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Roque Silveira

eu queria descansar o meu cansaço
cobri-lo com a noite mais escura
como pedra cair fora do espaço
viajar para dentro da lonjura

eu queria ir até num barco à vela
no alto dum caralho ou dum capeta
e ver ao longe a ponta de uma estrela
a sugar-me o corpo todo violeta

até nem tenho aqui o que fazer
esta folha de azul eu nunca quis
que minhas tintas são as de esquecer.

então deixo cair do corpo o tema:
asa quebrada, um punho no nariz
verso sem cor no rosto do poema

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=342351

Oh, paciência [...]
quem desdenha o prazer da vaidade,
para de algum modo ser eternidade?
como seria
alcançar na mão
um nico de bem, de belo, de justo ou de certeza
depois, deixar fluir da veia a língua entorpecida
e, no delta do tempo secar com um poema
toda a tristeza,
da mesquinha vida?
para os julgamentos mais límpidos? a mais obscura noite.
e, se alguém me chama, enquanto estou dormindo?
ai! da bela eternidade, não verei um pingo.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=337972

meu sonho de ferro - 25Mar2019 15:37:51
se amor vem
do equilíbrio entre sombras e luz
sou talvez incêndio e água

ah, nada sei
tua boca estrangeira
não entende a minha boca

e eu, pedinte
já sem tempo
encharcada
por meus olhos de água
suponho tuas mãos
a mirar pedras neste espelho.

espero, espero, espero
mais umas linhas e desalinhas

enquanto em mim dói
cada página muda
onde nada muda
na impiedade do verbo cego
onde me deito
repetidamente

ah, tua boca estrangeira
não entende a minha boca

um lábio de silêncio
virá despedir meus olhos
dos teus tiranos
tirar deste meu chão
o movimento onde me encerro
(já são nove anos)
eu
coração nocturno
num sonho de ferro

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=337721

dor falha - 25Mar2019 15:37:51
ah, vejo agora esse manto branco
por onde deixas escorrer um sangue negro
sem perspectivas ou desejo

já vem de longe a pergunta
com resposta de silêncio pálido
olhos vazios, boca seca à espera da luz
que ilumine a palavra dia

depois na noite lenta, sobra-me
apagar a miséria do poema inacabado

eu sei porque bebes,
se não beberes não levas o corpo a casa

desenrolas da garrafa a ribanceira onde cais
com os pensamentos, já sem ar, pulmão em lava,
trovão e treva em parafuso, fino tormento
onde sem querer moras.

ou será talvez a fome da semente
o gosto maduro da criação
a razão porque choras

e eu sem cuidar tolo torpor
tocando sonhos e fundas
falhando sempre essa dor.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=337283

por sinal - 25Mar2019 15:37:51
deixaste-me um mundo partido
onde me inventaste só;
acima, a cinza do céu
com tumulto de pássaros tristes
e a neblina do tempo
a mandar embora
o ontem onde ainda existes.

lembro-te musical e passado
com um toque de chuva
e um cheiro a Outono.
e eu, não conheço mais ninguém
neste campo sepulcral,
meus sentimentos ao abandono
onde por sinal

creio que nem Deus?veio ao meu funeral.



Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=336091

puro e simplesmente - 25Mar2019 15:37:51
se soubesses ah, como sou triste
porque ficas longe e tão ausente
talvez na estrada velha que existe
junto a minha casa, em frente
ali passasses, por acaso, valente.

se soubesses ah, como é doce
um coração com outro coração
talvez por um minuto que fosse
estivesses à minha porta
ah como amigo, ou mesmo irmão

se soubesses ah, como é bela
para a alma uma simples visão
talvez olhasses para a minha janela
assim, como o destino
de quem olha, sem razão

se soubesses ah, como te amo
fosses tu, corrente de ar somente
talvez por esta porta sem batente
entrasses como pássaro que reclamo
ah, puro e simplesmente.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=335070

neste canto secreto onde ficamos
uma só alma, nós dois
que bom é esquecer os outros
perto deles. depois
agarrar o tempo que foge
apreciá-lo sem ser preciso
fazer da alegria o grito
ser apenas sussurro no ar. disso
guardar o momento num gesto
numa palavra, num sopro só
ter medo, de o perder. no vão celeste
não sermos pó.
nesse cantinho tão nosso
para o infinito nos ver
abracemo-nos um ao outro
sem mexer.
não tremas sequer os cílios.
doce repouso sejamos
calmamente como eles, lado a lado,
adormeçamos.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=334751

palmas e fracassos - 25Mar2019 15:37:51
palmas e fracassos
nunca se sabe o que é,
se um dia é da tristeza
o outro é do adeus.
não queres um nome
para perseguir o sol
ficas-te como areia na mão
escorrendo pelos dias.
se pensas que ganhaste
andas e cais sozinho.
pois é,
nada se leva, nem sequer um nome
nada de nós fica nem sequer a voz
mas se em ti existe humanidade
só isso basta
para seres memória
para seres saudade

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=334725

caminhando - 25Mar2019 15:37:51
Talvez a vida seja toda ela uma preparação para nos despirmos da materialidade e na morte atingimos em pleno a espiritualidade; se uns são mais rápidos nesse caminho e conseguem afastar dos olhos as nuvens pardas da matéria são também mais aptos a valorizar as próprias sensações; de fato só estas nos acompanham para lá da vida: na morte ou no sonho.
Tenho ao abandono um velho ramo de extintas rosas que de vez em quando visito; viajo no tempo e volto a viver o minuto eterno e sempre belo, sempre fresco, da sua chegada e nesse momento sou infinitamente rica. Feliz possuidora da minha sensação.
Também ando sonhando muito: de vez em quando tropeço no espelho da realidade, umas vezes rio, outras vezes choro e muitas vezes grito. Esqueço que o que é bom é ser nada. Todos os que foram alguma coisa mataram ou morreram pelas suas certezas e nenhum estava errado, nenhum estava certo. Grandezas de cegos quando o que importa é observar, caminhar e seguir uma luz ? desprendidamente - para não cegar.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=333063

abate do poema - 25Mar2019 15:37:51
rasgo as folhas uma a uma
mato palavras a pau
nem por sorte sobra uma.
não sou forte nem valente
a cobardia é meu lema
e a minha boca fechada
abate mais um poema.
meu corpo é massa disforme
como tanto do que penso
o meu sangue não tem nome
a minha alma não grita
e, a cada fome que vem
tomo castelos ao vento
que dentro nem gente tem.
aqui tombo apavorada
pela folha de um papel.
palavras sendo asas brancas
por onde andam se são tantas
para que existem se as não tenho?
ah, não mereço a poesia
porque a medo me desenho.

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=332905