertura da visão. Na atenção paira entre prédios as traseiras, doutra rua que com esta abraça o quarteirão. O som do trânsito entupido nos ouvidos, esse sim, cruza o da outra rua da qual vejo as traseiras, na melodia citadina da hora de ponta à ponta da cidade.

Não ajo, não escolho, não me escuto.

Mas está a chegar a altura em que as palavras me ouvirão chamar por elas, numa intensidade sonora inaudível ao sentido desta rua, que sobe independentemente da minha vontade em estar parado. E rua acima estas palavras se aproximam, nas pedras calcadas das calçadas, nas pegadas que me afastam das pessoas.
Ainda que caladas, são boas as palavras que nos ouvem, é bom tudo o que grita o que não temos para dizer.

E entanto não me entendo, em tanto não digo, não consigo.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=115279

Intervalo - 25Mar2019 15:35:20
a luz é fosca,
a sombra dura
enquanto há.
haver é estranhamente acontecer.
acontecer é na memória haver quem sou.
há um intervalo entre
o momento em que me entendem
e o lugar para onde vou.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=114314

Não saber para que lado é o céu
de tão longe,
nesta Terra sem centro a não ser outros,
a não ser os momentos que sou eu.
Ubíquos pensamentos se entrelaçam
em vagas luminosas, em pontos cintilantes
onde nem no firmamento nos segredam.
Não ter o que dizer dos passos vãos
que as pegadas do mundo escorregam nos meus pés.
Enquanto à roda segue a Terra toda.
Mais cega o Sol que a noite inteira
e a espera é dos ocasos engolirem as auroras.
A vista desarmada oculta as horas verdadeiras
por trás do dia presas,
por trás do sono aceso de estarmos acordados.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=114196