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Mal-Situados


- 17Nov2010 11:00:00
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar



Daniel Faria
(Porque tudo tem um fim.)


Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2008/10/homens-que-so-como-lugares-mal-situados.html

O rei de Assini - 16Nov2010 16:38:00
E Assini...
ILÍADA

Olhámos ao longo da manhã em redor de todo o castelo
começando pelo lado da sombra aí onde o mar
verde e sem cintilação, o peito de um pavão
    morto
nos acolheu como o tempo sem nenhuma fenda.
As veias da rocha desciam do alto
vides contorcidas nuas de muitos ramos ganhando vida
ao tocar a água, enquanto os olhos que as seguiam
lutavam para escapar ao cansativo embalo
perdendo cada vez mais força.

Pelo lado do sol um longo mar costeiro todo aberto
e a luz esfregando pedraria nas grandes muralhas.
Nenhuma figura viva os pombos-bravos partiram
e o rei de Assini que há dois anos
    procuramos
desconhecido olvidado por todos e por Homero
apenas uma palavra na Ilíada e essa incerta
atirada para aqui qual a máscara tumular em ouro.
Tocaste-lhe, lembras-te do seu som? Oco dentro da luz
como o odre seco na terra escavada;
e o mesmo som no mar com os nossos remos.
O rei de Assini um vazio debaixo da máscara
por todo o lado connosco, debaixo de um nome:
«e Assini...e Assini...»
                                  e os seus filhos estátuas
e os seus desejos um esvoaçar de aves e o vento
nos espaços das suas reflexões e os seus barcos
atracados em porto que não se vê;
debaixo da máscara um vazio.

Por detrás dos olhos grandes dos lábios curvos do cabelo
    encaracolado
relevos na cobertura de ouropel da nossa existência
um sinal obscuro que viaja como o peixe
pela serenidade alvorescente do mar e estás a vê-lo:
um vazio por todo o lado connosco.
E a ave que voou num outro inverno
com a asa quebrada
paradouro de vida,
e a jovem mulher que partiu para brincar
com os caninos do verão
e a alma que procurou os guinchos o mundo inferior
e o lugar como a grande folha de plátano que a torrente do
    sol arrasta
com os monumentos antigos e a tristeza contemporânea.

E o poeta demora-se olhando as pedras e
    interroga-se
existem acaso
entre estas linhas estragadas as arestas os gumes
    os côncavos e as curvas
existem acaso
aqui onde se encontra a passagem da chuva do vento
    e do desgaste
existem o movimento do rosto o traçado do carinho
daqueles que diminuíram tão estranhamente dentro da nossa vida
desses que ficaram sombras de vagas e reflexões com
    a imensidade do mar
ou porventura não nada fica a não ser apenas o peso
a saudade do peso duma existência viva
aí onde agora sem substância ficamos vergando
como hastes do salgueiro abominável amontoadas dentro da lama
    juncaria arrancada
imagem de rosto que se tornou mármore na decisão de uma
   amargura para sempre.
O poeta um vazio.

Com seu escudo o sol subia combatendo
e do fundo da caverna um morcego assustado
bateu na luz como a flecha sobre o escudo:
«e Assini e Assini...» Não seria ele o rei de
    Assini
que procuramos tão minuciosamente nesta acrópole
tocando por vezes com os nossos dedos o tacto deles
    sobre as pedras.

Assini, verão 38 - Atenas, Jan. 40

Yorgos Seferis
Poemas Escolhidos
Relógio D'Água, 1993
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis


Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/o-rei-de-assini.html

O velho - 16Nov2010 16:21:00
Passaram tantos rebanhos tantos pobres
e ricos cavaleiros, outros
das aldeias distantes passaram
a noite nas valetas da estrada
acenderam fogueiras contra os lobos, vês
a cinza? Negrejantes círculos cicatrizados.
Está cheio de marcas como a estrada.
Ao poço seco mais acima atiravam os cães
com raiva, não tem olhos está cheio
de marcas e é leve; o vento sopra;
não distingue nada conhece tudo,
bainha vazia de cigarra em árvore oca
não tem olhos nem nas mãos, conhece
a alba e o ocaso conhece as estrelas
o sangue delas não o alimenta, nem sequer
está morto, não tem tribo, não morrerá
esquecê-lo-ão simplesmente, nem sequer antepassado.
As unhas cansadas nos seus dedos
escrevem cruzes sobre lembranças podres
enquanto o turvo vento sopra. Está a nevar.

Vi a geada em redor dos rostos
vi os lábios húmidos as lágrimas geladas
no canto dos olhos, vi a linha
de dor junto das narinas e o esforço
nas raízes da mão, vi o corpo a acabar.
Nem solidão tem esta sombra amarrada
a um pau que secou que não verga
não se baixa para se deitar, não pode;
o sono espalharia as suas articulações
pelas mãos das crianças para brincarem.
Ordena como os ramos mortos
que se partem quando anoitece e o vento
acorda dentro os barrancos
ordena às sombras dos homens
não ao homem dentro da sombra
que não ouve excepto a voz baixa
da terra e do mar aí onde se juntam
à voz do destino. Está completamente de pé
na margem, entre novelos de ossos
grades vazias esperando
pela hora do fogo.
Drènòvô, Fevereiro 1937

Yorgos Seferis
Poemas Escolhidos
Relógio D'Água, 1993
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis


Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/o-velho.html

Cântico XIII - 16Nov2010 12:22:00
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


Cecília Meireles

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/cantico-xiii.html

Canto I - 15Nov2010 21:07:00
E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.
Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até ao término do dia.
Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano,
Chegamos aos confins das águas mais profundas,
Até o território cimeriano,
E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios de sol, nem
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra, sobre os homens fúnebres.
Refluindo o mar, chegamos ao local
Premeditado por Circe.
Aqui os ritos de Perímedes e Euríloco e
«De escava a cova cobital escavo».
Vazamos libações a cada morto,
Primeiro o hidromel depois o doce
Vinho mais água com farinha branca.
E orei pela cabeça dos finados;
Em Ítaca, os melhores touros estéreis
Para imolar, cercada a pira de oferendas,
Um carneiro somente de Tirésias,
Carneiro negro e com guizos.
Sangue escuro escoou dentro do fosso,
Almas vindas do Erebus, mortos cadavéricos,
De noivas, jovens, velhos, que muito penaram;
Húmidas almas de recentes lágrimas,
Meigas moças, muitos homens
Esfolados por lanças cor de bronze,
Desperdício de guerra, e com armas em sangue
Eles em turba em torno de mim, a gritar,
Pálido, reclamei-lhes por mais bestas;
Massacraram os rebanhos, ovelhas sob lanças;
Entornei bálsamos, clamei aos deuses.
Plutão, o forte, e celebrei Prosérpina;
Desembainhada a diminuta espada,
Fiquei para afastar a fúria dos defuntos,
Até que ouvisse Tirésias.
Mas primeiro veio Elpenor, o amigo Elpenor,
Insepulto, jogado em terra extensa,
Membros que abandonamos em casa de Circe,
Sem agasalho ou choro no sepulcro,
já porque labutas nos urgiam.
Triste espírito. E eu gritei em fala rápida:
«Elpenor, como veio a esta praia escura?
Veio a pé, mais veloz que os marinheiros?»
E ele taciturno:
«Azar e muito vinho. Adormeci
Na morada de Circe ao pé do fogo.
Descendo a escadaria distraído
Desabei sobre a pilastra,
com o nervo da nuca estraçalhado,
O espírito procurou o Avernus.
Mas, ó Rei, me lembre, eu peço,
E sem agasalho ou choro,
Empilhe as minhas armas numa tumba
À beira-mar com esta gravação:
Um homem sem fortuna e com um nome a vir.
E finque o remo que eu rodava entre os amigos
Lá, erecto, sobre a tumba.»
Veio Anticléia, a quem eu repelia,
E então Tirésias tebano,
Levando o seu bastão de ouro, viu-me
E falou primeiro:
«Uma segunda vez? Por quê? homem de maus fados,
Face aos mortos sem sol e este lugar sem gáudio?
Além do fosso! Eu vou sorver o sangue
Para profecia.»
E eu retrocedi,
E ele, vigor sanguíneo: «Odysseus
Deverás retornar por negros mares
Através dos rancores de Netuno,
todos os teus companheiros perderás.»
Depois veio Anticléia.
Divus, repouse em paz, digo Andreas Divus,
In officina Wecheli, 1538, vindo de Homero.
E ele velejou entre sereias ao
largo e além até Circe.
Venerandam,
Na frase em Creta, e áurea coroa, Afrodite,
Cypri munimenta sortita est, alegre, orichaldi, com dourados
Cintos, faixas no seios, tu, com pálpebras de ébano
Levando o ramo de ouro de Argicida. Assim:



Ezra Pound
Os Cantos
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de José Lino Grünewald


Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/canto-i.html

Mensagem aos adolescentes - 15Nov2010 21:03:00
Crianças, experimentai fazê-lo em casa
e sabereis como é bom sem ninguém vos contar.
Recordai que não há nada que vos possam ensinar vossos pais.
Eles não são vós.

Deitai-vos, bebei.
Há séculos que estas coisas acontecem
e ninguém demonstrou até agora
que sejam muito piores que a guerra.
Há um paraíso para lá dessa linha branca.

Tudo o que faz mal e vós não fazeis,
crianças, estai-lo trocando pela serenidade.
Falaram-vos dela? Algum de vós sabe a que sabe?

Se ignorais quem sois, evitai o rodeio
de averiguá-lo, juntai-vos aos outros. Um lugar no grupo
é um posto no mundo;
ora bem,
crianças,
erga lá a mão o que queira morrer sendo útil e sensato.
Lá está, não é nada divertido.

Quanto ao resto, eu sei que não sois felizes,
quando menos pensáveis que todo o mundo vos odeia.
Pois é certo, mas não faltam motivos, sois jovens e
estúpidos e não tendes direito
a todo esse futuro que ides desperdiçar (como nós, aliás).

Estais sós, é isso? Com efeito.

Aprendei a ser livres, da mentira não fujais;
sabereis por experiência que é mais sólida
que qualquer verdade pactuada.

E sobretudo,
meus lindos,
não deveis crer
que a vida vale a pena vivê-la
só por tal jurarem desde sempre os maiores cabrões.


José Luis Piquero
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/mensagem-aos-adolescentes.html

Monólogo do vello traballador - 15Nov2010 12:55:00
Agora tomo o sol. Pero até agora
traballei cincoenta anos sin sosego.
Comín o pan suando día a día
nun labourar arreo.
Gastei o tempo co xornal dos sábados,
pasou a primavera, veu o inverno.
Dinlle ao patrón a frol do meu esforzo
i a miña mocedade. Nada teño.
O patrón está rico á miña conta,
eu, á súa, estou vello.
Ben pensado, o patrón todo mo debe.
Eu non lle debo
nin xiquera iste sol que agora tomo.
Mentras o tomo, espero.


Celso Emílio Ferreiro

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/monologo-do-vello-traballador.html

Criação - 14Nov2010 19:26:00
Estou vivo e de manhã surpreendi as estrelas.
A companheira dorme ainda e não sabe.
Dormem todos, os companheiros. O claro dia
vejo mais nítido que os rostos submersos.


Passa um velho à distância, a caminho do trabalho
ou a gozar a manhã. Não somos diferentes,
ambos respiramos o mesmo esplendor
e fumamos tranquilos para enganar a fome.
Também o corpo do velho deve ser puro
e vibrante ? deveria estar nu ante a manhã.


Esta manhã a vida escorre-nos na água
e em terra: em torno o fulgor da água
sempre jovem e a descoberto os corpos de todos.
Haverá o grande sol e a aspereza da praça
e o rude cansaço que nos verga para o chão
e a imobilidade. Estará a companheira
- um segredo de corpos. E cada um dará sua coisa.


Não há voz que rompa o silêncio da água
de manhã. Nem nada vibrando sob o céu.
Apenas um calor que dissolve as estrelas.
Treme-se ouvindo vibrar a manhã virginal,
como se nenhum de nós estivesse acordado.


Cesare Pavese
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/criacao.html

Massa - 14Nov2010 12:49:00
No fim da batalha,
morto o combatente, apareceu-lhe um homem
dizendo: ?Não morras, amo-te tanto!?
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Então vieram dois e repetiram:
?Não nos deixes, coragem, volta para a vida!?
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Acudiram então vinte, cem, mil, quinhentos mil,
clamando: ?Tanto amor e nada poder contra a morte!?
Mas o cadáver, ai, lá ia morrendo.
Então rodearam-no todos os homens da terra;
olhou-os o cadáver triste, emocionado;
pôs-se em pé lentamente,
abraçou o primeiro homem; e começou a andar...


César Vallejo
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/massa.html

Julguei passar meu tempo - 13Nov2010 11:50:00
Julguei passar meu tempo
amando
e sendo amada
começo a dar-me conta
que o passei despedaçando
e sendo por meu turno
des
-pe
-da
-ça
-da.


Claribel Alegria
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/julguei-passar-meu-tempo.html

- 13Nov2010 06:30:00
«Mas ninguém se atrevia a dizer-lhe nada, porque todos o temiam. Sim, na idade em que a maior parte das pessoas se encolhem o mais que podem, como que para se desculparem de continuarem presentes, Louis fazia com que o temessem e comportava-se como bem lhe dava na gana. Até a sua jovem esposa renunciara a forçá-lo a arriar a bandeira, valendo-se da cona, esse ás de trunfo das mulheres novas. Porque sabia o que ele faria caso ela negasse a entreabrir-lha. Mais, Louis ia ao ponto de lhe exigir que lhe facilitasse a tarefa, servindo-se de meios que ela considerava frequentemente exorbitantes. E ao mais pequeno sinal de revolta da parte dela, ele ia ao lavadouro buscar a pá de bater e espancava-a até ela reconsiderar. Diga-se entre parênteses.»
(...)

Samuel Beckett
Malone está a morrer
Dom Quixote, 1993
Tradução de Miguel Serras Pereira

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/mas-ninguem-se-atrevia-dizer-lhe-nada.html

- 13Nov2010 06:26:00
«Deixarei de responder às perguntas. Tentarei também não as fazer. Há-de ser possível enterrar-me, deixarei de ser visto à superfície. Daqui até lá fico a contar histórias de mim para mim, se for capaz. Não serão histórias do mesmo género que antes, mais nada. Serão histórias nem bonitas nem feias, calmas, nelas já não haverá fealdade, nem beleza, nem febre, será quase vida, como o artista. O que é que eu disse agora? Não tem importância. Prometo-me muita satisfação, uma certa satisfação. Estou satisfeito, aí está, estou pronto, reembolsam-me, já não preciso de nada. Deixem-me começar por dizer que não perdoo a ninguém. Desejo a todos uma vida atroz e depois as chamas e o gelo dos infernos e nas execráveis gerações vindouras uma memória honrada. Por esta noite basta.»
(...)

Samuel Beckett
Malone está a morrer
Dom Quixote, 1993
Tradução de Miguel Serras Pereira

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/blog-post.html

Início de Agosto - 12Nov2010 19:03:00
Início de Agosto. Há um ano atrás, eu estava na Rússia. O calor era intenso, as ruas de Moscovo ardiam, o céu estava sempre coberto por nuvens brancas, e por cima do campo de aviação os pilotos cruzavam-se, vacilavam e tornavam a juntar-se, como veleiros, momentos antes da tempestade. A juventude entusiasmava-se com os saltos de pára-quedas. De uma altura de cinco ou seis mil metros, os pára-quedistas lançavam-se na vertigem do vazio, deixavam-se cair como pedras e ao mesmo tempo cantavam, para não serem mortos pela pressão atmosférica. Aos nossos ouvidos chegavam fiapos do seu canto heróico. Depois, já muito perto do solo, já muito perto do cume prateado das torres de rádio, abriam o pára-quedas e aproximavam-se do solo devagar. Quanto tempo duraria? Minutos? Víamos como eles caíam, numa lentidão terrível, e como depois flutuavam. Tudo numa fracção de segundo. Uma proletária de dezassete anos lançou-se de uma altura de três mil metros e matou-se. Quando a encontraram, a mão agarrava com toda a força a asa da sacola, em vez do fio que abriria o pára-quedas. Terá sido proclamada «heroína do povo»?



Annemarie Schwarzenbach
Morte na Pérsia
Tinta-da-China, 2008
Tradução de Isabel Castro Silva


Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/inicio-de-agosto.html

Precisão - 12Nov2010 09:44:00
O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.



Clarice Lispector

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/precisao.html

Adeus - 11Nov2010 15:40:00
Qualquer coisa esta tarde valia tanto
como a minha vida. Qualquer coisa pequena
se alguma há. Um martírio para mim esse ruído
sereno, sem escrúpulos, sem eco,
de teu sapato baixo. Que vitórias
busca quem ama? Porque são estas ruas
tão direitas? Nem olho para trás nem posso
já perder-te de vista. Esta é a terra
do escarmento, até os amigos
dão má informação. Minha boca beija
aquele que morre, aceitando-o. E a própria
pele dos lábios é a do vento. Adeus.
É útil norma, dizem, este sucesso. Fica
tu com as nossas coisas, tu, que podes,
que eu vou para onde a noite quiser.


Claudio Rodríguez
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/adeus.html

A paixão - 10Nov2010 21:34:00
Saímos do amor
como dum desastre aéreo
Tínhamos perdido a roupa
os documentos
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Por cima dos móveis
pela casa
só despojos quebrados:
copos retratos livros desfeitos
Éramos sobreviventes
duma derrocada
dum vulcão
de correntes enfurecidas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
mas não sabíamos para quê.


Cristina Peri Rossi
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/paixao.html

Insónia - 10Nov2010 21:28:00
Madrid é uma cidade de mais de um milhão de cadáveres
(segundo as últimas estatísticas).
De noite às vezes eu reviro-me e entro
neste nicho em que apodreço há 45 anos,
passando longas horas a ouvir gemer o furacão, ou ladrar os cães,
ou correr brandamente a luz do luar.
E longas horas passo gemendo como o furacão,
ladrando como um cão enfurecido,
correndo como o leite do ubre quente duma grande vaca amarela.
E passo longas horas interrogando Deus,
perguntando por quê minha alma apodrece lentamente,
por quê apodrece mais de um milhão de cadáveres nesta cidade
de Madrid,
por quê no mundo apodrecem lentamente mil milhões de cadáveres.
Diz-me, que horto queres adubar com a nossa podridão?
Temes que se te sequem os grandes roseirais do dia,
as tristes açucenas letais de tuas noites?


Dámaso Alonso
Tradução A.M.

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/insonia.html

Em suma - 09Nov2010 20:53:00
Um a um foram saindo de cena
os companheiros. Partiam, com a tarde,
para fins empobrecidos,
na rota dos eleitos para filhos e despesas.
As noites faziam-se livrescas,
estendiam sobre mim o seu império
de silêncios e desfalques.

Entretanto, engrossava o meu diário
de rasuras, de cálculos moídos,
partilhado por verrinas e recados
sem resposta. Bebia o desalento
por canecas de latão, corria
as persianas. É muito pouca sorte.

Os versos, com o tempo, tornavam-se mais longos,
cresciam para trás, para fora
dos cadernos, ocupavam a minha vida
tal a morte na semente de madeira.
Afeiçoava-me isso sim à solidão, cortava
o negativo dos afectos, protegido na cabeça
por um chapéu de feltro;
pois essas são as coisas e as coisas
que ontem nos pareciam boas
não existem.



José Miguel Silva
Vista para um Pátio seguido de Desordem
Relógio d'Água, 2003


Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/em-suma.html

- 09Nov2010 19:20:00
já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor: Não chores
- o melhor movimento do meu cérebro vales menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

E a morte julgo nenhum parêntesis


e.e. cummings
xix poemas
Assírio & Alvim, 1998
Tradução de Jorge Fazenda Lourenço

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/ja-que-sentir-e-primeiro-quem-presta.html

- 09Nov2010 19:17:00
algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me,eu e
minha vida fecharemos em beleza,de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos


e.e. cummings
xix poemas
Assírio & Alvim, 1998
Tradução de Jorge Fazenda Lourenço

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/algures-aonde-eu-nunca-viajei.html

Eco tardio - 08Nov2010 21:07:00
Sós com a nossa loucura e a flor referida,
Vemos que não há mais nada sobre que escrever.
Ou antes, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre,
Do mesmo modo, repetindo vezes sem conta as mesmas coisas,
Para que o amor continue e a pouco e pouco vá mudando.

Colmeias e formigas têm de ser eternamente reexaminadas
E a cor do dia aplicada
Centenas de vezes e variada do verão para o inverno
Para que o seu ritmo desça ao de uma autêntica
Sarabanda e ela aí se feche sobre si mesma, viva e em paz.

Só nessa altura a crónica desatenção
Das nossas vidas nos poderá envolver, conciliadora
E com um olho posto naquelas longas opulentas sombras amareladas
Que falam tão fundo para o nosso mal preparado conhecimento
De nós próprios, máquinas falantes dos nossos dias.


John Ashbery
Uma onda e outros poemas 
Quetzal, 1991

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/eco-tardio.html

- 08Nov2010 21:06:00
A luz da tarde era como mel nas árvores
Quando me deixaste e caminhaste até ao fim da rua
Onde subitamente acabava o pôr-do-Sol.
A ponte levadiça bolo-de-noiva desceu
Sobre a frágil flor de miosótis.
Tu subiste para bordo.

Horizontes ardidos de súbito revestidos de pedras douradas,
Sonhos que eu tive, alguns com suicídios,
Enchem agora o balão de ar quente.
Está a rebentar, vai rebentar não tarda,
Com qualquer coisa invisível
Só durante os dias.
Nós ouvimos, e por vezes aprendemos,
Tão juntos,

E fazemos descer o sangue, e outras coisas assim.
Foi então que os museus se tornaram generosos, vivem na nossa respiração.


John Ashbery
Uma onda e outros poemas 
Quetzal, 1991

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/luz-da-tarde-era-como-mel-nas-arvores.html

Última estação - 08Nov2010 02:32:00
Poucas foram as noites de luar de que gostei.
O a-bê-cê dos astros que se soletra
Tal como o traz o penar do dia que se fina,
Dele se tirando novos sentidos e novas esperanças, mais claramente pode ler-se.
Agora que aqui estou desocupado a meditar, poucas luas me ficaram na memória;
As ilhas, a dorida cor da Virgem, o lento declinar
Do luar nas cidades do norte, que por vezes lança
Nas ruas agitadas, nos rios, nos membros dos homens,
Um pesado torpor.
No entanto, ontem à noite, neste nosso último cais
Onde aguardamos que amanheça a hora do regresso
Como uma antiga dívida, uma moeda que ficasse durante anos
No cofre dum avarento, e por fim
Chegasse o momento de pagar e se ouvissem
Os cobres a tilintar na mesa,
Nesta aldeia tirrena, por detrás do mar de Salerno
Por detrás dos portos do regresso, no fim
Duma borrasca de Outono, a Lua furou as nuvens
E as casas na encosta da outra margem fizeram-se esmalte.
Silêncios que a lua ama.

Também isto é um rosário de pensamentos, um modo
De começarmos a falar das coisas que se confessam
Dificilmente, quando já não se aguenta mais, a um amigo
Que se escapou às ocultas e traz
Novas das casas e dos companheiros,
E nos apressamos a abrir-lhe o coração,
Não vá o exílio alcançá-lo e mudá-lo.
Viemos das Arábias, do Egipto, da Palestina, da Síria;
O estado de Comagena, que se apagou como uma pequena lanterna
Muitas vezes volta ao nosso espírito,
E as grandes cidades que viveram milhares de anos,
Delas só restando pastagens de búfalos,
Campos de cana-de-açúcar e de milho.
Viemos da areia do deserto, do mar de Proteu,
Almas maculadas de públicos pecados,
Cada um com seu cargo, como o pássaro na gaiola.
O Outono chuvoso nesta fossa
Inflama a ferida de cada um de nós
Ou, por outras palavras talvez, o destino fatal
Ou simplesmente os maus hábitos, a fraude e o embuste,
Ou ainda a cobiça do sangue dos outros.
Facilmente se tritura o homem na guerra
O homem é frágil, é um molhe de ervas,
Lábios e dedos que desejam branco peito,
Olhos semi-cerrados no esplendor do dia
E pernas que correriam, mesmo tão cansadas,
Ao mais pequeno assobio do lucro.

O homem é frágil e sedento como a erva,
Insaciável como a erva, e os seus nervos são raízes que alastram.
Quando é tempo de colheita,
Prefere que as foices silvem em seara alheia,
Quando é tempo de colheita,
Uns gritam para esconjurar o demónio,
Outros perdem-se nas riquezas, outros peroram;
Mas, esconjuros, riquezas e retórica,
Quando os vivos estão longe, de que servem?
Talvez o homem seja outra coisa?
Talvez não seja isto que transmite a vida?
Há um tempo para semear, há um tempo para colher.

De novo e sempre o mesmo, dir-me-ás, amigo.
Contudo, o pensamento do exilado, o pensamento do prisioneiro, o pensamento
Do homem que também se viu reduzido a mercadoria
Tenta mudar-lho, que não consegues.
Queria, se calhar, ser rei dos antropófagos
Desbaratar forças que ninguém procura
E passear pelos campos de agapantos
E ouvir os batuques debaixo dos bambus
Enquanto os cortesãos dançam com máscaras grotescas
Mas a Terra que massacram e queimam como um pinheiro e que vês,
Ou no vagão escuro, sem água, partidas as vidraças, durante noites e noites,
Ou no barco incendiado que há-de naufragar como ensinam as estatísticas,
Tudo isso criou raízes no espírito e não muda,
Tudo isso floriu imagens parecidas às árvores
Que lançam na floresta virgem seus ramos
Que voltam a cravar-se na terra e a florir
E lançam ramos e voltam a florir e galgam léguas e léguas,
Uma floresta virgem de folhas mortas é o nosso espírito.

E se te falo por fábulas e parábolas,
É porque assim são mais doces ao teu ouvido e porque o terror
Não se fala, que é coisa viva,
Que é coisa muda e avança sem parar;
Goteja todo o dia, goteja durante a noite
A dor das recordações.

Falemos de heróis, falemos de heróis: o Michális
Que fugiu com feridas abertas do hospital
Talvez estivesse a falar de heróis, na noite
em que, arrastando os pés pela cidade velada,
Gritava e tocava a nossa dor: ?Pela escuridão
È que vamos, pela escuridão avançamos??
Os heróis avançam na escuridão.

Poucas são as noites de luar de que gosto.


Yorgos Seferis
Tradução de Manuel Resende
daqui

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/ultima-estacao.html

Memória I - 06Nov2010 19:21:00
And there was no more sea.

E eu apenas com uma cana nas mãos.
A noite estava deserta, a lua minguante,
a terra cheirava à última chuva.
Sussurrei: memória onde quer que toques,
só há um pequeno céu, não há mais mar,
o que eles matam de dia eles carregam nas carroças e despejam
........ Atrás do cume.

Eu estava dedilhando esta tubulação distraidamente;
um velho pastor deu por mim porque eu disse boa-noite
..........para ele.
Os outros aboliram todos os tipos de saudação:
eles acordam, fazem a barba, e começam o dia a trabalhar no abate
como uma ameixa seca, de forma metódica e sem
.......... Paixão;
a tristeza está morta como Pátroclo, e ninguém comete um erro.

Pensei em tocar uma música e depois senti-me envergonhado em frente
........... Do outro mundo
aquele que me observa além da noite dentro
da minha luz
tecidos de corpos vivos, corações nus
e o amor que pertence às Fúrias
como pertence ao homem e à pedra e à água e à grama
e para o animal que olha directamente no olho da
aproximação à morte.

Então, eu continuei no caminho escuro
e virei para o meu jardim e cavei e enterrei a cana
e novamente sussurrei: alguma manhã a ressurreição
........ Virá,
a luz do amanhecer florescerá vermelha como as árvores brilham na primavera,
o mar vai nascer de novo, e arremessará outra vez a onda
........ Diante de Afrodite.
Nós somos a semente que morre. E entrei na minha casa vazia.



Yorgos Seferis
Collected Poems (1924 - 1954)
Yale University Press, 1971
Tradução de Luís Filipe Nunes 
a partir da versão inglesa de Edmund Kelley e Philip Sherrard

Fonte: http://mal-situados.blogspot.com/2010/11/memoria-i.html